Valor Econômico
02/04/2007
"Novo" PIB:
reformas não devem ficar para depois
02/04/2007
Gustavo
Loyola
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A
nova metodologia de apuração das Contas Nacionais representa, sem dúvida, um
expressivo aprimoramento do trabalho realizado pelo IBGE. As recentes
modificações metodológicas aproximam o Brasil dos padrões internacionais e
são resultado de anos de estudo por parte dos técnicos do Instituto. Desse
modo, comete injustiça quem levanta suspeição sobre a isenção técnica do
IBGE. O fato de a Presidência de Lula ter sido mais favoravelmente impactada,
em termos da revisão do crescimento do PIB, do que os anos FHC, decorre tão
somente das próprias características do comportamento da economia nesses
períodos. |
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Por
outro lado, os números maiores do PIB nominal e as taxas de crescimento mais
elevadas obtidas na nova metodologia não autorizavam as autoridades do
governo atual a comemorarem como se fosse o resultado favorável de uma
partida de futebol. Esse tipo de comportamento, além de infantil, apenas
contribuiu para turvar os méritos e a isenção dos técnicos do IBGE. |
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Com
relação aos números, há boas e más notícias. A antiga metodologia vinha
subestimando sistematicamente o crescimento da economia brasileira,
principalmente porque não captava corretamente o comportamento do setor de
serviços. A participação desse setor no PIB subiu de 56,3% para 66,7% (em
2000) com a nova metodologia, o que indica uma expressiva discrepância na
avaliação dos serviços na antiga série do PIB. Nas economias maduras
contemporâneas, o setor terciário tende a apresentar uma maior taxa de
crescimento do que a indústria e a agropecuária, fato que deve ter levado à
subestimação da variação do PIB brasileiro na última década. Por causa disso,
o crescimento médio do PIB nos anos próximos deve aumentar. É bem provável
que a economia brasileira cresça a uma taxa perto dos 4% neste ano. |
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Por
outro lado, no que diz respeito à decomposição do PIB pela ótica da demanda,
a nova metodologia mostra aumento da participação do consumo das famílias e
também do consumo do governo, tendo como contrapartida a redução da
participação da formação bruta de capital fixo (de 19,6% para 16,3%, em 2005)
e das exportações e importações. Assim, essa nova decomposição evidencia com
mais força duas fragilidades estruturais da economia brasileira: a elevada
participação do consumo do governo no PIB e a baixa taxa de investimento. |
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O fato
de os novos números mostrarem um crescimento maior do PIB e uma menor taxa de
investimento indica que o crescimento da produtividade no período posterior
ao Plano Real foi maior do que se imaginava. É muito provável que o Brasil
esteja se beneficiando das reformas realizadas a partir do início dos 1990,
como a privatização e a abertura da economia, assim como dos efeitos
benéficos da própria estabilização monetária. Ademais, a melhoria dos
indicadores de escolaridade podem estar contribuindo positivamente para
produtividade em setores intensivos em mão-de-obra, como os serviços. Por
causa de tudo isso, há razões para acreditar na sustentabilidade, pelo menos
no curto prazo, de uma taxa de crescimento do PIB superior à média dos
últimos dez anos. |
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Esperamos
que o governo Lula tenha uma leitura correta dos novos dados do PIB e não
resolva dormir em berço (não tão) esplêndido |
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Porém, o
fato de haver indicações de o crescimento potencial da economia brasileira
ser maior do que se inicialmente acreditava não diminui, por várias razões, a
necessidade de aprofundamento do processo de reformas no Brasil. Em primeiro
lugar porque os efeitos marginais dos ganhos de produtividade obtidos na
"primeira onda de reformas" tendem a se amortecer ao longo do
tempo. Essa possibilidade é maior ainda quando se observa a ocorrência
diuturna de "pequenos crimes" do governo que vão anulando
paulatinamente os progressos obtidos em anos passados, como é o caso da
postura crescentemente estatizante e protecionista do governo Lula. |
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Em
segundo lugar, deve ser considerado que, na ausência de reformas adicionais,
a situação fiscal vai se deteriorar inexoravelmente nos próximos anos, em
razão principalmente da tendência de agravamento do déficit da previdência.
Se nada for feito, a qualidade dos serviços públicos piorará ainda mais e a
capacidade residual de investimento do setor público desaparecerá
completamente. Com isso, o crescimento da economia tenderá a se estiolar. |
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Como
pano de fundo, finalmente, não é confortável de modo algum a baixa taxa de
investimento mostrada em nossas Contas Nacionais. Embora seja razoável a
hipótese de que o maior peso dos serviços no PIB brasileiro esteja indicando
uma menor necessidade de capital, também é verdade que a carência de
investimentos está associada ao tamanho exagerado de um Estado ineficiente.
Dados os diferenciais de risco observados pelos empreendedores nos diversos
setores de atividade econômica, a ineficiência e o gigantismo do Estado
acabam por dificultar o investimento em setores como o de infra-estrutura, o
que aumenta a probabilidade do surgimento de gargalos na economia que podem
fazer abortar o ciclo de crescimento. |
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Desse
modo, é ilusória a crença de que o Brasil "ganhou tempo" para
realizar as reformas. Ao contrário, um maior crescimento pode até antecipar o
aparecimento de distorções na economia e exigir mais pressa nas reformas. Um
exemplo banal disso está na regulação do setor elétrico. Numa economia
estagnada, a necessidade de crescimento da oferta energética é menor e um
marco regulatório "quebra-galho" pode até dar conta do recado.
Porém, mesmo com ganhos de produtividade, uma situação de maior crescimento
do PIB eleva a necessidade de investimentos em geração, transmissão e
distribuição de energia, caso em que é indispensável um adequado marco
regulatório. |
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Esperamos
que o governo Lula tenha uma leitura correta dos novos dados do PIB e não
resolva dormir em berço (não tão) esplêndido. Precisamos deixar
definitivamente de lado a idéia de que reformas são coisa para se fazer
apenas em épocas de crise. |