VALOR ECONÔMICO – 15.09.2004
Sobre a proposta de plena conversibilidade do real
Por
Gilberto Tadeu Lima
Primeiro
neste Valor (em 12/11/2002) e depois na Revista de Economia Política (volume
23, número 3, 2003), Pérsio Arida argumenta em favor da plena conversibilidade
do Real como forma de consolidação da estabilidade macroeconômica. A seguir,
apresento considerações críticas sobre aspectos internos à proposta.
Segundo o autor,
a conversibilidade lhe importa somente no sentido de mecanismo de troca - ou
seja, ausência de quaisquer restrições à troca de dólares por reais e
vice-versa. Vale dizer, a proposta não abarca outras dimensões da
conversibilidade tais como paridade fixada em lei, restrição da emissão de
reais à existência de lastro correspondente em dólares e alternativa de
quitação de contratos e realização de pagamentos no país em dólares.
Em nível de
coerência interna, a proposta revela-se possivelmente problemática em função
dessa parcialidade, dado que a restauração da credibilidade do padrão monetário
é algo que vai além de sua dimensão de mecanismo de troca. Ou seja, se se
deseja tornar os agentes indiferentes entre usar moeda local ou estrangeira
como reserva de valor, a mera dimensão de mecanismo de troca da proposta
possivelmente não seria suficiente para tanto.
O autor sustenta
que o primeiro teste da estabilidade monetária ocorre quando se permite que o
preço-âncora da estabilização, tipicamente o câmbio, flutue; o segundo e
derradeiro, quando se permite que a moeda seja nele conversível sem qualquer
forma de restrição.
A seu juízo,
após termos passado muito bem pelo primeiro teste, nos faltaria aprofundar o
segundo para consolidar definitivamente os ganhos obtidos. Porém, não se segue
necessariamente do primeiro teste ser bem-sucedido que o segundo, independente
de vir a ser ou não o derradeiro, seja a permissão de livre conversão.
Além disso, se é
um teste tão decisivo que é o derradeiro, então, ao contrário do que diz o
autor, sua proposta é, sim, ao fim e ao cabo, uma panacéia. Afinal, a mensagem
implícita é que, sem ela, a estabilidade monetária será perdida cedo ou tarde
mesmo que a política macroeconômica em curso seja mantida. Segundo o autor, um
fator derivado da conversibilidade restrita que aumentaria o prêmio de risco na
formação das taxas de juros internas seria a sinalização de desconfiança da
própria autoridade monetária na moeda como reserva de valor.
Porém, não é
evidente que a melhor maneira de a autoridade monetária sinalizar que confia no
padrão monetário é permitir que os agentes fujam dele quando e quanto quiserem.
Em certa medida e extensão, o fato de a conversibilidade restrita facultar a
alteração das normas cambiais de acordo com os requisitos de política
econômica, como reconhece o autor, poderia ser interpretado como positivo pelos
agentes, precisamente por sinalizar uma preocupação com a manutenção da
qualidade do padrão monetário.
Por outro lado,
o autor insistiu que a proposta não inclui - e nem deveria incluir - a retirada
da vedação existente da faculdade de liquidação de obrigações locais em moeda
estrangeira. Porém, não parece ser descartável a hipótese de que essa
parcialidade poderia vir a sinalizar, pela própria lógica do argumento em favor
da conversibilidade, uma desconfiança no padrão monetário.
A tentativa de
sinalizar confiança no padrão monetário através da conversibilidade livre
poderia não ser crível aos olhos dos agentes precisamente por não abarcar, por
exemplo, a dimensão da permissão ao uso da moeda estrangeira para quitar
obrigações no território nacional. Com que confiança, por assim dizer, é
realmente possível descartar a hipótese de que essa parcialidade poderia vir a
sinalizar, em verdade, uma desconfiança no padrão monetário, ao levar o agente
a concluir que se lhe é dada liberdade plena de acesso à moeda estrangeira, mas
não de utilização dela no mercado local, então a real confiança do Banco
Central no padrão monetário não é aquela que está tentando sinalizar? Afinal, a
mesma racionalidade do agente presumida na argumentação em favor da
conversibilidade não o levaria a ver com desconfiança a restrição à utilização
da moeda estrangeira?
Porém, o autor
postula que a conversibilidade plena afirmaria em alto e bom som a confiança do
Banco Central em sua política. Ou seja, sua mensagem implícita seria a de que
tem tamanha confiança no sucesso da política em curso que permitirá que se
compre quanto se quiser da moeda estrangeira ao câmbio vigente.
Porém, não óbvio
o que levaria os agentes a necessariamente verem esse brado do Banco Central
como uma sinalização crível de auto-confiança. Está logicamente descartada a
hipótese de os agentes econômicos virem a ser levados a desconfiar de uma
tentativa de manifestação de auto-confiança para além da simples menção a como
a política econômica adequada está sendo e continuará a ser seguido?
Afinal, como diz
o autor, embora uma estratégia ousada (plena conversibilidade) possa ser
encarada com ceticismo, uma estratégia prudente (conversibilidade restrita)
tenderia a ser vista com descrédito. Ainda que não ocorresse o aventado acima,
ou seja, que a ousadia não fosse vista com desconfiança, mas apenas com
ceticismo, possivelmente não seria um ceticismo sem custo. E por se tratar de
um custo de difícil estimação de antemão, não está descartada a hipótese de que
poderia vir a se transformar em descrédito. Ademais, não é evidente a razão
lógica de a estratégia prudente necessariamente tender a ser vista com
descrédito.
Em verdade,
chega a ser irônico que prudência seja vista com descrédito - e ousadia com
bons olhos - em um jogo de transmissão e conquista de confiança. E nesse
sentido, por que acreditar que os agentes necessariamente veriam com
desconfiança uma estratégia ousada de disciplinamento da conta de capital?
A crucialidade
da confiança do público no padrão monetário local, em suas várias dimensões, é
evidente. Longe de evidente, porém, é a eficácia da proposta de plena
conversibilidade em questão como mecanismo promotor dessa confiança, especialmente
na dimensão de reserva de valor. Daí a presumida contribuição à discussão das
considerações críticas, obviamente seletivas e idiossincráticas, tecidas neste
artigo.
Gilberto Tadeu Lima é professor do Departamento de Economia da FEA-USP.