Panorama
econômico – Miriam Leitão - 21/11/2004
O LIVRO TEM A AGILIDADE DE SE DIVIDIR EM
DOIS: PRIMEIRO, UM RELATO DOS PERÍODOS HISTÓRICOS ANALISANDO CADA UMA DAS FASES
DA POLÍTICA ECONÔMICA. DEPOIS, OS ACONTECIMENTOS POR TEMA, COM ARTIGOS A CARGO
DE ECONOMISTAS QUE, ÀS VEZES, NADA TÊM EM COMUM EXCETO O FATO DE QUE FORAM
PROTAGONISTAS DESTA HISTÓRIA, COMO DELFIM NETTO E GUSTAVO FRANCO.
Os organizadores — Fábio Giambiagi, André Villela, Lavínia
Barros de Castro e Jennifer Hermann — conseguiram fazer um livro que é
didático, para os cursos de graduação de economia, e, ao mesmo tempo, de
leitura interessante para quem acompanha, informado, o desenrolar dos
acontecimentos no Brasil.
O presidente Dutra montou um governo superortodoxo, que transformou o déficit
orçamentário em superávit e trouxe a inflação de volta a um dígito. Isso nos
primeiros anos, conta Sérgio Besserman, porque a proximidade das eleições fez
com que ele afrouxasse o aperto e aumentasse os gastos.
Mas a origem da inflação como a vimos nas últimas décadas foi produzida tempos
depois, nos anos dourados de JK. Essa é a opinião de Delfim Netto. “Houve um
enorme descuido com a área monetária e o setor externo. Ocorria uma emissão
contínua de moeda para financiar o déficit de caixa. A construção de Brasília
foi um fator adicional de emissão.” Para Delfim, “a taxa de inflação começou
com uma escalada moderada no início do governo JK, mais agressiva depois dos
anos 60. A expansão monetária não foi a única causa do processo inflacionário,
mas a mais importante”.
Gustavo Franco, vendo em perspectiva o estrago provocado por essa emissão sem
lastro, diz o seguinte: “É curioso que o desenvolvimentismo brasileiro tenha
conseguido preservar em torno de si a aura de projeto nacional redentor e, com
isso, tenha logrado distanciar-se de alguns dos principais problemas que criou,
como concentração de renda que, curiosamente, não é vista como decorrência da
aplicação, durante várias décadas, de um ‘imposto único sobre os pobres’ — a
inflação. É extraordinário que essas culpas tenham ficado sem dono.” O capítulo
de Gustavo Franco se dedica a analisar o que ele chama de “auge e declínio do
inflacionismo no Brasil”.
Delfim, no texto sobre o meio século da economia brasileira, chega a uma
conclusão taxativa com clara aplicação ao debate dos dias de hoje: “A teoria do
desenvolvimento enfatiza como condição para um crescimento auto-sustentado a
manutenção da estabilidade macroeconômica, a abertura ao mercado internacional
e o estímulo à competição externa.” E ele faz a pergunta: “Na condução da
política econômica, será que os policy makers seguiram esses conselhos?” É
inevitável ler com alguma ironia essa questão proposta. E ele? Será que acha
que seguiu?
Regis Bonelli se faz uma das mais intrigantes perguntas feitas no país: o que
causou o crescimento econômico do Brasil? Fundamental saber como reencontrar o
caminho. Num artigo mais técnico, ele analisa os vários determinantes do
crescimento para, num dos pontos da conclusão, avisar que a taxa de poupança
aumentou muito de 1940 a 1974 para depois permanecer mais ou menos a mesma nas
décadas seguintes. O principal responsável pela queda do crescimento não foi,
portanto, a queda da taxa de poupança, mas o custo do investimento. Isso faz
com que a mesma poupança financie cada vez menos investimento, porque ele ficou
mais caro. Como resume Wilson Suzigan no prefácio, “isto o leva a concluir que,
da perspectiva da produtividade, as décadas perdidas não foram os anos 80-90,
mas os períodos 74-84 e 84-93”.
Diferente o pensamento de Edward Amadeo e Fernando Montero. Eles acham que o
Brasil tem que fazer um esforço extraordinário de aumento de poupança para
conseguir financiar seu desenvolvimento no contexto atual de megassuperávits
comerciais.
Rogério Studart busca o que há de errado com o financiamento do desenvolvimento
brasileiro e propõe criação de mecanismos privados de financiamento de longo
prazo, o que pode ser através dos investidores institucionais. Enquanto isso
não vem, sugere que se evite o sobreendividamento externo, que já nos abateu
algumas vezes.
Nos capítulos finais, Lauro Ramos e Rosane Mendonça tratam de pobreza e
desigualdade e Sérgio Guimarães Ferreira e Fernando Veloso, de educação. Os
dois capítulos se complementam. A boa notícia conhecida é que a pobreza e a
extrema pobreza caíram fortemente desde o Plano Real: 8 pontos percentuais na
década passada. Por outro lado, como a população continua crescendo, o Brasil
tem hoje 8 milhões a mais de pobres do que tinha em 1980.
A educação é a arma para a redução do nosso mais persistente flagelo: a
desigualdade. A educação teve avanços extraordinários, dizem os autores, na
década passada, mas qualquer comparação com outros países é vergonhosa. Nas
cinco décadas estudadas, o Brasil reduziu em 7% o analfabetismo a cada década,
saindo de 50,5%, em 1950, para 13,6%, em 2000; mesmo assim, tem um percentual
muito maior de analfabetos que o Chile e a Argentina. Na outra ponta, a
matrícula no ensino superior cresceu 12%, de 80 a 90, e 75%, de 90 a 2000.
Avanços existem, mas há uma enorme tarefa a executar.