Folha de São Paulo, quinta-feira, 16 de
dezembro de 2004
JANIO DE
FREITAS
Os anões dos bilhões
Desde que Gustavo Franco e sua ação no Banco Central se tornaram insustentáveis
no governo Fernando Henrique, impondo-lhe a demissão como ato inaugural do
segundo mandato, caiu sobre ele a condenação pelos fracassos econômicos do
primeiro mandato. As mãos a se mostrarem mais pesadas têm sido, naturalmente,
as de muitos que as usavam para aplaudi-lo com mais ênfase. De minha parte, tão
logo definida a postura anticrescimento do governo Fernando Henrique, fui um
crítico amargoso de Gustavo Franco. Sem arrependimento por isso, e hoje com
ainda maior convicção. Mas não me junto, nem admito silenciar, diante do
absurdo que faz de Gustavo Franco o símbolo do papel deplorável com que a
importante CPI do Banestado vai encerrando sua existência frustrante.
Indiciar Gustavo Franco por praticar, quando presidente do BC, políticas que
facilitaram a evasão ilegal de bilhões não é verdadeiro nem decente. Os atos
que tenham facilitado a evasão, e até a estimulado, não foram individuais. É
simples constatá-lo: se os atos não integrassem uma política de governo,
Fernando Henrique e Pedro Malan os teriam invalidado, e no entanto os ampararam
por anos. Como complemento: a CPI não encontrou vantagens materiais de Gustavo
Franco provenientes de improbidade, assim como fracassaram tentativas
anteriores com idêntico propósito.
Palavras atuais do deputado petista José Mentor, relator da CPI, sobre a evasão
ilegal de dinheiro: "Os mais pessimistas falam em US$ 80 bilhões, os mais
otimistas falam em US$ 180 bilhões". Procuradores da República passaram à
imprensa, a meio do ano, a evasão de US$ 30 bilhões, só pelas chamadas contas
CC5, a partir de 1997. Diante dessas cifras, José Mentor propõe o indiciamento
de apenas 91 pessoas, de mais de meio milhão de possíveis remetentes ilegais
investigados. Que média individual de evasão, hein?
É certo que desabou sobre José Mentor uma tempestade de pressões, na última
fase da CPI e, sobretudo, na elaboração final do relatório. Pressões petistas e
pressões originadas no governo, dois territórios onde o temor de que o
escândalo de uma vasta lista de indiciamentos, com figuras notórias,
desfechasse acusações de esquerdismos, e outras que tais, contra o governo
Lula. Com todos os óbvios inconvenientes políticos e reeleitorais, temas
permanentes de preocupações tão conhecidas por José Dirceu, Aloizio Mercadante
e outros.
O que resultou da longa e importante CPI, além de alguns espalhafatos quando
divulgados documentos seus, foi igualar-se à CPI dos Anões do Orçamento, cujo
relatório foi remanejado às pressas, madrugada adentro, para atender a
conveniências políticas e eleitorais, pessoais e econômicas. A corrupção era
assunto secundário.
Continua sendo.