ENTREVISTA (O GLOBO 08.01.07)

GUSTAVO FRANCO

'Em matéria de ecletismo, é algo extraordinário'

O livro com textos de Pessoa é o segundo de uma série editada pela Rio Bravo Investimentos, empresa de serviços financeiros da qual Gustavo Franco é sócio e diretor. Franco se entusiasmou com a profundidade dos artigos de Pessoa sobre economia e, como bom gestor, aproveitou o fato de a obra do poeta ter entrado em domínio público para, nas suas próprias palavras, fortalecer o branding de sua empresa.

Por que Fernando Pessoa num livro sobre economia?

GUSTAVO FRANCO: Temos uma série, publicada pela Rio Bravo (empresa de gestão de recursos da qual Franco é sócio). E a idéia é fazer o que está no capítulo de branding (jargão para criar a marca de um negócio, dar identidade a uma companhia) do livro que acabamos de lançar: propagar os valores da empresa. Há anos sou encantado pelos textos de economia do Pessoa, que eu conheço desde que foram publicados no Brasil pela primeira vez, no início da década de 90. Não só os artigos são encantadores, como é um pequeno milagre encontrar um texto com profundidade e refinamento na economia escrito por um amador, por um poeta, ainda mais tratando-se de quem se trata. Em matéria de ecletismo, é algo extraordinário. Pessoa, na verdade, são 70 filiais (seus heterônimos). E uma filial, que era o próprio, entendia de economia, e muito (os artigos reunidos no livro são assinados pelo ortônimo, ou nome verdadeiro, Fernando Pessoa). Com o domínio público (os direitos autorais sobre o poeta expiraram em 2005), me deu esse estalo de tentar publicar este material antes da concorrência.

Em que pese ter administrado habilmente 70 pseudônimos e heterônimos, Fernando Pessoa teve uma vida de pouco sucesso financeiro. Seus conselhos de gestão, ainda assim, são úteis?

FRANCO: Como qualquer pessoa que está envolvida na economia real, as coisas dão certo, não dão, é parte da vida empresarial. E isso não quer dizer que, em si, ele seja um administrador gênio. Apenas ele teve a experiência empresarial. E bom que tenha conhecido as coisas que dão certo e que dão errado. As que dão errado costumam ser mais educativas.

No seu prefácio, o senhor se defende previamente de possíveis críticas em relação à liberdade que tomou ao interpretar os textos do Pessoa. Uma frase do poeta, que consta do livro, diz que 'os fatos provam o que quer o raciocinador'. Isso vale para seus comentários sobre os textos de Pessoa?

FRANCO: Alguém poderá lembrar o que Pessoa escreveu sobre astrologia e sobre oculto e dizer que ele não pode ser levado a sério sobre economia. Esse é um poeta esquisito, faz mapa astral, tem 70 identidades, o que ele entende sobre economia? Essa é uma maneira fácil de desqualificá-lo. Mas a minha proposta é: vamos lá, vamos ao texto. Ainda que eu possa ter usado a essência, tentado atrair o leitor, dado contemporaneidade aos temas, nada substitui o texto, de forma pura, que está no livro. Eu não escrevi um artigo sobre Pessoa, eu editei os textos dele. Vamos ler o que ele escreve. Seus artigos são impressionantes pela atualidade. Todos os textos, sem exceção, puderam ser aproveitados para temas contemporâneos. Isso não foi feito de maneira forçada. Os artigos são muito pertinentes e, em alguns casos, apaixonantes.
É Fernando Pessoa falando, mais ninguém.