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LUÍS NASSIF
Uma lei cambial antiindustrial
Tem razão o economista Gustavo Franco nas críticas à proposta da Fiesp
(Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) de mudança na lei
cambial: lei antiga não é necessariamente lei anacrônica. O projeto
apresentado pela Fiesp traz riscos claros ao país e desdobramentos que
ainda não foram devidamente avaliados, talvez devido à euforia atual,
provocada pelo excesso de dólares na economia. É um fato episódico, e a
própria Fiesp tem alertado para isso. E não esconde o fato de que as
reservas cambiais do Banco Central ainda são pequenas para as dimensões do
comércio exterior -bancam apenas cinco meses de importação. O enorme custo
fiscal desse carregamento se deve à política monetária equivocada, não à
dimensão das reservas. É importante notar que o conceito de caixa
central de divisas -exercido pelo BC- sempre foi uma demanda do setor
produtivo, preocupado com sucessivas crises cambiais e com a necessidade
de administrar a carência de dólares. É modelo praticado unanimemente por
países emergentes, mesmo pelos maiores, como China, Índia e Rússia. O
que a Fiesp propõe é acabar com esse conceito e cada demandante de câmbio
ir buscar no mercado a cobertura para suas necessidades. É uma saída
ótima, mas apenas para períodos de bonança, que costumam ser pontuais. Em
tempos de escassez de dólares, é um desastre. Se a Câmara deixar passar
esse projeto, o Brasil sairá definitivamente do grupo de países com
projeto nacional, para se tornar um país-mercado, como a Suíça, a Holanda,
Cingapura e Hong Kong, com uma estrutura econômica totalmente diversa de
um país continental, adverte um especialista em história de regimes
cambiais. A Fiesp está agindo em cima de uma realidade circunstancial, mas
será a primeira a pedir o socorro do Estado quando faltarem dólares, como
fez em toda a sua história. Na verdade, apesar de a Fiesp ter se
tornando madrinha do projeto, ele faz parte de um conjunto de medidas que,
ao longo dos últimos 20 anos, com o objetivo ideológico da livre
conversibilidade do real. Seria a financeirização final da economia de
um país complexo, o fim de um modelo que permitiu, ao longo das últimas
cinco décadas, a própria criação do atual parque industrial brasileiro.
Aprovada essa nova lei, como definiu o especialista, na primeira classe
ficarão os que exportam ou têm acesso a recursos no exterior, pois poderão
manter contas em moeda estrangeira e estarão isentos, cobertos e isolados
dos problemas internos do País, políticos, econômicos e sociais. Na
segunda classe, a rapa.
Modelo europeu A lei cambial
acabou ocupando o espaço que seria reservado, hoje, às promessas vãs do
modelo europeu de TV digital. O relatório da União Européia apontando as
inconsistências do seu modelo está no endereço http://www.projetobr.com.br/,
inclusive desmontando a bandeira de que a variedade de modelos de
conversores de sinal seria um fator de barateamento do set top box no
mercado brasileiro.
E-mail: luisnassif@uol.com.br
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