O penúltimo
Gustavo H. B. Franco
O ano de 2001 é o penúltimo mas, sem dúvida, o último em que podemos
esperar iniciativas corajosas como as que eram típicas do primeiro mandato:
votações heróicas, grandes reformas, privatizações, etc. É também o último em
que o FMI estará entre nós, e portanto, em 2002, o último ano de governo,
nossas finanças públicas estarão dependendo de nossas próprias convicções. A
nação – oposição e situação - terá amadurecido no plano fiscal e no tocante às
limitações impostas pela fato de sermos uma economia aberta ?
Em 2001 teremos uma prévia importante sobre essas importante questão,
que será respondida durante as próximas eleições.
No segundo mandato, o Legislativo não trouxe praticamente nada em
novidades, tendo em vista o tempo gasto com o salário mínimo, programas “para a
platéia”, a disputa pelas presidências e as CPIs, agora chegando ao cúmulo de
debater as convulsões do Ronaldinho. Não se deve esperar nada de muito
interessante em 2001. Na verdade, a medida que nos aproximamos do início das
campanhas (normalmente seria no começo de 2002) o Congresso vai se tornando
mais rebelde e populista, colocando o Executivo na defensiva, sempre tentando
“roubar bandeiras” e transformar “tombos em passos de dança”, como no caso dos
R$ 180,00. Mas ao longo do ano a tendência é de desmobilização, pois cada um
vai tratar da sua vida no início de 2002.
As privatizações têm andado num ritmo lento, quase inercial. As de
responsabilidade do BC têm caminhado pois são aquelas onde não há um
“ministério setorial” onde se localiza, em geral, a sabotagem ao processo. Há
um grande evento em 2001, o leilão das licenças para as bandas C, D e E, que
deverá ser bem sucedido, mas provavelmente vai re-editar o velho debate sobre o
uso dos recursos (lembrar que aqui as receitas são de concessão, não de
privatização, portanto, estão “em cima da linha”). Tendo em vista que o novo
salário mínimo não tem fontes de recursos: o “acordo” no Congresso, tenha-se
claro, nada mais foi que uma encenação.
O
panorama internacional se mostra um tanto confuso já no final de 2000, com
sinais inquietantes da economia americana, em particular do Nasdaq, e com os
problemas argentinos. Não fossem essas nuvens, as projeções para os mercados
internacionais de capitais têm sido relativamente otimistas, ou seja, na
ausência de eventos negativos, crise ou guerras, os “spreads” de risco para
países emergentes em geral (o EMBI, por exemplo), e para o Brasil em
particular, devem experimentar uma tendência de melhora ao longo do ano.
Hard landing ...Tem sido, por outro lado, impressionante o que tem se
passado com o Nasdaq, que parece ter concentrado em si, aos olhos do mercado,
tudo que havia de errado no campo da avaliação de empresas nos EUA. O mercado
parece ter se convencido que era ali que se localizava a “exuberância
irracional”, e tem sido ali que a “correção” está ocorrendo. Um contaminação
para o S&P 500 me parece pouco provável, até pelo contrário: o “flight to
quality” nos EUA (aferido pelo notável crescimento das taxas para os “junk
bonds” americanos) pode acabar beneficiando os nomes consagrados da velha
economia.
A experiência da Europa parece mostrar que os preparativos para o Euro
foram melhores que a coisa em si. Os problemas conceituais na operação e de
governança no Banco Central Europeu parecem indicar problemas a médio prazo. A
politização do problema parece inevitável, especialmente diante de novas
rodadas de expansão. A notável desvalorização do Euro refletiu essas mazelas, e
portanto não foi um movimento sem fundamento prestes a ser revertido. É claro
que um Euro muito fraco tem efeitos inesperados sobre a competitividade de
indústrias que vinham tendo problemas na França e Alemanha, e pode criar uma
onda exportadora nesses países que, a médio prazo, poderá desafiar o atual
patamar do Euro. Ainda é cedo para isso, todavia.
A Argentina pode ter problemas logo no começo do ano, pois o desenho, o
tamanho e mesmo a existência do pacote internacional sob os auspícios do FMI
pode ter de depender de uma decisão de uma administração republicana. É
possível, em vista da visão dos republicanos sobre os pacotes anteriores (na
Ásia, Rússia, Brasil), se procure alguma inovação, que pode desagradar o
mercado, se trouxer alguma conseqüência para a continuidade do serviço da
dívida pública argentina. Não se pode descartar, portanto, um cenário onde 2001
começa já com turbulências vindas da Argentina.