O Globo – 11 de setembro de 1996

PANORAMA ECONOMICO

Míriam Leitão

Novo modelo

A abertura comercial e a nova política cambial são fundamentais para mudar o processo de concentração de renda e de desigualdade social. Esta é uma das idéias do documento com que o Diretor do Banco Central Gustavo Franco respondeu às críticas feitas à política cambial. O documento já foi discutido em workshops feitos em vários órgãos oficiais e tem respostas para algumas das contradições do próprio governo.

A política de substituição de importações produziu níveis cada vez maiores de ineficiência e perda de produtividade, segundo Gustavo Franco. E esta perda de produtividade foi responsável pelo aumento da concentração de renda. Numa economia protegida, o mundo empresarial reluta em dedicar recursos escassos a investimentos em qualidade e produtividade, pois não há necessidade disso. Isto é, pode-se ganhar dinheiro sem fazer força num mercado não contestável - diz.

Só é possível crescer, distribuir renda e manter a competitividade ao mesmo tempo se a produtividade permanece crescendo. E isto só ocorre, segundo Gustavo, no ambiente que existe no pais após a abertura e o Plano Real. quando as empresas reduziram custo, aumentaram salários e diminuíram preço. ao mesmo tempo. Ou seja, o aumento de produtividade foi transferido em parte para o trabalhador e em parte para o consumidor.

- É evidente, portanto. que a abertura não é um expediente temporário para enquadrar oligopólios nos momentos mais críticos da estabilização. A abertura é a base para a construção de um modelo de crescimento, para os próximos anos, que permita que o Brasil dê um salto qualitativo e conseqüente em termos de padrão de vida de sua população - acrescenta Gustavo.

A política de câmbio que existia antes do Real estava ligada a essa lógica do fechamento comercial. Com graus decrescentes de competitividade em relação aos concorrentes internacionais. as empresas brasileiras exportavam graças às constantes desvalorizações do câmbio, que nada mais eram do que transferência de renda para os exportadores. É por isto, segundo ele, que o maior grau “saudosismo” da velha política ocorre justamente neste setor:

- A noção de defasagem tem apelo irresistível para aqueles que exibem algum grau de nostalgia relativo a um passado não multo distante, em que o Brasil permanecia protegido dos imperativos da globalização.

Às vezes com fórmulas matemáticas, às vezes em linguagem coloquial, Gustavo tenta desmontar a idéia de que há um atraso no câmbio:

- O fato de o preço da banana, por exemplo, cair por causa de uma supersafra quer dizer necessariamente que há uma defasagem bananal?

Gustavo ataca “a velha falácia do pensamento nacionalista" e avisa que o aumento do investimento das multinacionais se daria, em certa medida, através da compra de empresas brasileiras. Isto poderá - avisa – “reavivar velhas preocupações com a desnacionalização do parque produtivo nacional".

Ao fim do documento, o diretor do Banco Central critica a idéia de fazer planos de desenvolvimento coordenados pelo Governo:

- O “plano de metas” governamentais não é mais tão importante, e nesse contexto o grande desafio deste Governo e mudar os termos pelos quais são avaliados os governos. O documento serviu para longas discussões internas. Gustavo Franco foi com ele ao Ministério do Planejamento, em Brasília, veio ao Rio, no IPEA. e foi ao Ministério da Indústria e Comércio. Sempre seguindo recomendações do presidente Fernando Henrique. Há tempos o presidente vem falando deste documento com seus interlocutores.

Apesar disso, neste mesmo Governo há defensores de medidas protecionistas, críticos da política cambial e formuladores de planos de metas.

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