Do Blog de
Guilherme Fiúza, 24/01/07 11:16 AM
Esclarecimento sobre o livro ‘3.000 dias no bunker’
Este espaço não é adequado para discutir o que o seu ocupante eventualmente escreve em outras páginas. Mas de vez em quando alguns comentaristas fazem a ponte. Aceitemos um pouco este jogo.
O livro “3.000 dias no bunker”,
de autoria deste signatário, já apareceu na seção de comentários pelo seu
esforço de tentar compreender a política brasileira nos últimos vinte anos. Mas
tem sido mais citado pelos que querem acusar este signatário de falta de
isenção.
Já que, pelo que dizem, há uma boa meia-dúzia de olhos
atentos ao que se escreve aqui, vamos reforçar um aviso que os mais antigos já
conhecem: este é um espaço PARCIAL.
Aqui tem opinião, tem palpite, tem chute. E tem muita,
mas muita mesmo, tomada de posição. Cada vírgula é quase um libelo.
Mesmo assim, as citações ao “bunker”
como insinuação de que as cartas aqui estão marcadas valem algumas considerações.
Como o livro está focado na saga da equipe econômica
de Fernando Henrique, alguns críticos rapidamente identificam-no como uma
espécie de press release dos autores do Real. É
normal. Para muita gente boa, a vida se resume a apedrejar judeu ou metralhar
palestino. Ou você ama o Flamengo, ou você odeia o Flamengo, e ponto final. São
mentes tranqüilas, pois aboliram a complexidade das coisas da vida e vivem
felizes assim.
Evidentemente, não se pode exigir dessa turma que leia
um livro inteiro. A quantidade de nuances ali contida seria uma agressão ao seu
discernimento bipolar. Os que escolheram não passar da orelha e das resenhas de
jornal também são filhos de Deus, merecem respeito.
Mas nada impede que se conte a eles o que está escrito
no livro.
Em “3.000 dias no bunker”,
fica-se sabendo, por exemplo, que o Brasil tombou feio na crise da Rússia por
conta de uma trapalhada grave dentro do próprio governo Fernando Henrique. Ali
está revelado que o furo no famoso Pacote 51 foi feito dentro do Palácio do
Planalto por razões eleitorais. Revelação estranha para um press
release governista.
Quem prestou atenção ao livro (e não estava com outro
olho no Big Brother Brasil) viu que não há ali
qualquer defesa da política cambial de Gustavo Franco. Aliás, o livro não faz
juízo de valor sobre taxa de câmbio, o que, cá para nós, é muito chato. Apenas
está mostrado que Gustavo, Malan e companhia acreditaram que era preciso lançar
na economia alguma âncora firme para proteger a nova moeda – qualquer âncora.
Tiveram êxito, e não está escrito em nenhuma das 336
páginas que a âncora A seria melhor que a âncora B, ou que a desvalorização do
real seria melhor no mês X ou no mês Y.
O livro é uma reportagem sobre o grupo que assumiu o
poder e, depois de décadas de tentativas, derrotou a inflação no Brasil. Não
está escrito que fizeram tudo certo. Apenas que fizeram
quase tudo o que quiseram, e fizeram História.
Gustavo Franco é um personagem arrojado, obstinado,
polêmico, que carregou a redação do Plano Real nas costas, enfrentou
várias vezes sozinho as águias do mercado nos tempos de guerra sangrenta, levou
a sério o sonho megalômano de salvar o país com uma idéia, acertou, errou, caiu
em desgraça, se levantou. O Fla-Flu mental dos
leitores de orelha dificilmente detectará o valor jornalístico desse
personagem, ainda que ele seja óbvio.
Quanto ao pacote de Lula, quem estiver achando os
argumentos aqui expostos inconsistentes está convidado a apresentar os seus.
Mas aí dá uma preguiiiiiiça… Vamos repetir a crítica,
só em linhas gerais, para não cansar os leitores de orelha:
previsão de 500 bilhões em investimentos a partir de dados reciclados do
orçamento sem qualquer garantia sobre a atração de dinheiro novo;
fundo de infra-estrutura sem qualquer explicação sobre o milagre que vai
fazer o dinheiro passar a pingar ali;
costura mal-ajambrada de velhos projetos que saem
sempre das mesmas gavetas e depois voltam para lá (na era FHC era o Avança,
Brasil, agora é o Acelera, o próximo pode ser o Decola);
distribuição de incentivos fiscais para setores escolhidos da indústria, tirando IPI
dos estados, o que, como se sabe, significa só cobrir a cabeça e descobrir os
pés, não tem nada a ver com alavanca de crescimento;
indexações de salários em fórmulas mirabolantes para “aquecer a economia”, jogando
fora todos os princípios de competitividade assimilados nos últimos vinte anos;
“metas” de crescimento econômico e de redução da taxa
de juros baseadas em absolutamente nada;
outros.
Mas, por favor, quem viu substância no PAC está
convidado a deixar os adjetivos um pouco de lado e mandar seus argumentos para
cá. Dá preguiça, claro, mas faz uma forcinha aí, vai.
Aliás, para quem acha que o livro “3.000 dias no bunker” é tendencioso, vai aqui uma sugestão genial,
inteiramente grátis: escreva outro, contando a história correta.
Se a preguiça impedir, quem sabe ao menos não surge
uma vontade irresistível de passar da orelha e ver o que tem naquele que já
está escrito? Vai aqui um empurrãozinho com o caminho das pedras (ou os caminhos da pedra, como diz o presidente):
“3.000 dias no bunker – Um plano na
cabeça e um país na mão”, editora Record. Ajude este panfleto neoliberal a
esgotar sua terceira edição.
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Publicado por Guilherme
Fiuza - 24/01/07 11:16 AM