Folha de São Paulo,
quarta-feira, 29 de dezembro de 2004
CPI DESASTROSA
(Editorial)
Foi um desastre o desfecho
da CPI do Banestado -aliás, em perfeita sintonia com a condução dos trabalhos,
que se estenderam, de modo estabanado, por um ano e meio. A comissão, criada
para investigar remessas irregulares de dinheiro para o exterior, sobre as
quais havia indícios contundentes, chegou ao término anteontem sem conseguir
votar seu relatório final.
Cingida entre o PT, representado pelo deputado José Mentor (SP), na função de
relator, e o PSDB, do senador Antero Paes de Barros (MT), que ocupou a
presidência, a CPI nem sequer reuniu quórum em sua última sessão -coroando de
maneira patética suas investigações. O relatório apresentado por Mentor pedia o
indiciamento do ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, ligado à
administração Fernando Henrique Cardoso. Já a proposta de Paes de Barros
excluía Franco e sugeria que se indiciassem Henrique Meirelles, hoje presidente
do BC, e Cássio Casseb, que presidiu o Banco do Brasil no governo atual.
A guerrilha política expressa nessas propostas esteve presente ao longo das
apurações, que desrespeitaram direitos e princípios elementares. Procedeu-se,
como se sabe, a uma indiscriminada quebra de sigilos que resultou num momentoso
banco de dados, em tudo propício a chantagens e coações políticas. O conteúdo
da apuração vazou e caiu em mãos de diversos círculos, expondo
irresponsavelmente a terceiros o histórico financeiro de mais de mil cidadãos
investigados.
Tão grave quanto os desmandos e conflitos que perpassaram os trabalhos, tem-se
agora uma situação que tende a favorecer a impunidade - pois, sem relatório
votado e à luz dos equívocos cometidos, oferecem-se aos advogados boas
condições para a tentativa de invalidar provas.
Por todos esses motivos, a CPI do Banestado prestou um desserviço à imagem do
Congresso Nacional e contribuiu para renovar as desconfianças a respeito da
eficácia dessa instituição, a princípio útil e valiosa, que é o inquérito
parlamentar.