08/01
O Globo / Economia
Lições de economia por Pessoa, ele
mesmo
Livro reúne textos do poeta português
escritos na década de 20 sobre temas como privatização e protecionismo
Texto de Luciana Rodrigues
RIO, 7 (AG) - Uma revista publicada na Lisboa da década de 20 do século passado
reúne um pequeno tesouro literário sobre economia. São textos que, há 80 anos,
discorriam sobre temas hoje tão atuais como privatização, protecionismo
comercial ou regulamentação do mercado de trabalho. O assunto, árido à primeira
vista, é compensado pelo texto ora irônico, ora didático, de ninguém menos do
que Fernando Pessoa - literalmente o próprio, já que o poeta português assina
os artigos com seu nome de batismo, sem recorrer a nenhum dos seus cerca de 70 heterônimos.
Pouco conhecidos do público brasileiro, os textos ganharam nova edição,
organizada pelo economista
De maneira intuitiva, porém precisa, Pessoa introduz idéias que, à sua época,
não faziam parte do repertório de economia e gestão de negócios.
O economista vê nos textos do poeta discussões sobre globalização, marketing e
até clusters industriais (aglomerados de empresas do mesmo tipo que se associam
para ter ganhos de escala). Mas Franco reconhece que arriscou 'certas
liberdades editoriais' ao interpretar os artigos originais de Pessoa.
Mas é pela pena do poeta que a verve literária dá cor aos temas econômicos. Pessoa
enumera conselhos de gestão a seus leitores com o
estilo simples e incisivo que lhe é característico. Um exemplo: ao enfatizar
que um empresário precisa conhecer bem o desejo de seus clientes, afirma que
'um comerciante que usa a cabeça para fins mais interiores que a colocação do
chapéu' estuda o mercado antes de oferecer seus produtos.
O poeta, quem diria, já defendia privatização
Pessoa usa a mesma ênfase irônica para defender suas teses econômicas. Advoga
pela privatização (sem usar especificamente este termo) e pela iniciativa
privada: 'Quanto mais o Estado intervém na vida espontânea da sociedade, mais
risco há, se não positivamente mais certeza, de a estar
prejudicando'.
A vivência empresarial, seja como empreendedor ou como empregado nos 15
escritórios comerciais onde trabalhou, proporcionou ao poeta um conhecimento
prático das leis econômicas, avalia Franco. E a visão de gestor - o outro
enfoque do livro - pode ter sido aprendida por Pessoa ao administrar, ao longo
da vida, a rede de dezenas de heterônimos que assinam seus textos literários,
cada um com personalidade, profissão e nacionalidade diversas.
Além dos artigos, o livro reproduz uma 'entrevista' com Pessoa, publicada
originalmente em 1975. De autoria do escritor João Alves das Neves, presidente
do Centro de Estudos Fernando Pessoa, trata-se do encadeamento, em formato pergunta-resposta, das opiniões sobre economia do poeta. Com
182 páginas e editado pela Reler, o livro custa R$44.
Inovações no calendário
Forma gregoriana atrapalharia comércio
Nem só de temas restritos à economia tratam os artigos reunidos no livro de
O calendário gregoriano era - e, em certa medida, ainda é - um problema para
comerciantes, que precisam tabular, em suas estatísticas e previsões, meses de
diferentes tamanhos e trimestres com distintas durações. Essa irregularidade
prejudica ainda o cálculo de juros de aplicações e prêmios de seguros, explica
Pessoa no artigo.
A Sociedade das Nações queria dar fim a esses problemas simplesmente alterando
o calendário. E elaborou três propostas. A mais radical previa que um ano
tivesse 13 meses com 28 dias cada, ou seja, quatro semanas exatas. Mas, ainda
assim, 'sobraria' um dia no ano. Seria, então, criado um 'dia em branco' que
poderia se inserir entre o fim de um ano e o começo do seguinte. As maiores
resistências a essa proposta vinham de representantes de diferentes religiões
que participavam das discussões.
Apesar do empenho de 33 países, 26 organizações internacionais e dezenas de
outras entidades, a reforma do calendário gregoriano nunca saiu do papel.
É um problema que, no jargão econômico, ficou conhecido como Qwerty, palavra formada pela seqüência de letras que
aparece no teclado de qualquer computador ou máquina de escrever. O padrão Qwerty de datilografia, apesar de propositalmente de
difícil execução (as primeiras máquinas de escrever emperravam se usadas com
rapidez), nunca foi substituído, pois é tão amplamente usado que o custo para
sua alteração seria muito elevado. Se não foi possível mudar nem a forma de se
datilografar, imagina, então, o calendário.
O ECONOMÊS PELO ESCRITOR
MARKETING: Enquanto os demais artigos do livro são pouco conhecidos, o texto de
Pessoa que destaca a necessidade de os empresários terem foco nos clientes, e
que ganhou o título de 'Marketing' na edição de
GLOBALIZAÇÃO: O poeta expõe a evolução histórica do comércio mundial e mostra
como esta atividade está ligada de forma intrínseca ao intercâmbio cultural. 'Os
fenômenos são, pois, rigorosamente paralelos', afirma Pessoa, listando as
cidades conhecidas na História pelo seu vigor artístico mas
que eram 'eminentemente comerciais', como a Atenas da Grécia Antiga ou a
Florença da Renascença.
PROTECIONISMO: Pessoa critica as legislações restritivas ao comércio exterior.
'A restrição das importações, e sobretudo a dos
artigos 'de luxo', não ocorreu nunca a qualquer cérebro lúcido como processo
direto, ou fundamental, para melhorar o câmbio.'
PRIVATIZAÇÃO: Manter empresas sob controle estatal é prejuízo certo, diz
Pessoa:'Há serviços de Estado, em muitos países, que trabalham com déficit
previsto para beneficiar o consumidor. Como, porém, esse consumidor é ao mesmo
tempo contribuinte, o que o Estado lhe dá com a mão direita, terá fatalmente
que tirar-lho com a esquerda. O consumidor é, no fim, quem paga o que deixa de pagar.'