O Estado de S. Paulo Sábado, 28 de abril de 2007
BC -
influência limitada sobre o câmbio
Gustavo Loyola
O Banco Central (BC)
tem feito o papel de mordomo quando se trata de apontar 'culpados' pela
apreciação da taxa de câmbio. Porém, atribuir exclusivamente ao Banco Central a
responsabilidade pelo fortalecimento do real é desconhecer que há fatores que
estão muito além do controle da autoridade monetária e adiar para as calendas a adoção de políticas públicas que são fundamentais
ao crescimento do País.
Há uma inter-relação
entre as políticas monetária e cambial. Juros domésticos mais elevados
incentivam o ingresso de capitais externos e, simultaneamente, ao reduzirem a
demanda doméstica, contribuem para a elevação dos saldos comerciais externos.
Sob esse ângulo, portanto, é razoável demandar do Banco Central a queda mais
forte das taxas de juros, com o intuito de reverter o movimento de alta da
moeda brasileira.De fato, tendo em vista o baixo risco inflacionário percebido
no horizonte, e ao contrário do que tem entendido a maioria dos membros do
Comitê de Política Monetária (Copom) nas suas últimas
reuniões, a aceleração da redução da taxa Selic
parece ser a atitude mais recomendável nesse momento.
O problema é que esse 'remédio'
não alteraria substancialmente a situação na esfera cambial. Mesmo se admitindo
que a taxa real de equilíbrio de longo prazo é hoje menor do que no passado
recente, não se pode ignorar a existência de um limite para a derrubada dos
juros, haja vista um provável aumento do risco de recidiva da inflação. Isso
ocorreria, por exemplo, caso a demanda doméstica passasse a crescer acima da
oferta, descompasso que pode perfeitamente ocorrer no contexto de uma economia
relativamente fechada como a brasileira.
Daí a necessidade de se
levar em conta os demais fatores que estão por trás do fortalecimento do real e
diminuir o foco que hoje se concentra quase que exclusivamente na atuação do
Banco Central. Em particular, devem ser consideradas três forças que estão
favorecendo o ingresso de divisas no País: a forte demanda externa pelas commodities, a elevada liquidez internacional e a
colheita, pelo Brasil, dos frutos da redução da incerteza macroeconômica ao
longo da última década.
Desses três fatores, o
Banco Central somente pode ser parcialmente responsabilizado pelo terceiro.
Mas, convenhamos, é uma 'boa culpa'. Os números relativos ao investimento
direto estrangeiro têm mostrado que o fluxo de capitais para o Brasil não é
resultado apenas de um movimento de arbitragem de taxa de juros. O ingresso de
capitais decorre principalmente da combinação de uma maior confiança na gestão
macroeconômica com melhores perspectivas de crescimento resultantes, em grande
medida, da acumulação de reformas tais como privatização, reestruturação e
fortalecimento do sistema financeiro, maior abertura da economia, etc.
Por outro lado, não há
nada que possa o Brasil fazer com relação ao estado da liquidez mundial e ao
desempenho dos mercados de commodities. Enquanto prevalecer esse ciclo
favorável, o Brasil continuará a se beneficiar com ingressos substanciais de
exportações, isso sem considerar a capacidade de o País atender, com vantagens
comparativas excepcionais, à crescente demanda por combustíveis alternativos,
tais como o etanol. Como não se prenuncia no horizonte nenhuma mudança desse
ciclo favorável, propulsado em grande parte pelo dinâmico comportamento da
economia chinesa, é muito provável que tais forças de apreciação do real
permaneçam atuando no futuro imediato.
Assim, é necessário
buscar outras saídas para conviver com um real apreciado. Do ponto de vista de
políticas públicas, não basta esperar a reação do Banco Central. Há que se ir
bem mais longe. Por exemplo, adotando-se uma política de redução das barreiras
tarifárias e não tarifárias à importação. Isso teria o condão não apenas de
elevar a demanda por moeda estrangeira, mas também de contribuir para o aumento
da produtividade da economia. Além disso, torna-se urgentemente necessária a
implementação coerente e continuada de ações que visem à redução do custo
Brasil, com vistas a dar às empresas atuantes no País condições para competir
num ambiente de moeda apreciada.