O Globo, 05 de fevereiro de 2006 Versão impressa
Duelos no mercado e apoio internacional
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Um operador do JP Morgan, que trabalhava às escondidas num escritório
subterrâneo de Brasília, ajudou o Brasil a sair da moratória da dívida externa.
Era 1993 e o país precisava comprar títulos do Tesouro americano como parte do
plano de renegociação da dívida, conhecido como Plano Brady.
Todos os países da América Latina que tinham saído da moratória usaram recursos
do FMI para adquirir os títulos americanos, que seriam usados como
contrapartida no Plano Brady. Na prática, era um
suporte financeiro e também político do Fundo a esses países.
Mas o FMI não via com bons olhos o complicado projeto da URV, que seria
convertida na nova moeda, o real. Dava a entender que preferia um modelo de
dolarização à la Argentina. O governo brasileiro
partiu então para uma estratégia ousada: contratou um operador do JP Morgan
que, a partir de Brasília, sem que o mercado financeiro soubesse que atuava em
nome do Brasil, comprou os títulos necessários do Tesouro americano,
dispensando o FMI.
A operação sigilosa foi o primeiro de muitos dribles que a equipe
econômica de Fernando Henrique deu no mercado financeiro. Ao longo dos
conturbados anos do câmbio semifixo, o respaldo obtido junto à comunidade financeira internacional
rendeu dividendos.
— A blindagem de Malan foi construída no cenário internacional. Stanley
Fischer e Malan se tratavam pelo primeiro nome, assim como muitos integrantes
das equipes econômicas de Fernando Henrique e de Bill Clinton — conta Guilherme
Fiúza.
O apoio internacional ajudava a lidar com as turbulências internas. Nos
primeiros anos do real, a linha de frente do governo era a mesa de câmbio do
BC, responsável por evitar pressões contra a moeda. Como Fernando Henrique
costumava dizer a interlocutores, “o mercado tinha medo do
Mas a expertise dos técnicos do BC e os bons contatos na comunidade
internacional não foram suficientes para evitar a crise cambial de janeiro de
1999, quando o real sucumbiu. Fragilizado pelo
descumprimento do Pacote 51 — um conjunto de medidas fiscais que tinha a missão
de estabilizar a economia do país, mas que foi sabotado pelo próprio Planalto,
como revela o livro — e pelas crise na Rússia, a moeda
brasileira foi à lona e o governo teve que mudar o regime cambial. (L.R.)