O Estado de S. Paulo Terça-feira, 1 de maio de 2007
Na direção contrária
Ilan Goldfajn
Você acreditaria, meu caro leitor, se eu lhe dissesse que o
governo acabou de lançar uma medida que pode elevar a inflação e (apesar do
discurso oficial) dificultar a queda mais acelerada da taxa de juros? Que pode
(apesar do discurso oficial) apreciar ainda mais a taxa de câmbio? Tudo isso
para beneficiar alguns setores à custa da maioria dos consumidores?
Pois é. Essa medida existe, não é ficção. Na semana passada,
a Câmara de Comércio Exterior (Camex) aprovou um
aumento da tarifa de vestuários e calçados para 35%, a
máxima para o Brasil (e o Mercosul) permitida pela Organização Mundial do
Comércio (OMC). Não houve exigência de contrapartida para os setores
beneficiados - em investimento ou modernização tecnológica. A medida atinge
importações de US$ 2 bilhões, 2% do total importado, e representa 6% da cesta
do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), sob o item vestuário.
Com o aumento de tarifas, os produtos afetados serão
vendidos a preços maiores, já que se diminui a concorrência dos importados. Esses
aumentos prejudicam o consumidor e elevam a inflação, o que potencialmente
poderia dificultar a queda da taxa de juros em ritmo mais acelerado. Ao mesmo
tempo, o aumento de tarifas reduz os gastos com as importações, gerando sobras
ainda maiores de dólares no momento em que há pressões fortes para a apreciação
da taxa de câmbio.
O ministro da Fazenda disse que cabe a medida para proteger
a indústria da concorrência desleal: “Se tem gente fazendo malandragem ou
usando instrumentos ilícitos, temos de reagir.” Essa afirmação é baseada apenas
na constatação da existência de importados com preços baixos, tornando-se ao
mesmo tempo juiz e parte interessada (dos setores afetados, não dos
consumidores, que foram prejudicados). A forma correta de lidar com práticas
desleais, se este fosse o caso, seria entrar com um processo de investigação.
Cabe aqui lembrar que o fenômeno dos preços baixos de
produtos de vestuário e calçados é mundial, em razão da emergência da China
como potência mundial. Na realidade, esse fenômeno trouxe muito benefício para
todos. A inflação caiu de forma sistemática em vários países, permitindo a
convivência com juros menores e um período relativamente longo de prosperidade
no mundo todo. Houve, é claro, impacto desfavorável em alguns setores onde a
China tem vantagens comparativas - por exemplo, aqueles intensivos em
mão-de-obra barata. Mas o benefício global é certamente positivo.
Principalmente para o Brasil, que tem tido um ganho considerável nos preços das
suas commodities e nas exportações para a China.
O curioso é que esse aumento do protecionismo ocorre após a
revisão do Produto Interno Bruto (PIB), quando descobrimos que o Brasil é uma
economia ainda mais fechada. A soma das exportações mais as importações como
proporção do PIB, medida clássica do grau de abertura de uma economia, é de
apenas 22%, o que dificulta a integração com o resto do mundo e a absorção de
tecnologias que venham a aumentar a produtividade da economia.
Uma coincidência infeliz é a combinação dessa medida com o
debate recente de política monetária. Um dia após a adoção dessa medida
protecionista, foi divulgada a Ata da reunião do Copom,
em que houve uma decisão dividida. Nessa minuta, três diretores votaram pela
redução mais acelerada da taxa de juros, citando o aumento das importações como
fator benéfico para o controle da inflação: “Participantes do Copom argumentaram que se acumulam sinais de que a
contribuição das importações, por meio da disciplina exercida sobre os preços
de bens transacionáveis em ambiente de demanda robusta, para a consolidação de
um cenário benigno para a inflação no horizonte de projeção, poderá ser maior
do que a inicialmente contemplada.” Nada pior para dificultar a queda mais
acelerada da taxa de juros que tornar as importações mais caras e limitadas.
Não há aqui nenhum julgamento de valor sobre a importância e
a competência dos setores beneficiados pela medida. Está
claro que esses setores têm sofrido com a concorrência externa e com a
valorização do câmbio dos últimos anos. Mas, apesar dessa situação particular
desses setores, o impacto dessa medida sobre a economia - inflação, juros,
câmbio e crescimento - não justifica sua adoção.
Em suma, a medida adotada foi exatamente na direção oposta à
necessária para a economia, pois beneficiou alguns à
custa da maioria: os consumidores pagarão mais caro pelos produtos têxteis e
calçados. Uma redução de tarifas de importação, ao contrário, contribuiria para
a queda da inflação e dos juros, permitiria um câmbio menos pressionado e
tornaria as exportações mais competitivas, possibilitando elevar a taxa de
crescimento da economia. O aspecto mais positivo dessa medida adotada é seu
alcance limitado, afetando apenas determinados produtos: não acredito num
impacto macroeconômico relevante. O sinal emitido é ruim e inconsistente com os
objetivos macroeconômicos do País.
Nos últimos tempos, estão surgindo medidas econômicas
esdrúxulas. Isso ocorre num momento em que a situação econômica do Brasil
melhorou significativamente, em razão do momento favorável econômico mundial,
assim como dos esforços (inclusive do Banco Central) e das conquistas
institucionais do passado recente e mais distante. Mas esse tipo de medida
deixa claro que há atores se beneficiando dessa situação favorável e, ao mesmo
tempo, tomando decisões que atuam na direção contrária à sua sustentabilidade. Até quando?
*Ilan Goldfajn,
sócio da Ciano Investimentos, diretor do Iepe-Casa das Garças. E-mail: igoldfajn@cianoinvest.com.br.