7 de novembro de 1988
Jornal do Brasil
João Paulo de Almeida Magalhães
No meu artigo de 24/10 em que respondem a trabalho meu anterior Fritsch e Franco mostram-se irritados com uma frase que supus de humor leve. Em artigo seu anterior, acharam por bem considerar "curiosa" uma tese básica por mim proposta (tese que aliás mostrei, em resposta, ser apoiada pela melhor e mais moderna literatura disponível). Os versados em jargão acadêmico sabem que isso corresponde a dizer-se que se trata de bobagem tão grande que nem merece resposta. No restante do artigo adotam um tom patronizing, assim como do professor com um aluno que não está se saindo muito bem na tese de mestrado.
Achei a coisa engraçada e raciocinei que, ou se tratava
de uma inexperiência acadêmica (o que não era o Caso dados os títulos e
posições universitárias dos autores) ou de uma hiper-reação de quem vê atacada
uma posição muito cara. Em função disso lembrei, no meu artigo, que talvez
estivéssemos diante de um caso de “amor paixão" pelas multinacionais. Isso
teria sido uma descortesia se os autores tivessem qualquer ligação com uma
dessas companhias. Como são apenas professores da PUC-RJ estamos diante de um
daqueles casos de pessoas que esperam mais senso de humor da outra parte, do
que elas mesmas têm.
Passando à argumentação propriamente dita, os autores continuam simplesmente a não apresentar qualquer subsídio para desmentir minha suspeita básica de que as filiais de empresas multinacionais, instaladas no Brasil, não têm possibilidade de concorrer com suas matrizes nos grandes mercados mundiais. O leitor interessado no assunto se convencerá da absoluta impertinência dos argumentos por eles apresentados lendo os seus e os seus artigos no JB, 12 e 24 de setembro e 12 e 24.de outubro.
Limito-me, diante disso, a examinar alguns pontos específicos do artigo de 24/10. Preocupam-se os dois autores com o uso por mim proposto de recursos públicos para fortalecimento das empresas privadas nacionais. Ora, essa transferência de recursos constitui a própria essência de qualquer política de desenvolvimento, no âmbito da qual devem ser criadas unidades de grande porte, impostas pela tecnologia moderna, em países com débeis mercados de capital. Ou será que os autores acreditam que existem BNDES na Europa e nos Estados Unidos?
O argumento dado pelos autores de que as empresas
multinacionais exportam mais que as nacionais situadas nos mesmos setores,
supostamente de tecnologia avançada, prova exatamente o contrário do que
pretendem. As nacionais exportam pouco porque são de o pequeno porte e,
portanto, incapazes de criar tecnologia própria e cadeias externas de
comercialização, Fica, assim. justificada minha proposta de apoio especial a elas,
para que possam crescer, corrigindo essas deficiências.
Afirmam os autores corretamente, que se deve começar
exportando artigos de tecnologia elementar evoluindo-se posteriormente para
setores de maior refinamento. Acontece, porém, que embora utilizando tecnologia
básica a Coréia do Sul, com indústria três vezes menor que a nossa, está
exportando duas vezes mais automóveis e artigos eletro-eletrônicos. Minha tese
é que devemos começar desse ponto e não da exportação de pentes e espelhinhos,
o que estaria mais de acordo com nosso estágio industrial dos anos 20. Para
tanto devem ser criadas em setores de tecnologia mais avançada empresas
nacionais exportadoras de grande porte, que desempenhem papel idêntico ao das
suas correspondentes coreanas (e que não pode ser deixado a cargo de filiais de
multinacionais).
Em todo o artigo os autores se preocupam com a defasagem
e dependência tecnológica do país. Ora, isto será agravado se aceitarmos o
modelo que propõem, ou seja, de uma especialização de nossa economia no âmbito
de empresas multinacionais, sobretudo quando nos caberá as áreas intensivas de
mão-de-obra. No modelo que proponho, em sentido oposto à criação, no Brasil, de
tecnologia própria e internacionalmente competitiva, se acha na essência de
toda política econômica
Os autores lembram, finalmente, minha suposta "tolice"
de pretender excluir a priori as
multinacionais ,de nossa estratégia de integração competitiva no mercado mundial.
O leitor que se interessar pelos artigos anteriores perceberá, sem dificuldade,
que não faço qualquer oposição a que aceitemos os setores industriais que as
multinacionais decidam transferir para o Brasil.. Apenas sustento que não se
pode tornar todo nosso desenvolvimento dependente de tais transferências. Ou seja,
a ponta de lança de nossa estratégia industrial deverá ser constituída, obrigatoriamente,
por empresas nacionais de grande porte e voltadas para as exportações, cuja
ação não será limitada por políticas comandadas do exterior.
Meu
reconhecimento da importância das multinacionais é confirmado, além disso, pelo
fato de afirmar que tais empresas se transformarão necessariamente em multinacionais
brasileiras que competirão, em igualdade de condições, com as européias,
americanas e japonesas. Ou seja, acredito que nossa "integração
competitiva no mercado mundial" pode e deve ser feita em igualdade de condições
com os atuais países desenvolvidos e não num contexto de total dependência
econômica e tecnológica, como propõem Fritsch e Franco.