08/01
O Globo / Economia
Lições de economia por Pessoa, ele mesmo

Livro reúne textos do poeta português escritos na década de 20 sobre temas como privatização e protecionismo

Texto de Luciana Rodrigues

RIO, 7 (AG) - Uma revista publicada na Lisboa da década de 20 do século passado reúne um pequeno tesouro literário sobre economia. São textos que, há 80 anos, discorriam sobre temas hoje tão atuais como privatização, protecionismo comercial ou regulamentação do mercado de trabalho. O assunto, árido à primeira vista, é compensado pelo texto ora irônico, ora didático, de ninguém menos do que Fernando Pessoa - literalmente o próprio, já que o poeta português assina os artigos com seu nome de batismo, sem recorrer a nenhum dos seus cerca de 70 heterônimos.

Pouco conhecidos do público brasileiro, os textos ganharam nova edição, organizada pelo economista Gustavo Franco, professor da PUC-Rio e ex-presidente do Banco Central. O livro 'A economia em Pessoa' chega às lojas no dia 14 e reúne dez artigos e alguns longos verbetes, em sua maioria publicados originalmente na 'Revista de Comércio e Contabilidade', uma empreitada de Pessoa que teve seis edições mensais em 1926.

Gustavo Franco faz comentários para cada artigo

De maneira intuitiva, porém precisa, Pessoa introduz idéias que, à sua época, não faziam parte do repertório de economia e gestão de negócios. Gustavo Franco, além de organizar o livro, escreve o prefácio e os comentários para cada artigo. O objetivo é trazer à luz da teoria econômica moderna as idéias de Pessoa.



O economista vê nos textos do poeta discussões sobre globalização, marketing e até clusters industriais (aglomerados de empresas do mesmo tipo que se associam para ter ganhos de escala). Mas Franco reconhece que arriscou 'certas liberdades editoriais' ao interpretar os artigos originais de Pessoa.

Mas é pela pena do poeta que a verve literária dá cor aos temas econômicos. Pessoa enumera conselhos de gestão a seus leitores com o estilo simples e incisivo que lhe é característico. Um exemplo: ao enfatizar que um empresário precisa conhecer bem o desejo de seus clientes, afirma que 'um comerciante que usa a cabeça para fins mais interiores que a colocação do chapéu' estuda o mercado antes de oferecer seus produtos.

O poeta, quem diria, já defendia privatização

Pessoa usa a mesma ênfase irônica para defender suas teses econômicas. Advoga pela privatização (sem usar especificamente este termo) e pela iniciativa privada: 'Quanto mais o Estado intervém na vida espontânea da sociedade, mais risco há, se não positivamente mais certeza, de a estar prejudicando'.

A vivência empresarial, seja como empreendedor ou como empregado nos 15 escritórios comerciais onde trabalhou, proporcionou ao poeta um conhecimento prático das leis econômicas, avalia Franco. E a visão de gestor - o outro enfoque do livro - pode ter sido aprendida por Pessoa ao administrar, ao longo da vida, a rede de dezenas de heterônimos que assinam seus textos literários, cada um com personalidade, profissão e nacionalidade diversas.

Além dos artigos, o livro reproduz uma 'entrevista' com Pessoa, publicada originalmente em 1975. De autoria do escritor João Alves das Neves, presidente do Centro de Estudos Fernando Pessoa, trata-se do encadeamento, em formato pergunta-resposta, das opiniões sobre economia do poeta. Com 182 páginas e editado pela Reler, o livro custa R$44.

Inovações no calendário



Forma gregoriana atrapalharia comércio

Nem só de temas restritos à economia tratam os artigos reunidos no livro de Gustavo Franco. Num curioso texto sobre calendário, Fernando Pessoa apresenta aos leitores de sua 'Revista de comércio e contabilidade' as propostas em discussão para alterar a forma gregoriana de se contar dias, meses e anos. O que parece devaneio neste limiar do século XXI, era tema de reuniões solenes da Comissão Especial de Inquérito à Reforma do Calendário, criada pela Sociedade das Nações (embrião da ONU que existiu no entre guerras).

O calendário gregoriano era - e, em certa medida, ainda é - um problema para comerciantes, que precisam tabular, em suas estatísticas e previsões, meses de diferentes tamanhos e trimestres com distintas durações. Essa irregularidade prejudica ainda o cálculo de juros de aplicações e prêmios de seguros, explica Pessoa no artigo.

A Sociedade das Nações queria dar fim a esses problemas simplesmente alterando o calendário. E elaborou três propostas. A mais radical previa que um ano tivesse 13 meses com 28 dias cada, ou seja, quatro semanas exatas. Mas, ainda assim, 'sobraria' um dia no ano. Seria, então, criado um 'dia em branco' que poderia se inserir entre o fim de um ano e o começo do seguinte. As maiores resistências a essa proposta vinham de representantes de diferentes religiões que participavam das discussões.

Apesar do empenho de 33 países, 26 organizações internacionais e dezenas de outras entidades, a reforma do calendário gregoriano nunca saiu do papel. Gustavo Franco contextualiza bem esse episódio com as teorias modernas sobre as dificuldades de se romper padrões tecnológicos ou de qualquer tipo.

É um problema que, no jargão econômico, ficou conhecido como Qwerty, palavra formada pela seqüência de letras que aparece no teclado de qualquer computador ou máquina de escrever. O padrão Qwerty de datilografia, apesar de propositalmente de difícil execução (as primeiras máquinas de escrever emperravam se usadas com rapidez), nunca foi substituído, pois é tão amplamente usado que o custo para sua alteração seria muito elevado. Se não foi possível mudar nem a forma de se datilografar, imagina, então, o calendário.

O ECONOMÊS PELO ESCRITOR

MARKETING: Enquanto os demais artigos do livro são pouco conhecidos, o texto de Pessoa que destaca a necessidade de os empresários terem foco nos clientes, e que ganhou o título de 'Marketing' na edição de Gustavo Franco, já é estudado em escolas de administração. O poeta português narra o fracasso de produtores ingleses de 'taças para ovos' (egg-cups, pequenos copos usados para comer ovos quentes) na Índia. Depois de décadas vendendo com sucesso este artefato na Índia, os ingleses foram desbancados por fabricantes alemães que, entretanto, praticavam os mesmos preços que seus concorrentes. O sucesso dos alemães foi perceber que os ovos, na Índia, eram maiores do que na Europa e, assim, produzir taças de tamanho adequado.



GLOBALIZAÇÃO: O poeta expõe a evolução histórica do comércio mundial e mostra como esta atividade está ligada de forma intrínseca ao intercâmbio cultural. 'Os fenômenos são, pois, rigorosamente paralelos', afirma Pessoa, listando as cidades conhecidas na História pelo seu vigor artístico mas que eram 'eminentemente comerciais', como a Atenas da Grécia Antiga ou a Florença da Renascença.

PROTECIONISMO: Pessoa critica as legislações restritivas ao comércio exterior. 'A restrição das importações, e sobretudo a dos artigos 'de luxo', não ocorreu nunca a qualquer cérebro lúcido como processo direto, ou fundamental, para melhorar o câmbio.'

PRIVATIZAÇÃO: Manter empresas sob controle estatal é prejuízo certo, diz Pessoa:'Há serviços de Estado, em muitos países, que trabalham com déficit previsto para beneficiar o consumidor. Como, porém, esse consumidor é ao mesmo tempo contribuinte, o que o Estado lhe dá com a mão direita, terá fatalmente que tirar-lho com a esquerda. O consumidor é, no fim, quem paga o que deixa de pagar.'