Brasil: um olhar sobre a história
Fabio Giambiagi
Chega esta
semana às livrarias o livro "Economia Brasileira Contemporânea", que
tive o prazer de organizar junto com André Villela, Jennifer Hermann e Lavínia
Barros de Castro (Editora Campus). Sinto-me à vontade para tratar do assunto,
porque os méritos cabem integralmente aos autores e não aos organizadores. O
propósito do livro foi o de fazer uma retrospectiva da economia brasileira no
pós-guerra, desde 1945 até 2004, reunindo diversos economistas para discorrer
sobre alguns temas. Coordenar o esforço de pessoas com grande capacidade
analítica é sempre um prazer intelectual, e o fato de termos conseguido reunir
no mesmo projeto a reflexão de personalidades tão diferentes sugere que
economistas podem encontrar espaços de convergência maiores do que sugere a vã
filosofia.
Tratar 60 anos
de história nos leva naturalmente a ver as questões com outros olhos, e é
inevitável lembrar da analogia de quem contempla a floresta ao invés de olhar
apenas a árvore. A paixão do cotidiano às vezes ofusca os fatos e nos impede de
ter a frieza com a qual analisar os acontecimentos como parte de um processo
histórico, onde o que importa são as grandes tendências, mais do que as
minúcias do dia-a-dia.
Nesse sentido,
talvez estejamos assistindo a um desses processos de longo prazo, que poderá
criar perspectivas promissoras para o país nos próximos anos. Analisando as
diferentes fases da evolução da economia nos últimos 60 anos, nota-se que,
mesmo as que foram marcadas por grande expansão, tiveram seu "calcanhar de
Aquiles": o governo JK se encerrou com uma combinação de problemas de
inflação elevada, crise fiscal e escassez de divisas; a crise do petróleo
acabou com o "milagre" de 1968/1973; o II PND deixou uma pesada
herança de endividamento externo; e a euforia do pós-Real definhou com as
crises de 1997-1998.
A
leitura do conjunto de artigos que compõe o referido livro não deixa dúvida de
que o Brasil teve, na segunda metade do século XX, três grandes
"vilões" que se alternaram gerando crises recorrentes,
"dribladas" algumas vezes, "empurradas com a barriga"
outras, e que se conjugaram em uníssono na "década perdida" dos 80:
i) a alta inflação; ii) a desordem fiscal; e iii) os desequilíbrios do balanço
de pagamentos. O primeiro problema foi atacado com a estabilização do Plano Real;
o segundo, com o ajuste fiscal de 1999; e o terceiro, com a mudança operada no
mesmo ano e a "virada" da situação externa, ensaiada no final do
governo anterior e aprofundada no governo Lula. Em outras palavras, o país, com
esforço e lentamente, está construindo um arcabouço que poderá lhe permitir
usufruir de anos prósperos até o final da década em curso e na seguinte, se
esse movimento tiver continuidade e se houver um novo ciclo de reformas que
viabilize o aumento necessário dos investimentos.
Uma das lições
que se aprende lendo a história como um conjunto de atos é que dificilmente os
avanços de um país, bem como seus problemas, são resultado de um governo
apenas. Da mesma forma que Juscelino se beneficiou do forte processo de
intervenção do Estado em setores-chave da economia, intensificado no governo
Vargas, ou que o "milagre" de 1968/73 foi em parte resultado das
excelentes reformas adotadas nos anos 1964/1967, não se pode entender o governo
FHC sem fazer referências às propostas de mudanças da administração Collor, nem
deixar de notar traços de continuidade entre a política econômica atual e a de
Pedro Malan/Armínio Fraga. De certa forma, o palco da história é uma grande
peça, onde a cada ator - ou seja, a cada governo - cabe um papel em geral menor
do que ele supõe, e onde a chave para a compreensão da evolução do país está em
entender as decisões dos governos como resultado de longo processo de
transformações sucessivas.
Os anos 90,
cinzas quanto aos seus resultados e que nos deixaram - novamente! - uma pesada
herança de endividamento externo e fiscal, foram ricos em transformações. Hoje,
é possível que a economia esteja no limiar de um novo ciclo de expansão, com
uma combinação - inédita na história das últimas décadas - de inflação
relativamente baixa, contas fiscais razoavelmente ordenadas e situação externa
equilibrada.
É neste último
ponto, em particular, que reside uma das principais razões para poder se olhar
o futuro com um certo - ainda que cauteloso - otimismo. De fato, o Brasil está
deixando para trás os problemas externos que tantos problemas nos causaram
depois do Plano Real - e antes também. A relação dívida externa
líquida/exportações, indicador por excelência da capacidade de pagamentos de um
país, e que Simonsen costumava recomendar que não fosse muito além do
coeficiente de 2, está em queda desde 1999, e em queda livre nos últimos dois
anos. Ela deverá cair em 2004 para 1,7 e, dependendo dos números finais das
exportações até dezembro, poderá ser simplesmente o menor nível dos últimos 30
anos, e o terceiro menor nível em quase 50 anos, desde o início do governo JK.
A relação dívida externa líquida/exportações chegou a ser de mais de 3 no
processo de endividamento dos anos 70; e de mais de 4 na crise dos anos 80;
caiu para 2,5 no início do Plano Real; e chegou a quase 4 em 1999, quando
tivemos nova crise.
Curiosamente,
embora tenham se enfrentado algumas vezes no debate recente, os excelentes
textos que constam no livro, de Gustavo Franco, contra as falsas ilusões
trazidas pela inflação; e de Delfim Netto, contra os perigos do endividamento
externo, se complementam entre si e indicam claramente as lições que o país
aprendeu ao longo das décadas. Com um pouco de sorte e se fizermos novas
reformas, talvez um novo Brasil esteja nascendo.