O Globo, 05 de fevereiro de 2006 Versão impressa
‘Tudo mudou e está no mesmo lugar’
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Ao entrar no governo, chamou sua atenção a
úlcera recorrente de Murilo Portugal, então secretário do Tesouro. O senhor
conseguiu sair do governo sem ganhar uma úlcera?
GUSTAVO FRANCO: Sim, porém com
mais problemas para dormir, acima do peso. O governo é um emprego muito bom
fora dos momentos de crise. Mas eu saí num momento especialmente de crise,
então fica um pouquinho o gosto do final, que foi muito complicado. Não fez bem
à saúde.
O senhor saiu na mudança do regime cambial. Hoje o dólar está em torno
de R$ 2,20. Como vê a nossa moeda?
FRANCO: A título de curiosidade, se
você descontar a inflação, em praticamente todos os índices, o dólar de hoje
está abaixo do que estava quando eu saí. Ou seja, o que às vezes é insuportável
numa circunstância, na outra é totalmente aceitável. É curioso, são os ciclos
da economia. Tudo mudou e tudo está no mesmo lugar.
Em outros aspectos da política econômica, tudo está no mesmo lugar
também?
FRANCO: Não, isso eu acho que não. O
período que eu vivi no governo foi um período de transformação superintenso. Eu não creio que o período que se seguiu
tenha sido tão rico em matéria de mudança.
O livro mostra os duelos do Banco Central em suas intervenções no
mercado. Como vê a atuação do BC hoje?
FRANCO: Na minha época, tinha uma coisa muito contagiante, que era o governo todo
envolvido no mesmo projeto. E isso é raro. O normal talvez seja isso que a
gente tem hoje, um governo dividido, com propósitos relativamente obscuros, não
muito claros. Um lado rema para uma direção, o outro lado rema para uma direção
contrária, e você não tem muita clareza quanto à missão.
Havia blindagem política para aquela equipe econômica?
FRANCO: Isso foi essencial. Era o
produto de uma circunstância. Quando o chamado bunker
se forma, o Congresso estava paralisado pela CPI do Orçamento, o presidente
havia sido destituído, era o vice quem governava, havia um vazio que foi
ocupado por nós. Tínhamos um plano, num momento em que tudo o que o país não
tinha era um plano. E quando isso acontece, você se torna automaticamente
blindado. Talvez a palavra correta não seja blindagem, seja indulgência. O
mundo político nos deixou trabalhar.
No fim do livro, numa conversa com Malan, o senhor afirma que de certa
forma vocês haviam ganho a eleição, porque não houve
rupturas na economia. Agora, três anos depois, continua achando isso?
FRANCO: Não tenho a menor dúvida. (Luciana
Rodrigues)