24
de outubro de 1988
Jornal
do Brasil
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Política industrial e competitividade
Em artigo recente (JB, 12/10/88)
João Paulo de Almeida Magalhães voltou às páginas deste jornal ao com o propósito de rebater algumas. críticas que
fizemos às suas idéias sobre política Industrial. Surpreendente mente, o
professor da Faculdade de Direito da UFRJ aproveitou o espaço aberto pelo JB
para, de forma inteiramente gratuita, nos acusar de nutrirmos pelas empresas
estrangeiras “certo tipo de amor-paixão” (sic) capaz de impedir um debate
isento sobre o tema. Ao invés de nos dedicarmos ao deselegante exercício de
especular em público sobre as motivações das posições intelectuais de nosso
colega, pensamos ser mais proveitoso para o leitor sublinharmos as
discordâncias de opinião entre nós e JPAM sobre aspectos básicos e de interesse
público que devem informar a redefinição da política industrial do país.
O que nos motivou a comentar seu artigo original foi a insatisfação com a proposta de JPAM de usar recursos públicos no formação e no fortalecimento conglomerados privados de propriedade de brasileiros com base no que o autor entende ser a bem sucedida experiência sul-coreana. Essa insatisfação tinha como eixos principais não só o mimetismo acrílico e voluntarismo da mas também (1) sua representação equivocada do mau comportamento exportador das empresas estrangeiras no Brasil e em geral, e, mais profundamente; (2) seu olímpico desprezo pelas atuais demandas por maior transparência, racionalidade econômica e eqüidade distributiva - em outras palavras, por profunda reforma - na condução de políticas públicas no país, principalmente quando envolvem grandes transferências de dinheiro público a grupos privados, no novo quadro político nacional. A esses dois pontos um terceiro poderia ser acrescentado, relativo à mistificação da experiência dos chamados “tigres asiáticos”.
Há pouco o que acrescentar no tocante ao primeiro ponto. O respeito à vasta e sólida evidência empírica existente nos obriga simplesmente a reafirmar o fato de que as multinacionais (MNs) se comportam, segundo a terminologia de JPAM, “como autênticas transnacionais” , isto é, racionalizam atividades e distribuem funções em escala global dentro das respectivas redes de filiais. Em nosso artigo mencionamos apenas algumas indicações inequívocas nessa direção, tais como a extraordinária importância do comércio intrafirma e a participação das MNs nas exportações de manufaturados da parte de países de periféricos mais industrializados. No caso do Brasil em particular, a propensão a exportar das MNs não só cresceu continuamente longo das últimas décadas, como é significativamente maior que das empresas nacionais semelhantes. Sabe-se também que a participação das MNs nas exportações brasileiras de maior conteúdo tecnológico. (equipamentos e instrumentos) é da ordem de 2/3. A incredulidade de JPAM quanto a esses fatos amplamente conhecidos é ainda mais surpreendente uma vez que não são apresentadas quaisquer indicações em sentido contrário. Deve ficar claro, portanto, que a hipótese minuciosamente enunciada pelo professor, de que as MNs têm mostrado um mau desempenho exportador, é inapelavelmente falsa.
Resolvido este ponto é preciso também esclarecer outros sobre a estratégia de industrialização coreana. Esta estratégia consistiu justamente em fomentar, de início, a exportação de manufaturados leves de baixo de valor adicionado e, com o tempo, proceder à diversificação da pauta de exportações na direção de produtos de maior densidade tecnológica. Em termos estilizados, tudo se passa como se, de início exportassem pentes e importassem radinhos de pilha, depois os radinhos em troca de computadores, em seguida os computadores de das 8 bits por outros de 16 bits, e depois estes por outros de 32 bits e assim sucessivamente. Uma perspectiva estática desse processo leva a que se pense numa divisão internacional do trabalho perversa, onde o que sobressai é a persistência de um hiato tecnológico. Tomar isso como um “semidesenvolvimento” baseado no exploração de mão-de-obra barata é uma bobagem que se dizia da Coréia há duas décadas passadas, mas que caiu em desuso. A essência do processo reside exatamente em observá-lo em termos dinâmicos: a densidade tecnológica das exportações neste modelo é baixa em relação ao dos produtos exportados pelos países centrais em um dado momento no tempo, mas aumenta em termos absolutos na medida em que se move a fronteira tecnológica e se acelera a taxa de absorção de tecnologia. Trata-se, portanto, de, na pior das hipóteses, tomar o bonde do progresso tecnológico, apenas sentando-se no banco de trás. Consistentemente perseguida, esta estratégia pode até mesmo, eventualmente, permitir saltos para a fronteira em novas tecnologias, como no caso do Japão.
Os elementos do modelo asiático de maior interesse para a
redefinição da política industrial brasileira são, todavia, os referentes às
formas de apoio à empresa nacional. Dentre estes os mais importantes são: (1)
que o critério básico para apoio oficial ao setor privado seja o desempenho
tecnológico em setores produtores de bens importáveis (leia-se aumentos de
produtividade sem perda de qualidade) ou o desempenho, mais facilmente
mensurável, de exportações, incluindo-se aí não só o crescimento mas a
diversificação no sentido dos ramos de maior dinamismo potencial no comércio de
manufaturas, e (2) que as decisões gerenciais fundamentais devam ser tomadas a
nível empresarial, apesar da manutenção de contatos estreitos e ampla
coordenação de decisões entre o governo e o setor privado de modo a facilitar a
decisão política de suspensão do apoio oficial no caso dos requisitos de
desempenho não serem atendidos. Em síntese, o Estado distribui prêmios a
vencedores, e não sustenta empresas decadentes nem sua política industrial tem
caráter assistencialista.
Estas lições da experiência asiática nos parecem
infinitamente mais úteis para um pais cuja agenda de política industrial está
centrada em modernização e competitividade, do que a idéia de que na Coréia
existem alguns conglomerados que, por algum determinismo misterioso, são
eficientes e que, portanto, deveríamos imitar. Na redefinição necessária de sua
política industrial o país não pode se dar ao luxo de esquecer, mais uma vez,
que existem políticas industriais caras e baratas no tocante ao uso do dinheiro
público, e que a opção a ser exercida deve considerar que o preço da primeira
(que pode incluir patrocinar multinacionais brasileiras ou outras sandices
dignas do velho Brasil potência) é exatamente o de se adiar indispensáveis
investimentos em infra-estrutura social.