Novo modelo
A abertura comercial e
a nova política cambial são fundamentais para mudar o processo de concentração
de renda e de desigualdade social. Esta é uma das idéias do documento com que o
Diretor do Banco Central Gustavo Franco respondeu às críticas feitas à política
cambial. O documento já foi discutido em workshops
feitos em vários órgãos oficiais e tem respostas para algumas das contradições
do próprio governo.
A política de substituição
de importações produziu níveis cada vez maiores de ineficiência e perda de
produtividade, segundo Gustavo Franco. E esta perda de produtividade foi
responsável pelo aumento da concentração de renda. Numa economia protegida, o mundo
empresarial reluta em dedicar recursos escassos a investimentos em qualidade e
produtividade, pois não há necessidade disso. Isto é, pode-se ganhar dinheiro
sem fazer força num mercado não contestável - diz.
Só é possível crescer,
distribuir renda e manter a competitividade ao mesmo tempo se a produtividade
permanece crescendo. E isto só ocorre, segundo Gustavo, no ambiente que existe
no pais após a abertura e o Plano Real. quando as empresas reduziram custo, aumentaram salários e diminuíram preço.
ao mesmo tempo. Ou seja, o aumento de produtividade foi transferido em parte
para o trabalhador e em parte para o consumidor.
- É evidente,
portanto. que a abertura não é um expediente temporário para enquadrar oligopólios
nos momentos mais críticos da estabilização. A abertura é a base para a
construção de um modelo de crescimento, para os próximos anos, que permita que
o Brasil dê um salto qualitativo e conseqüente em termos de padrão de vida de
sua população - acrescenta Gustavo.
A política de câmbio que existia antes do Real estava ligada a essa lógica do fechamento comercial. Com graus decrescentes de competitividade em relação aos concorrentes internacionais. as empresas brasileiras exportavam graças às constantes desvalorizações do câmbio, que nada mais eram do que transferência de renda para os exportadores. É por isto, segundo ele, que o maior grau “saudosismo” da velha política ocorre justamente neste setor:
- A noção de defasagem
tem apelo irresistível para aqueles que exibem algum grau de nostalgia relativo
a um passado não multo distante, em que o Brasil permanecia protegido dos imperativos
da globalização.
Às vezes com fórmulas
matemáticas, às vezes em linguagem coloquial, Gustavo tenta desmontar a idéia
de que há um atraso no câmbio:
- O fato de o preço da
banana, por exemplo, cair por causa de uma supersafra quer dizer
necessariamente que há uma defasagem bananal?
Gustavo ataca “a velha
falácia do pensamento nacionalista" e avisa que o aumento do investimento
das multinacionais se daria, em certa medida, através da compra de empresas
brasileiras. Isto poderá - avisa – “reavivar velhas preocupações com a desnacionalização
do parque produtivo nacional".
Ao fim do documento, o
diretor do Banco Central critica a idéia de fazer planos de desenvolvimento
coordenados pelo Governo:
- O “plano de metas” governamentais não é mais tão importante, e nesse contexto o grande desafio deste Governo e mudar os termos pelos quais são avaliados os governos. O documento serviu para longas discussões internas. Gustavo Franco foi com ele ao Ministério do Planejamento, em Brasília, veio ao Rio, no IPEA. e foi ao Ministério da Indústria e Comércio. Sempre seguindo recomendações do presidente Fernando Henrique. Há tempos o presidente vem falando deste documento com seus interlocutores.
Apesar disso, neste mesmo Governo há defensores de medidas protecionistas, críticos da política cambial e formuladores de planos de metas.
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