O Globo
24/01/1998
AS INVERDADES DO SR. GUSTAVO FRANCO
ITAMAR FRANCO
Foi a partir de uma conversa,
havida no curso de um encontro casual com conhecidos em visita a Washington,
que voltei a refletir sobre o perigo que representa para as sociedades
democráticas um certo tipo de comportamento adotado por tecnocratas que assumem
funções transitórias no serviço público. O episódio trazido ao meu conhecimento
serve de alerta a todos que têm responsabilidade política para com a sociedade.
Na ocasião, trocávamos idéias sobre o Brasil, o curso dos acontecimentos
recentes, as dificuldades enfrentadas, os desafios do presente. Eles, que não
eram correligionários nem meus eleitores, expressavam preocupação ante o que
qualificavam de insensibilidade dos setores financeiros da administração para o
impasse que se avizinha nas contas externas do país, as conseqüências sociais
de uma eventual insolvência, o risco da manutenção de juros elevados para
sustentar o câmbio.
E, no curso do diálogo que divagava por temas afins, surge para mim uma
revelação surpreendente: alguém, que ocupara função de terceiro escalão no meu
Governo, até então obscura figura no cenário profissional de onde era egresso,
teria escrito um livro sobre o Plano Real, onde afirmava que, graças à solerte
alteração de um dispositivo constante da minuta de medida provisória
introdutora da reforma monetária, cuja modificação passara por todos
despercebida, foi possível assegurar o sucesso do plano e, assim, estancar o
surto inflacionário da época.
De tudo o mais grave era a notícia de que a norma não se adequava
"...vontade dos responsáveis pela sua concepção..." - referindo-se ao
plano - mas, graças à astúcia empregada, "... pôde ser redigida de forma a
dificultar o controle de preços".
A princípio, não acreditei na versão. Seria possível a uma pessoa que, graças à
confiança que lhe fora depositada, passou a fazer carreira no Governo,
chegando, no atual, à presidência do Banco Central, tivesse concorrido para a
consumação de expediente de tal natureza? Teria chegado a este ponto o desprezo
ao mínimo ético no relacionamento entre os seres humanos, notadamente entre
superiores e subordinados "de confiança"? Que insondáveis razões
poderiam justificar a omissão da verdade num momento de crucial importância
para a vida nacional?
Ao chegar ao Brasil, tive acesso a um exemplar do livro e, para minha surpresa
e indignação, constatei que os fatos trazidos ao meu conhecimento correspondiam
ao que fora escrito e publicado na obra.
Ao ler o texto na íntegra, lembrei-me das circunstâncias envolvendo o fato e
verifiquei, desde logo, não ser o autor tão astuto como julga. Faltou com a
verdade ao retratar o episódio histórico. Não foram os superiores hierárquicos ludibriados,
entre eles o próprio ministro da Fazenda e atual presidente da República, como
deixa transparecer.
A norma, cuja adulteração ideológica fora arquitetada para, alegadamente,
viabilizar o sucesso do plano, nada mais fazia do que completar o arcabouço
legal idealizado, estabelecendo um parâmetro definidor do que pudessem vir a
ser "aumentos abusivos de preços em setores de alta concentração
econômica, de preços públicos e de tarifas de serviços públicos". Tendo
sido ajustado que os salários, vencimentos, aposentadorias e pensões do
funcionalismo, prestações previdenciárias, bem como todos os preços da economia
ficariam estabilizados pelo lapso de um ano, vedada qualquer indexação em prazo
inferior a este, nada mais natural do que definir-se o parâmetro legal do que
seria considerado "aumento abusivo", notadamente quando cabia ao
Ministério da Fazenda acompanhar a evolução dos preços para garantir a
estabilidade. O objetivo era evitar o arbítrio administrativo, definindo
claramente o novo quadro institucional e os limites do poder de atuação das
autoridades.
Tudo isto fazia parte do consenso a que chegamos, sem qualquer discrepância,
ostensiva ou velada. Ademais, em nosso sistema constitucional, a exemplo do que
ocorre nos países civilizados, é obrigação do Estado coibir condutas desta
natureza, o que só é possível num regime de estabilidade monetária.
De tabelamento de preços, jamais se cogitou, tendo as autoridades da época
amplamente esclarecido à população que o plano seria implementado sem violência
ao patrimônio individual e respeitando a liberdade de iniciativa.
A versão, portanto, é mistificadora da realidade, até porque a redação do
dispositivo foi de clareza meridiana.
Por que então agredir a verdade histórica?
Perquirir as motivações da alma humana nem sempre é tarefa fácil. As versões
fantasiosas podem servir aos mais variados propósitos.
Do ponto de vista ético, é surpreendente a conduta. Em primeiro lugar, porque
pretende fazer crer que havia uma "vontade" própria dos burocratas, a
ser imposta instância política, quando, na verdade, aqueles se limitaram a dar
formatação técnica às diretrizes recebidas. Em segundo lugar, porque
desconsidera o fato de ter sido o Governo de então que lhe propiciou a
oportunidade de conquistar experiência e notoriedade, depositando no servidor
uma confiança que não soube honrar.
Por graves que sejam estes aspectos, não são eles que me levam a tecer estas
considerações. Creio que do episódio há uma lição maior a ser extraída, esta
sim digna de registro. Trata-se do perigo que pode representar para uma
sociedade livre o poder incontido dos tecnocratas. Não estando legitimados pelo
voto nem pela vontade popular, julgam-se habilitados a conduzir os negócios
públicos à revelia de todos. Na ausência de um severo controle político, este
proceder pode acabar por favorecer a interesses outros que não os da
coletividade.
Na Presidência, jamais permiti o exercício de poder paralelo. Talvez isto
explique a frustração de certos tecnocratas contrariados.
ITAMAR FRANCO é embaixador junto à OEA