Valor Econômico
06/12/2007
O investidor olha, mas não enxerga
Por
Olga de Mello, do Rio
06/12/2007
A economia já rendeu literatura que encanta os interessados
no tema, mas os literatos, de maneira geral, pouco apreço demonstraram pelo
assunto, exceto como observadores do cotidiano. Um deles foi Machado de Assis,
que, se demonstra pouca intimidade com os fenômenos econômicos, pôde
comentá-los com a mordacidade habitual em prosa - e até em versos - ,
misturando personagens reais aos literários nas crônicas publicadas pelo jornal
"Gazeta de Notícias" entre o fim da década de 1850 e o começo do
século XX.
O economista
Na seqüência das crônicas, duas delas em
forma de poesia, Franco percebeu um enredo - em capítulos - sobre um
mesmo personagem, o acionista, alguém que vive de renda e não nutre qualquer
entusiasmo por assembléias, interessado que está apenas em saber quanto obterá
"O acionista de Machado de Assis não é o investidor dos
dias de hoje, que pratica a governança corporativa. Ele comparece forçado às
assembléias e é, basicamente, um súdito do imperador, que entende que o governo
é quem manda na política econômica, que o Estado paga o dividendo. Portanto,
qual é o sentido em participar daquelas reuniões para falar sobre assuntos que,
no fim, serão definidos pelo governo? Esse personagem aparece, com toda a
ironia de Machado, para desnudar a influência do Estado sobre todos os negócios
existentes no país. O acionista se assemelha a outra figura de diversas
crônicas de Machado, um relojoeiro aposentado inconformado com o ritmo
acelerado do tempo desde o fim da Guerra do Paraguai. Sob o relojoeiro estava o
escritor, que também emerge na persona do acionista
aturdido com a capitalização do Brasil", diz Franco.
Entre os assuntos abordados por Machado estão alguns que
nunca deixaram de freqüentar o cotidiano dos brasileiros, temas que são da
economia de todos os tempos, como a variação dos preços que fazem o custo de
vida e o sobe-desce da taxa de câmbio. As imagens literárias e a ironia
característica do escritor pontuam diversos textos. Na crônica de 16 de maio de
1885, por exemplo, Machado trava um diálogo com os "impostos inconstitucionais
de Pernambuco", cobrados pela província apesar de proibidos pela
Constituição: "Conheceram-me logo, eu é que, ou por falta de vista, ou
porque realmente eles estejam mais gordos, não os conheci imediatamente".
Três anos depois, a mudança social provocada pela entrada de
ex-escravos no mercado de trabalho rende a história do homem que, durante uma
festa, dias antes da Abolição, alforria um escravo apenas para que seja
registrada sua preocupação humanista, já que pretende seguir carreira política.
Ao discutir a necessidade de uma reforma monetária, em março
de 1889, Machado sugere que o Brasil tenha uma moeda própria, com um nome
ligado ao imaginário nacional: o cruzeiro. "Imagino até o desenho da
moeda; de um lado a efígie imperial, do outro a constelação...". As
falências bancárias são encaradas filosoficamente: "Não há bancos eternos.
Todo banco nasce virtualmente quebrado; é seu destino, mais ano, menos
ano", comenta o escritor, referindo-se ao fim das atividades do Banco
Rural, em novembro de 1900.
"Ele não era apenas o maior romancista brasileiro e um
dos grandes gênios da literatura mundial, mas um mestre da crônica, que envolve
o leitor, sempre ressalvando seu desconhecimento sobre finanças, mas
contextualizando com os assuntos daquela semana. Durante quatro décadas, ele
publicou crônicas semanais, assinadas ou sob pseudônimo. A vida financeira
tinha, obrigatoriamente, que se tornar assunto. A intenção de suas reflexões
era agradar ao público com reflexões sobre aquele capitalismo novo que surgia,
a necessidade de modernização do país e o provável retorno ao conservadorismo
que ele antevia. É um enredo literário, desenhado com seu estilo espetacular,
sempre usando um parágrafo inicial que contextualiza a situação, ligando a temas
paralelos que falam do momento do país, geralmente com muita elegância e
sarcasmo", diz Franco - que há cerca de um ano lançou uma coletânea de
"Machado se apresentava como leigo no assunto. Seu
testamento mostra que havia adquirido títulos do Tesouro Nacional. Um mau
negócio, pois o governo jamais resgatou tais títulos", afirma Franco.