Folha de S. Paulo – 25/08/2006
Opções
para a sangria de dólares
Luiz Carlos
Mendonça de Barros
Termino
hoje a saga da sobra de dólares em nossa balança de pagamentos. A comparação
que fiz com uma doença chamada hemocromatose nos
mostra o caminho para tratar os efeitos dessa doença econômica: uma sangria de
dólares. Como no caso do excesso de ferro da hemocromatose,
o excesso de dólares deve ser tratado com uma sangria terapêutica via aumento
de nossas importações. Uma primeira alternativa, defendida pelos economistas de
corte mais conservador, seria a redução radical e unilateral das proteções
alfandegárias que existem hoje. Com os preços dos produtos importados
reduzidos, haveria uma corrida às importações, uma queda significativa do saldo
comercial e, por conseqüência, uma diminuição expressiva do saldo comercial em
nossa balança de pagamentos.
Segundo
cálculos realizados pelos economistas da Quest,
quando nosso saldo comercial chegar próximo de US$ 33 bilhões, o excesso de
dólares gerados por nossas transações comerciais com o exterior desaparecerá. Portanto,
um aumento adicional de nossas importações, da ordem de US$ 10 bilhões a US$ 12
bilhões, seria suficiente para corrigir o excesso de valorização do real. Para
dar ao leitor uma idéia de grandeza desse esforço, apenas a redução próxima de
zero nas tarifas de importações de automóveis -assumindo-se
que esse movimento levaria os importados a representar 25% do mercado interno-
seria suficiente para equilibrar a geração do excedente de dólares pelo canal
do comércio. A questão central dessa solução é que, para isso, estaríamos
reduzindo imediatamente a produção interna de veículos em cerca de 300 mil
unidades. Essa redução teria reflexos imediatos sobre o emprego e exporia nossa
indústria automobilística a uma competição desleal com países como a China e
outras nações devido a nossos juros mais elevados, carga tributária de 40% do
PIB e ineficiências microeconômicas de natureza infraconstitucional. Para
evitar que isso ocorresse, teríamos que caminhar aceleradamente para a redução
da carga tributária, a redução dos juros e o aumento dos investimentos públicos
em infra-estrutura. Vista de hoje, é uma aposta de alto risco.
Uma segunda
forma de sangria dos dólares excedentes seria acelerar o crescimento da nossa
economia. O Brasil cresce muito pouco, e o descompasso em relação a outros
países é que tem feito nosso saldo comercial crescer de forma significativa. Se
conseguirmos nos nivelar ao crescimento mais vigoroso de outras economias,
haverá, naturalmente, uma redução no saldo comercial e, por conseqüência, a
eliminação desse excedente de dólares. Embora seja difícil quantificar com
exatidão qual seria o impacto de um crescimento maior do PIB sobre as
importações, podemos assumir algo como um multiplicador de 4; isto é, para cada
1% a mais de PIB, teríamos 4% de aumento de nossas
compras externas. Alguns economistas vão dizer que esse número é maior do que o
medido em modelos econométricos. Mas não tenho dúvida
de que, quando consideramos as condições atuais da economia brasileira, ele é
correto. Essa mudança ocorre porque estamos vivendo um aumento significativo do
que os economistas chamam de coeficiente de importação em razão da redução
significativa da volatilidade de nossa taxa de câmbio criada pelas novas
condições de nossas contas externas. Portanto, ao longo de dois ou três anos,
ao reduzir a diferença entre nosso crescimento e o de outras economias
emergentes em 2% ao ano, podemos ajustar esse desequilíbrio que hoje ocorre. Caso
seja possível esse movimento, teremos um aumento adicional de algo como US$ 10
bilhões anuais em nossas importações. Ou seja, faríamos uma sangria da mesma
dimensão da que seria alcançada com o fim da proteção da indústria
automobilística, porém crescendo mais e não sucateando
parcela importante dessa indústria. Mas, para que essa aceleração do
crescimento ocorra em um cenário de estabilidade de preços, será necessário um
movimento corajoso do governo na direção da redução de seus gastos correntes. Exercício
realizado aqui na Quest mostra que a estabilização
das despesas correntes no nível de 2006, uma elevação dos investimentos em
infra-estrutura para algo próximo a 2,5% do PIB, a estabilização em dois anos
do déficit da Previdência Social e uma redução gradativa dos juros reais para
algo próximo a 6% ao ano permitiriam que esse cenário
fosse atingido antes do fim do próximo mandato presidencial.
--------------------------------------------------------------------------------
LUIZ CARLOS
MENDONÇA DE BARROS , 63, engenheiro e economista, é
economista-chefe da Quest Investimentos. Foi
presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo FHC).