OESP,
segunda-feira, 16 de setembro de 2002
JK,
sebastianismo e mito
O HERÓI E A INFLAÇÃO COMO AUXILIAR MÁGICO RUMO AO DESENVOLVIMENTO
Em meio às comemorações do
centenário de Juscelino Kubitschek e suas explorações eleitorais, impressionam
a força do mito preponderando sobre os fatos, a quase unanimidade nacional no
mergulho em uma versão tropicalizada de sebastianismo, a alegria com que nos
entregamos ao conto de fadas e as violências impostas à história. Vem também à
lembrança o famoso Samba de uma nota só, de Antonio Carlos Jobim e Newton
Mendonça, sucesso de 1959, no auge da golden age juscelinista: "Quanta
gente existe por aí que fala tanto, e não diz nada, ou quase nada."
JK não precisa de atmosfera
de conto de fadas ou de sebastianismo para ser considerado um dos dois ou três
melhores presidentes da história republicana, civis ou militares, ditadores ou
não, na República Velha ou pós-1945. Sua habilidade política assegurou amplo
respeito às liberdades democráticas e o esvaziamento das manifestações mais
daninhas do lacerdismo militar. Teve grande sucesso na venda da imagem de
nacionalista, baseado no compromisso com o Brasil interiorano, materializado em
Brasília, e na "ruptura com o FMI". Depois disso, muitas outras
negociações com o FMI fracassaram e nunca se falou em "ruptura com o
FMI", mas sim em "ruptura das negociações com o FMI", coisa bem
mais inocente, mas que aconteceu com gente menos arguta do que JK. O Brasil
mudou de cara do ponto de vista econômico, com importantes mudanças estruturais
e acelerado crescimento. Dadas as limitações dos anos 50, e mesmo que de forma
bastante improvisada, JK tinha uma estratégia de crescimento que foi coroada de
sucesso.
Qualquer avaliação
equilibrada de JK não pode, entretanto, parar por aí. O que Kubitschek herdou
em termos macroeconômicos estava longe de brilhante:
inflação já alta, na casa dos
20% anuais, situação fiscal e de balanço de pagamentos deteriorada. Mas seu
legado foi bem pior: inflação rumo aos 40%, agravamento do descontrole das
contas públicas e encurtamento significativo dos prazos de pagamento do serviço
da dívida externa. Foi dominante a macroeconomia do "homem cordial".
Esta herança, agravada pelos desatinos de Jânio Quadros e de João Goulart,
certamente contribuiu para o acirramento da crise econômica e da conseqüente
fermentação política que levou ao golpe de 1964. Lucas Lopes - amigo de JK,
ministro de JK e sogro da filha de JK - e que devia, portanto, entender de JK,
é taxativo em seu Memórias do Desenvolvimento (Rio de Janeiro, 1991) quanto ao
compromisso do presidente em relação a equilíbrio macroeconômico: "...
Juscelino ... era um desenvolvimentista à outrance, que pouco se incomodava com
... problemas macroeconômicos... Os políticos brasileiros não acreditavam em
inflação, acreditavam em obras bem-feitas. Pouco se incomodavam se essas obras
resultavam ou não em um processo inflacionário..."
Os sucessos de JK e do País
depois dos sombrios anos finais de Vargas e do clima de opereta em 1954-1955, o
próprio mote "50 anos em 5" e sua mágica violação dos limites do
possível, a enorme simpatia pessoal do presidente, conduziram à construção de
um mito que se aproxima do conto de fadas.
Seguindo a estilização de
Vladimir Propp, não é difícil identificar os personagens principais. O herói:
JK. O agressor: o FMI, revezando com a UDN.
A princesa: o desenvolvimento
e Brasília. O auxiliar mágico: a inflação e o desequilíbrio fiscal. Neste conto
de fadas pode perceber-se uma recaída no sebastianismo. Tal como d. Sebastião,
que voltaria para reconduzir Portugal à glória, no Brasil, outro governante,
moldado à imagem de JK, reconduziria o Brasil ao desenvolvimento, à imaginação
arquitetônica e musical, à paz política e social, ao alto astral.
Este pano de fundo é claramente
perceptível em meio à presente campanha presidencial. Em meio às comemorações
do centenário de JK a disputa é pelo sucessor do herói. A combinação do
messianismo sebastianista com o recurso ao auxiliar mágico consagrado pelo
conto de fadas representa um perigo não desprezível de arruinar a
estabilização, a principal conquista dos últimos anos, sem a almejada volta ao
desenvolvimento sustentado. Tal combinação pode ser detectada nos programas e
posturas dos candidatos que, no cenário mais provável, devem enfrentar-se no
segundo turno das eleições presidenciais. Em caso extremo, o candidato oficial
chega a adotar como mote "20 anos em 4" nos seus "planos"
para o Nordeste, mas, por alguma razão, o fator de aceleração juscelinista foi
reduzido à metade. Optou-se pela meia ilusão...
Há convergência dos programas
dos dois candidatos. O crescimento resultaria de um aumento do saldo da balança
comercial, obtido através de políticas de apoio a setores selecionados, em
clara reversão ao passado. A barretada à estabilização é também elemento comum,
mas é patente a falta de compromisso firme com o ajuste fiscal sustentado e a
continuidade das reformas estruturais. De alguma forma, o crescimento "vai
pintar" e, no melhor dos cenários, dele dependerá a continuidade da estabilização.
A impressão que prevalece é que os candidatos baseiam-se na ilusão comum de que
depois de mais de 20 anos de estagnação da renda per capita o Brasil, de alguma
forma, já purgou os seus pecados e só falta um JK redivivo para assegurar a volta
ao paraíso.
O nome disto é auto-engano. O
Brasil só vai voltar a crescer se for assegurada a continuidade de reformas que
permitam o aumento expressivo da competitividade e a elevação da capacidade de
poupança da economia. A estratégia de "pau na máquina" dificilmente
terá sucesso pois, parodiando Mané Garrincha, falta combinar com a realidade.
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Marcelo de Paiva Abreu é professor do
Departamento de Economia da PUC-Rio |