O Globo, 16 de fevereiro de 2005
Lendo as contas públicas oficiais
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José Roberto R.
Afonso
Não é raro vermos entrevistas em que se pergunta sobre um assunto e se responde
sobre outro, totalmente diferente.
Míriam Leitão publicou uma coluna (9/2) sobre minha leitura dos recentes dados
oficiais do déficit. O secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Levy, reagiu, em
declarações à jornalista (11/2) e em artigo publicado no GLOBO do dia seguinte.
Será uma honra debater com tão importante autoridade do governo Lula. Mas, como
ele mudou de assunto, insistirei aqui no tema original — o déficit nominal.
Isto é, o excesso de tudo o que os governos gastam além do que arrecadam. A
diferença para o tão falado superávit primário é que este último não computa os
juros dentre as despesas.
O conceito só foi resgatado há pouco e (com estardalhaço) pelo próprio governo.
O presidente do BC anunciou (na Suíça, em 11 de janeiro deste ano) que “(...) o
déficit nominal (...) obtido pelo país em 2004 atende aos critérios do Tratado
de Maastricht, que criou a União Européia”.
Vejamos algumas revelações extraídas dos números oficiais.
O setor público brasileiro ainda gasta mais do que arrecada — o déficit nominal
foi de R$ 47 bilhões (2,7% do PIB) em 2004.
Apesar de excelente, o superávit primário foi insuficiente para atender às
despesas com juros: R$ 81 bilhões contra R$ 128 bilhões, no ano passado.
O resultado final tem sido majoritariamente influenciado pelas contas
financeiras, como revela uma comparação entre 2002 e 2004:
— o déficit nominal caiu em 1,9 ponto percentual do PIB nesse período, mas o
aumento do superávit primário só explica 0,7 ponto;
— no custo da dívida, por um lado, diminuiu a parcela gasta com atualizações
monetária e cambial, em 3,3 pontos do PIB;
— os juros reais da dívida interna, por outro lado, explodiram, de irrisórios
0,04% do PIB em 2002 para 2,2% do PIB em 2004; em apenas dois anos, o governo
Lula elevou o gasto público com juros reais no triplo do que aumentou o
superávit primário;
— por esfera de governo, a melhoria do resultado nacional decorreu da queda do
déficit estadual e municipal (-2,2 pontos do PIB), já que o do governo central
mais que dobrou durante o mesmo período (embora, agregada suas estatais,
aumentou apenas 0,3 ponto).
São fatos, evidências eloqüentes das estatísticas oficiais.
Para o secretário do Tesouro, agora, “é um erro avaliar apenas o resultado
nominal das contas públicas”.
A meta prometida ao FMI é só de superávit primário. Mas a Lei de
Responsabilidade Fiscal é mais moderna e abrangente. Não menciona “superávit”,
e sim “resultado”. E exige metas, legais, para os dois conceitos — “nominal” e
“primário”.
Poucos sabem que a União tem uma meta de resultado nominal para 2005, também
fixada na LDO: um déficit ( sic ) de R$ 11,7 bilhões, proposto pelo
presidente Lula e aplicado ao conjunto de governo mais estatais (talvez para
esconder o pior resultado do Tesouro).
Olhar para o déficit nominal em nada desmerece os árduos esforços feitos para a
geração de maiores superávits primários. A sociedade bem sabe o quanto está
custando tal esforço, com a perversa combinação em que o governo Lula arrecada
muito (e cada vez mais) e gasta mal.
É importante uma visão mais abrangente dos gastos e questões fiscais.
Reconhecer o tamanho dos encargos da dívida e divulgar o impacto de cada novo
aumento na taxa de juros não significa negar o que se deve. Ao contrário, o
atalho mais curto para o calote é a falta de transparência (13 mil fornecedores
da Prefeitura de São Paulo reclamam que a gestão anterior do PT apagou da
contabilidade as dívidas por gastos que eles declaram terem sido efetivamente
realizados — espero que o secretário do Tesouro não continue considerando
normal tal prática).
Para Levy, “o nosso objetivo é sempre o primário, que a gente controla”.
Juros e câmbio caem do céu? Imaginem um empresário, ao discutir a situação de
sua empresa, pedir que se ignore no balanço o maior item de suas despesas, as
financeiras, alegando que decorrem de “variáveis que ele não controla”!
A maioria das economias avançadas adota regimes de câmbio flutuante e metas
inflacionárias, usando o déficit nominal na análise e até mesmo como restrição
orçamentária — caso da União Européia (que usa o superávit primário como
variável auxiliar, assim como o investimento público).
Cumprimento o secretário Levy pela iniciativa de incluir a rolagem da dívida
estadual e municipal como nova pauta para um futuro debate.
Mas não cabe misturar esse tema com a presente discussão, de outro e maior
assunto — o déficit público. Ninguém quer confundir juros devidos com juros
pagos. São bem diferentes no caso da rolagem. Para o cálculo oficial do
déficit, os juros refletem o ritmo de correção das dívidas estaduais e
municipais, atrelada à variação do IGP. Já o que eles pagam resulta de uma
vinculação de suas receitas (como foram crescentes, o Tesouro só teria recebido
menos se não executasse garantias de quem lhe desse calote).
Enfim, é preciso mudar a imagem de “caixa preta” que ainda cerca os assuntos
fiscais, esclarecendo conceitos e salientando dados (sempre oficiais), como
nesta oportunidade de debate aberta pelo economista do PT.
JOSÉ
ROBERTO R. AFONSO é mestre em Economia e funcionário do BNDES, a serviço da
Câmara dos Deputados