Folha de São Paulo, quarta-feira, 08 de março
de 2006
OPINIÃO
ECONÔMICA
Uma reforma inoportuna
JULIO GOMES
DE ALMEIDA
Suponhamos
que o PIB brasileiro esteja crescendo a uma taxa anualizada
de 3,5% e que mantenha esse padrão ao longo do ano. Pois bem, as importações de
bens de capital cresceram 26% no bimestre janeiro/fevereiro deste ano em
relação ao mesmo período de 2005. Perto de 16% foi a
evolução das compras externas de matérias-primas e componentes (exceto
combustíveis).
Esses
percentuais correspondem, sobretudo, a variações de quantum, já que as
variações de preço não têm sido consideráveis. Portanto mantendo-se o desempenho
importador do início de 2006 para o restante do ano, teremos uma elasticidade
das importações de bens de capital e de bens intermediários com relação ao
crescimento econômico doméstico de sete no primeiro caso e de cinco no segundo.
São números
muito expressivos que certamente já refletem, em parte, o grande incentivo que
a forte valorização do real vem conferindo às compras internas. Deles
resultaria, por exemplo, uma evolução anual superior a 45% no caso das
importações de bens de capital e superior a 30% no caso de bens intermediários,
se o Brasil apresentasse o mesmo desempenho econômico que a média dos países em
desenvolvimento.
Portanto
uma observação atenta da nossa conjuntura econômica mostra que:
a) as
importações brasileiras não estão crescendo pouco;
b)
cresceriam muito mais, bastando para isso que nossa economia alcançasse um
padrão mediano de evolução, ou seja, em linha com os países em igual estágio de
desenvolvimento.
Não é
procedente a argumentação com que certos setores governamentais procuram
ressuscitar a tese, abandonada no ano passado, de que se faz necessária uma
nova rodada unilateral de abertura tarifária no Brasil.
Em sua
versão 2006, a tese sustenta que, com menores tarifas, as importações
aumentarão fortemente, ajudando a reverter a
sobrevalorização do real que tanto vem punindo a atividade exportadora.
A medida
proposta é inócua para o pretendido objetivo, já que as tarifas de importação
de bens industriais, salvo em alguns casos muito particulares, não são altas. A
média brasileira para produtos industriais é de 10,8%, o que, segundo pesquisa
da CNI, é inferior à de países como México e Índia (entre 13% e 17%) e maior,
porém bastante próxima, à da China e da Rússia (entre 9% e 10%).
Por outro
lado já foi demonstrado o enorme potencial de crescimento a curto prazo das
importações, o que não depende da redução de tarifas, mas tão somente que se
adote o que é perfeitamente possível no presente contexto interno e externo da
economia: uma política de juros mais sensata, que permita à economia crescer
mais e que confira menor atrativo à migração de capital que se nutre dos juros internos muito altos,
concorrendo para valorizar artificialmente o real.
Há um sem
número de questões que podem e devem ser debatidas em torno das tarifas de
importação. Existem distorções de vários tipos na estrutura tarifária e níveis
de tarifas excessivos em casos isolados. Mas nada tão urgente que não possa
aguardar uma definição de estratégia mais abrangente do desenvolvimento
econômico do país e que leve em conta o lado real ou produtivo da economia. Uma
reformulação tarifária relevante deve colaborar para ampliar a inserção externa
e para a conquista de posições mais vantajosas para nossas exportações nas
negociações internacionais.
Quanto ao
objetivo de baratear o investimento, há alternativas às reduções tarifárias
apressadas: a redução de impostos que atualmente elevam em cerca de 20% o custo
das inversões no país. A medida teria a vantagem adicional de beneficiar tanto
o bem de capital produzido internamente como o de origem externa.
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Julio Gomes
de Almeida é diretor-executivo do Iedi (Instituto de
Estudos para o Desenvolvimento Industrial).