Ana Mary C. Cavalcante
da Redação
Fernando Pessoa por linhas tortas. O poeta português é descoberto pelo ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, como um arguto analista econômico. Franco assina o livro A Economia em Pessoa - Verbetes Contemporâneos, mostrando mais uma face do modernista luso. Em entrevista por telefone, o economista apresenta essa personalidade do escritor português
12/03/2007 02:05

GUSTAVO Franco presidiu o Banco Central de agosto de
Nem só de números vivem os economistas. Gustavo Franco, 51, por exemplo.
Ex-presidente do Banco Central do Brasil, timoneiro do Plano Real entre 1994 e
98, que lançou a âncora cambial. Leitor de Bernardo Carvalho, Rubem Fonseca,
Ana Miranda, Milton Hatoum, Fernando Pessoa.
"Literatura faz bem à alma", respira, nesta entrevista realizada por
telefone. Pois a conversa com o especialista em inflação, estabilização e
economia internacional fugiu - em parte - ao economês. Preferiu-se Fernando Pessoa ao dólar cambiante ou
às políticas do Planalto. Até porque Franco já tornou público seu diário,
quando do aniversário de dez anos do Plano Real. "Ultimamente, tenho
conversado muito com meu travesseiro e às vezes me pergunto se teria sido
melhor fazer algo diferente. Quem sabe se em março de 1998, com US$ 74 bilhões
em reservas, não teria sido o momento de liberar o câmbio? Mas, em agosto de
1998, quando estourou a Rússia, o que teria acontecido com o Brasil se o câmbio
já tivesse flutuado? Ninguém saberia dizer. Eu mesmo não tenho a resposta. E
asseguro que a disputa da reeleição, em 1998, não pesou na decisão de não
desvalorizar" ("Os arquivos de Gustavo Franco", Isto É Dinheiro,
23/06/2004).
O que ele fez, está feito. E faria de novo. Em que pesem as críticas dos que
afirmam que Gustavo Franco tentou manter a paridade entre real e dólar por mais
tempo do que a economia pudesse suportar. A âncora quase arrebenta, dividem-se
os analistas, e o navio vai à deriva. "Sobre o Banco Central e a minha
própria experiência, que fique claro que eu faria tudo exatamente como fiz".
Ponto. Voltemos, então, a Fernando Pessoa (1888-1935). Depois de publicar O
Papel e a Baixa do Câmbio (Reler, 2005), organizando em livro um discurso que
Rui Barbosa fez em 1891, o ex-presidente do BC descobre A Economia em Pessoa -
Verbetes Contemporâneos (Reler, 2006. Edição esgotada). A publicação recupera
11 textos/artigos, escritos em 1926 pelo poeta português para a Revista de
Comércio e Contabilidade. Privatização, globalização e desregulamentação são
alguns dos "verbetes contemporâneos", percebidos por Gustavo Franco
(que assina também prefácio e notas), nos escritos do ex-comerciário (o
modernista foi também correspondente estrangeiro em casas comerciais
de Lisboa e pequeno empresário, além de ter A Riqueza das Nações, do
liberal Adam Smith, na biblioteca particular). "O poeta tem um
relacionamento
O POVO - Como se deu seu primeiro encontro com o escritor português
Fernando Pessoa? Pelas linhas da poesia, ou pelos textos analíticos de
economia?
Gustavo Henrique Barroso Franco - O primeiro encontro, seguramente, foi
pela poesia. A descoberta desses textos econômicos foi posterior. Descobri os
textos quando foram publicados, no Brasil, pela primeira vez, em 1992 (em
edição elaborada pelo escritor João Alves das Neves, presidente do Centro de
Estudos Fernando Pessoa - São Paulo). Nessa altura, me surpreenderam bastante.
É raro, como eu digo no prefácio, que tenha essa comunhão mágica de um saber
profundo em economia e também sobre a alma humana.
OP - Relacionar literatura e jornalismo, até pela partilha da mesma
matéria-prima, é mais comum do que se perceber a relação possível entre
literatura e economia. Como a literatura serve à economia?
Gustavo Franco - É raro que a economia apareça na obra literária, seja
prosa ou poesia. Do que conheço de literatura e de antologias que procuraram
identificar temas econômicos na literatura, muito pouco material, uma coisa
aqui, outra ali. O que ocorre, às vezes, é algo como aconteceu com Fernando
Pessoa: é o escritor, poeta, na prática literária, se manifesta sobre um tema
econômico. No caso do Fernando Pessoa, é magnífico pela profundidade, pela
qualidade da reflexão que ele tem sobre economia. Mas é uma coisa muito rara em
grandes nomes da literatura. Talvez você possa dizer que o caso mais comum seja
o artista, o literato, freqüentemente, não dizer propriamente a coisa certa
OP - Mas a literatura torna a economia "mais palpável",
digamos assim?
Gustavo Franco - São coisas que correm em canais paralelos. E literatura
faz bem à alma, em termos genéricos. São pouquíssimos os grandes autores que
têm algo a dizer, que faça sentido no terreno da economia.
OP - Só para não perder esse fio, quais são os seus autores de
cabeceira? Falo de romancistas, cronistas, contistas...
Gustavo Franco - Muita gente! Da literatura recente brasileira, gosto
muito do Bernardo Carvalho, do Rubem Fonseca, Ana Miranda, Milton Hatoum... Tô bastante bem
atualizado! (risos)
OP - Ao escrever sobre economia, Fernando Pessoa transforma-se? Quer
dizer, como o poeta lida com o "economês"?
Gustavo Franco - Pois é, isso é surpreendente pelo seguinte: ele tem uma
ou outra poesia onde emprega alguma linguagem e também algumas idéias que são
"encontráveis" nos textos que faz sobre economia. O que é muito
interessante. Ou seja, não há economês no que
Fernando Pessoa escreve sobre economia, nem é necessário que exista. Eu mesmo
escrevo sobre economia para veículos de grande circulação, sem nenhum economês - pelo menos, tenho essa pretensão (risos). É
possível, claro, falar sobre economia sem que a linguagem seja um obstáculo a
qualquer leitor. E o Pessoa consegue, com grande
brilho, tratar dos temas econômicos como qualquer pessoa. E qualquer pessoa é
capaz de ler esses textos sem se dar conta de que está estudando economia.
OP - A atualidade da poesia de Fernando Pessoa é inquestionável.
Passam-se as épocas, os contextos, mas o homem não passa. O que também confere
atualidade às idéias do poeta sobre economia?
Gustavo Franco - Bem, é curioso que ele tenha idéias que talvez pudessem
estar à frente do seu tempo, naquela ocasião. Eram idéias progressistas. Ele
escreveu esses textos, a maior parte deles, em 1926. E isso o coloca às
vésperas da Grande Depressão, da Segunda Guerra, do rearmamento, da Guerra Fria
e, portanto, às vésperas de um grande período de predomínio das idéias anti-liberais. E ele era um liberal. Hoje, suas idéias
parecem em total sintonia com as idéias vencedoras do começo do século XXI e do
final do século XIX. Talvez por isso mesmo, depois da queda do Muro (de Berlim,
em novembro de 1989), sintomaticamente, tenha sido o momento em que se achou
esses textos econômicos do Pessoa e eles foram
publicados
OP - Quais desses verbetes o senhor traria para o Brasil atual?
Gustavo Franco - Todos eles são absolutamente relevantes para o Brasil
atual. Sem exceção. Todos esses textos são profundamente relevantes para o
Brasil atual.
OP - E como Fernando Pessoa compreendia o dinheiro?
Gustavo Franco - Ele tem uma relação com o dinheiro muito parecida com a
que qualquer um de nós tem. Era um homem prático, que teve uma atividade
empresarial e também profissional intensa, que compreendia bem a necessidade de
ter diheiro pra comprar roupa, fazer supermercado e
também ter os confortos que a vida é capaz de proporcionar (mesmo aos
poetas)... Portanto, trabalhava porque gostava de ganhar dinheiro e também, é
claro, tinha a atividade poética - que ele gostaria de poder ter toda a
tranqüilidade de desempenhar sem se preocupar com dinheiro.
OP - E como o senhor, economista, ex-presidente do Banco Central,
dialoga com Fernando Pessoa? Em que momentos o senhor concorda com ele e quando
o senhor discorda?
Gustavo Franco - O poeta tem um relacionamento
OP - Mas em relação ao teor econômico dos textos de Fernando Pessoa, há
pontos em que o senhor discorda das análises dele?
Gustavo Franco - Não, não. Tem uma ou outra coisa, talvez, onde ele é,
deliberadamente, provocativo demais e que é possível contestar. Ele transita
por temas, às vezes, muito polêmicos. Tem, por exemplo, uma discussão sobre a
Lei Seca, que era muito atual naquela ocasião, mas se você transpuser para
hoje, considerando em vez do álcool a maconha, verá que os argumentos não são
tão poderosos assim. Ou seja, não é porque é o Fernando Pessoa que está
absolutamente correto
OP - Em uma de suas muitas entrevistas sobre o livro, o senhor diz uma
frase que eu gostaria de aproveitar para elaborar uma questão. A frase é a
seguinte: "É bom que (Fernando Pessoa) tenha conhecido as coisas que dão
certo e que dão errado. As que dão errado costumam ser
mais educativas". E a pergunta é: o senhor dirigiria o Banco Central da
mesma forma que dirigiu em meados dos anos 90?
Gustavo Franco - (pausa) Não sei se entendi. Como assim?
OP - Fazendo o balanço dos acertos e dos erros, além de considerar os
contextos, o senhor dirigiria o Banco da mesma maneira que daquele período?
Gustavo Franco - Se você está querendo dizer que fiz alguma coisa
errada, na época do Banco Central, eu quero discordar.
OP - Não, gostaria que o senhor fizesse essa auto-análise do certo e do
errado.
Gustavo Franco - O que eu disse sobre Fernando Pessoa, a história é a
seguinte: na sua trajetória empresarial, ele teve fracassos. Alguém me
perguntou, "puxa, mas um poeta-empresário fracassado fica dando opiniões
sobre as empresas...". Bom, um: o fracasso é educativo. Dois: não
necessariamente os professores de administração de empresa e gurus empresariais
são também os empresários bem-sucedidos. São dois comentários sobre ensinar
economia e administração de empresa. Agora, sobre o Banco Central e a minha
própria experiência, que fique claro que eu faria tudo exatamente como eu fiz.
Eu fiz, mas que está muito bem feito.
OP - E como o senhor avalia a situação do câmbio hoje? O Banco Central
teria condições de controlar a atual pressão do mercado? O senhor ainda
defende, por exemplo, o câmbio fixo?
Gustavo Franco - Olha, a situação cambial de hoje é muito parecida com a
situação cambial que eu enfrentei. Ou seja, você tem excesso de oferta de
dólares e uma constante pressão por valorização, e o Banco Central lutando para
evitar a valorização. Foi isso que fiz durante quatro anos, quase, de
OP - Uma última pergunta, que se renova: quais são os principais
desafios do governo Lula, hoje?
Gustavo Franco - O principal desafio, com certeza, é o do crescimento -
que se torna extremamente difícil pro governo Lula, uma vez que o crescimento,
hoje, depende do setor privado. E o governo Lula jamais imaginou... Digo, o
governo Lula é o presidente Lula e o alto comando do PT e seus economistas.
Nenhum deles jamais imaginou que tivesse que administrar uma economia com tão
pouco poder. A economia globalizada, de mercado, que o Brasil tem hoje é uma
economia onde os controles governamentais são de muito pouca eficiência. E,
portanto, o papel do governo é muito mais o de motivar o setor privado a fazer
coisas do que, propriamente, tomar a iniciativa de fazê-las. Como a gente viu,
aliás, nesse episódio do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento,
carro-chefe da política federal atual). O PAC é um sonho, uma coleção de boas
intenções que, todavia, apenas demonstram que o governo adoraria que o
crescimento acontecesse, porém, deixam clara a sua impotência em fazê-las
acontecer.
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