As Conseqüências do Novo PIB
Ilan Goldfajn
No outro dia, descobrimos que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil é aproximadamente 10% maior. Não é fato desprezível. Afinal, o PIB é a medida do total produzido em bens e serviços, que equivale grosso modo à renda anual do país, e é um dos indicadores mais relevantes do bem-estar de uma sociedade (outros seriam: a distribuição dessa renda, eliminação da pobreza, meio ambiente, etc.). Quase saí para gastar a parte que me pertence. Mas, antes dessa extravagância, percebi que minha renda ou gastos não tinham se alterado, nem meu patrimônio. E o futuro me parecia igual, dependendo do mesmo esforço que pretendia despender antes. Desisti da comemoração. Na verdade, deveria ter desconfiado de ganhos que se originam de alterações nos instrumentos de medição (já “emagreci” muito mudando de balança, infelizmente sem nenhum resultado prático).
Mas, no coletivo, essa mudança no PIB traz mais ilusões. O crescimento do PIB nos últimos anos foi maior do que o imaginado. Nos anos 2004, 2005 e 2006 esse crescimento foi revisado para 3,7%, 2,9%, e 5,7% (de 2,7%, 2,9% e 4,9%). E tanto a dívida pública quanto a carga tributária são agora menores como proporção do PIB (este último cresceu, enquanto os primeiros mantiveram-se constantes). Esse crescimento não indicaria um futuro mais promissor? Qual o impacto da nova medida do PIB sobre a trajetória de juros? Como fica agora a dinâmica da dívida pública, calcanhar de Aquiles da economia brasileira nos últimos anos? O Brasil não vai chegar mais rápido ao grau de investimento concedido pelas agências de classificação de risco?
Houve muita manifestação pública sobre as implicações da mudança no PIB. Um ministro de Estado desejou a todos que desfrutem o Pibão, assim no superlativo. Outro ministro comemorou o início do crescimento sustentado, quase revivendo o slogan “espetáculo do crescimento” do começo do governo. Sobre a política monetária, alguns comemoraram que o combate à inflação teve um custo menor que o imaginado em termos de crescimento. E que a estabilidade de preços, na realidade, trouxe mais crescimento do que se supunha anteriormente. Os críticos do BC viram o lado negativo, afirmaram que os dados revelaram que a instituição subestimou o produto potencial da economia, e que daria para crescer mais sem inflação. Portanto, havia espaço para juros menores.
É relevante analisar primeiro a natureza da mudança. Houve aperfeiçoamento em vários aspectos metodológicos que enriqueceram o conhecimento da economia brasileira. Foram incorporados ao cálculo do PIB informações de outras fontes, como os dados advindos da declaração do imposto de renda, o censo agropecuário, a última pesquisa de orçamento familiar (para medir o consumo das famílias), entre outras. Como resultado, descobrimos que o setor de serviços ocupa 55% da economia (de 51%, na metodologia antiga). E que o consumo do governo tem crescido acima do esperado nos últimos anos, sendo o responsável por uma parte considerável da revisão do crescimento.
Cabe analisar o impacto da revisão do PIB sobre aspectos relevantes da política econômica:
Em suma, a mudança no termômetro da economia não deveria deixar o paciente mais ou menos saudável. Mas permite uma inferência mais precisa sobre o estado da economia nas áreas onde não há outras informações disponíveis (o que não é o caso da política monetária, onde os dados de inflação, desemprego e capacidade utilizada permanecem os mesmos). E, principalmente, permite uma comparação internacional menos desfavorável para o Brasil em vários aspectos (dívida, carga tributária e crescimento). Seria infeliz que essa mudança estatística louvável levasse alguns a acreditar que as reformas estruturais ou o ajuste no crescimento dos gastos públicos fossem dispensáveis para melhorar as futuras condições objetivas (e não só estatísticas) da sociedade brasileira.