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CAPITAL EM RIMAS

A economia sob o olhar do poeta

Ana Mary C. Cavalcante
da Redação

Fernando Pessoa por linhas tortas. O poeta português é descoberto pelo ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, como um arguto analista econômico. Franco assina o livro A Economia em Pessoa - Verbetes Contemporâneos, mostrando mais uma face do modernista luso. Em entrevista por telefone, o economista apresenta essa personalidade do escritor português

12/03/2007 02:05

GUSTAVO Franco presidiu o Banco Central de agosto de 1997 a janeiro de 1999 (Divulgação)
GUSTAVO Franco presidiu o Banco Central de agosto de 1997 a janeiro de 1999 (Divulgação)

Nem só de números vivem os economistas. Gustavo Franco, 51, por exemplo. Ex-presidente do Banco Central do Brasil, timoneiro do Plano Real entre 1994 e 98, que lançou a âncora cambial. Leitor de Bernardo Carvalho, Rubem Fonseca, Ana Miranda, Milton Hatoum, Fernando Pessoa. "Literatura faz bem à alma", respira, nesta entrevista realizada por telefone. Pois a conversa com o especialista em inflação, estabilização e economia internacional fugiu - em parte - ao economês. Preferiu-se Fernando Pessoa ao dólar cambiante ou às políticas do Planalto. Até porque Franco já tornou público seu diário, quando do aniversário de dez anos do Plano Real. "Ultimamente, tenho conversado muito com meu travesseiro e às vezes me pergunto se teria sido melhor fazer algo diferente. Quem sabe se em março de 1998, com US$ 74 bilhões em reservas, não teria sido o momento de liberar o câmbio? Mas, em agosto de 1998, quando estourou a Rússia, o que teria acontecido com o Brasil se o câmbio já tivesse flutuado? Ninguém saberia dizer. Eu mesmo não tenho a resposta. E asseguro que a disputa da reeleição, em 1998, não pesou na decisão de não desvalorizar" ("Os arquivos de Gustavo Franco", Isto É Dinheiro, 23/06/2004).

O que ele fez, está feito. E faria de novo. Em que pesem as críticas dos que afirmam que Gustavo Franco tentou manter a paridade entre real e dólar por mais tempo do que a economia pudesse suportar. A âncora quase arrebenta, dividem-se os analistas, e o navio vai à deriva. "Sobre o Banco Central e a minha própria experiência, que fique claro que eu faria tudo exatamente como fiz". Ponto. Voltemos, então, a Fernando Pessoa (1888-1935). Depois de publicar O Papel e a Baixa do Câmbio (Reler, 2005), organizando em livro um discurso que Rui Barbosa fez em 1891, o ex-presidente do BC descobre A Economia em Pessoa - Verbetes Contemporâneos (Reler, 2006. Edição esgotada). A publicação recupera 11 textos/artigos, escritos em 1926 pelo poeta português para a Revista de Comércio e Contabilidade. Privatização, globalização e desregulamentação são alguns dos "verbetes contemporâneos", percebidos por Gustavo Franco (que assina também prefácio e notas), nos escritos do ex-comerciário (o modernista foi também correspondente estrangeiro em casas comerciais de Lisboa e pequeno empresário, além de ter A Riqueza das Nações, do liberal Adam Smith, na biblioteca particular). "O poeta tem um relacionamento pacífico com as necessidades da vida prática. Ele trabalha na economia, pensa na economia, mas também pensa em outras coisas que engrandecem a alma", sinaliza Franco. A seguir, a economia pelo poeta. E o poeta pelo economista.


O POVO - Como se deu seu primeiro encontro com o escritor português Fernando Pessoa? Pelas linhas da poesia, ou pelos textos analíticos de economia?
Gustavo Henrique Barroso Franco - O primeiro encontro, seguramente, foi pela poesia. A descoberta desses textos econômicos foi posterior. Descobri os textos quando foram publicados, no Brasil, pela primeira vez, em 1992 (em edição elaborada pelo escritor João Alves das Neves, presidente do Centro de Estudos Fernando Pessoa - São Paulo). Nessa altura, me surpreenderam bastante. É raro, como eu digo no prefácio, que tenha essa comunhão mágica de um saber profundo em economia e também sobre a alma humana.

OP - Relacionar literatura e jornalismo, até pela partilha da mesma matéria-prima, é mais comum do que se perceber a relação possível entre literatura e economia. Como a literatura serve à economia?
Gustavo Franco - É raro que a economia apareça na obra literária, seja prosa ou poesia. Do que conheço de literatura e de antologias que procuraram identificar temas econômicos na literatura, muito pouco material, uma coisa aqui, outra ali. O que ocorre, às vezes, é algo como aconteceu com Fernando Pessoa: é o escritor, poeta, na prática literária, se manifesta sobre um tema econômico. No caso do Fernando Pessoa, é magnífico pela profundidade, pela qualidade da reflexão que ele tem sobre economia. Mas é uma coisa muito rara em grandes nomes da literatura. Talvez você possa dizer que o caso mais comum seja o artista, o literato, freqüentemente, não dizer propriamente a coisa certa em economia. O raro é acertar, ? Foi o caso do Pessoa.

OP - Mas a literatura torna a economia "mais palpável", digamos assim?
Gustavo Franco - São coisas que correm em canais paralelos. E literatura faz bem à alma, em termos genéricos. São pouquíssimos os grandes autores que têm algo a dizer, que faça sentido no terreno da economia.

OP - Só para não perder esse fio, quais são os seus autores de cabeceira? Falo de romancistas, cronistas, contistas...
Gustavo Franco - Muita gente! Da literatura recente brasileira, gosto muito do Bernardo Carvalho, do Rubem Fonseca, Ana Miranda, Milton Hatoum... bastante bem atualizado! (risos)

OP - Ao escrever sobre economia, Fernando Pessoa transforma-se? Quer dizer, como o poeta lida com o "economês"?
Gustavo Franco - Pois é, isso é surpreendente pelo seguinte: ele tem uma ou outra poesia onde emprega alguma linguagem e também algumas idéias que são "encontráveis" nos textos que faz sobre economia. O que é muito interessante. Ou seja, não há economês no que Fernando Pessoa escreve sobre economia, nem é necessário que exista. Eu mesmo escrevo sobre economia para veículos de grande circulação, sem nenhum economês - pelo menos, tenho essa pretensão (risos). É possível, claro, falar sobre economia sem que a linguagem seja um obstáculo a qualquer leitor. E o Pessoa consegue, com grande brilho, tratar dos temas econômicos como qualquer pessoa. E qualquer pessoa é capaz de ler esses textos sem se dar conta de que está estudando economia.

OP - A atualidade da poesia de Fernando Pessoa é inquestionável. Passam-se as épocas, os contextos, mas o homem não passa. O que também confere atualidade às idéias do poeta sobre economia?
Gustavo Franco - Bem, é curioso que ele tenha idéias que talvez pudessem estar à frente do seu tempo, naquela ocasião. Eram idéias progressistas. Ele escreveu esses textos, a maior parte deles, em 1926. E isso o coloca às vésperas da Grande Depressão, da Segunda Guerra, do rearmamento, da Guerra Fria e, portanto, às vésperas de um grande período de predomínio das idéias anti-liberais. E ele era um liberal. Hoje, suas idéias parecem em total sintonia com as idéias vencedoras do começo do século XXI e do final do século XIX. Talvez por isso mesmo, depois da queda do Muro (de Berlim, em novembro de 1989), sintomaticamente, tenha sido o momento em que se achou esses textos econômicos do Pessoa e eles foram publicados em Portugal. Veja que Fernando Pessoa chegou a ser contemporâneo do Salazar (António de Oliveira Salazar, ditador entre 1932 e 68), que chegou a tomar o poder antes da morte do Fernando Pessoa (1935). O período de sombra foi muito longo. E essa decoberta faz parte de recuperar idéias libertárias do passado que têm tudo a ver com o nosso tempo. Todo o espírito da reedição que fiz desses textos foi no sentido de ressaltar sua contemporaneidade. Ele trata de temas absolutamente contemporâneos, inclusive, brasileiros. Trata de privatização, desregulamentação, globalização... Coisas que, no tempo dele, sequer tinham esses nomes. Ao associar essas palavras ao que ele diz, estou indicando ao leitor que ele tem, aí, alguém que fez uma ponte extraordinária entre os anos 20 e a primeira década do século XXI.

OP - Quais desses verbetes o senhor traria para o Brasil atual?
Gustavo Franco - Todos eles são absolutamente relevantes para o Brasil atual. Sem exceção. Todos esses textos são profundamente relevantes para o Brasil atual.

OP - E como Fernando Pessoa compreendia o dinheiro?
Gustavo Franco - Ele tem uma relação com o dinheiro muito parecida com a que qualquer um de nós tem. Era um homem prático, que teve uma atividade empresarial e também profissional intensa, que compreendia bem a necessidade de ter diheiro pra comprar roupa, fazer supermercado e também ter os confortos que a vida é capaz de proporcionar (mesmo aos poetas)... Portanto, trabalhava porque gostava de ganhar dinheiro e também, é claro, tinha a atividade poética - que ele gostaria de poder ter toda a tranqüilidade de desempenhar sem se preocupar com dinheiro.

OP - E como o senhor, economista, ex-presidente do Banco Central, dialoga com Fernando Pessoa? Em que momentos o senhor concorda com ele e quando o senhor discorda?
Gustavo Franco - O poeta tem um relacionamento pacífico com as necessidades da vida prática. Ele trabalha na economia, pensa na economia, mas também pensa em outras coisas que engrandecem a alma. Seja a literatura... No meu caso, a academia. Gosto de escrever sobre temas acadêmicos, mas também tenho a minha profissão que, hoje em dia, tem a ver com a Rio Bravo (editora), com uma empresa privada, como qualquer outra. Me ocorre aqui o escritor americano Wallace Stevens, que é um caso de um sujeito que teve uma vida ativa como escritor e era também um executivo; foi presidente de uma companhia de seguros, muitos anos. Esses casos são interessantes. Mencionei o Rubem Fonseca... Ele, durante certa altura, trabalhou como executivo na Light (antiga companhia de iluminação), aqui, no Rio. Ou seja, os escritores têm que ter um salário! (risos) São raríssimos aqueles que podem viver de literatura. Assim como os acadêmicos, ganha-se muito pouco. E é interessante como cada um resolve essa equação do supermercado, ?

OP - Mas em relação ao teor econômico dos textos de Fernando Pessoa, há pontos em que o senhor discorda das análises dele?
Gustavo Franco - Não, não. Tem uma ou outra coisa, talvez, onde ele é, deliberadamente, provocativo demais e que é possível contestar. Ele transita por temas, às vezes, muito polêmicos. Tem, por exemplo, uma discussão sobre a Lei Seca, que era muito atual naquela ocasião, mas se você transpuser para hoje, considerando em vez do álcool a maconha, verá que os argumentos não são tão poderosos assim. Ou seja, não é porque é o Fernando Pessoa que está absolutamente correto em tudo. Tem que ver o contexto. Agora, é uma máquina de pensar, uma mente privilegiada, extraordinária. É muito difícil não se encantar com o que ele escreveu.

OP - Em uma de suas muitas entrevistas sobre o livro, o senhor diz uma frase que eu gostaria de aproveitar para elaborar uma questão. A frase é a seguinte: "É bom que (Fernando Pessoa) tenha conhecido as coisas que dão certo e que dão errado. As que dão errado costumam ser mais educativas". E a pergunta é: o senhor dirigiria o Banco Central da mesma forma que dirigiu em meados dos anos 90?
Gustavo Franco - (pausa) Não sei se entendi. Como assim?

OP - Fazendo o balanço dos acertos e dos erros, além de considerar os contextos, o senhor dirigiria o Banco da mesma maneira que daquele período?
Gustavo Franco - Se você está querendo dizer que fiz alguma coisa errada, na época do Banco Central, eu quero discordar.

OP - Não, gostaria que o senhor fizesse essa auto-análise do certo e do errado.
Gustavo Franco - O que eu disse sobre Fernando Pessoa, a história é a seguinte: na sua trajetória empresarial, ele teve fracassos. Alguém me perguntou, "puxa, mas um poeta-empresário fracassado fica dando opiniões sobre as empresas...". Bom, um: o fracasso é educativo. Dois: não necessariamente os professores de administração de empresa e gurus empresariais são também os empresários bem-sucedidos. São dois comentários sobre ensinar economia e administração de empresa. Agora, sobre o Banco Central e a minha própria experiência, que fique claro que eu faria tudo exatamente como eu fiz. Eu fiz, mas que está muito bem feito.

OP - E como o senhor avalia a situação do câmbio hoje? O Banco Central teria condições de controlar a atual pressão do mercado? O senhor ainda defende, por exemplo, o câmbio fixo?
Gustavo Franco - Olha, a situação cambial de hoje é muito parecida com a situação cambial que eu enfrentei. Ou seja, você tem excesso de oferta de dólares e uma constante pressão por valorização, e o Banco Central lutando para evitar a valorização. Foi isso que fiz durante quatro anos, quase, de 94 a 98, constantemente. É o que está acontecendo agora. Não há nenhuma diferença entre o que está acontecendo hoje e o que aconteceu no meu tempo até a crise da Rússia (em agosto de 1998, com desvalorização da moeda russa e pedido de moratória). É até curioso porque esse é o governo das pessoas que foram críticas ao que foi feito no meu tempo, e o câmbio está mais baixo do que estava no meu tempo, que história é essa? Tenho impressão de que essa história de que, na minha época, o câmbio foi, artificialmente, valorizado, isto ficou consagrado como uma grande bobagem. Porque, hoje, estamos vendo, exatamente, a mesma coisa, a mesma situação, com o governo das pessoas que criticavam as políticas do presidente Fernando Henrique fazendo igual. Igual, ou pior, sei lá! Estamos aí diante de uma situação que vem de fora, de abundância de divisas e não há muito o que fazer.

OP - Uma última pergunta, que se renova: quais são os principais desafios do governo Lula, hoje?
Gustavo Franco - O principal desafio, com certeza, é o do crescimento - que se torna extremamente difícil pro governo Lula, uma vez que o crescimento, hoje, depende do setor privado. E o governo Lula jamais imaginou... Digo, o governo Lula é o presidente Lula e o alto comando do PT e seus economistas. Nenhum deles jamais imaginou que tivesse que administrar uma economia com tão pouco poder. A economia globalizada, de mercado, que o Brasil tem hoje é uma economia onde os controles governamentais são de muito pouca eficiência. E, portanto, o papel do governo é muito mais o de motivar o setor privado a fazer coisas do que, propriamente, tomar a iniciativa de fazê-las. Como a gente viu, aliás, nesse episódio do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento, carro-chefe da política federal atual). O PAC é um sonho, uma coleção de boas intenções que, todavia, apenas demonstram que o governo adoraria que o crescimento acontecesse, porém, deixam clara a sua impotência em fazê-las acontecer.

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