Valor – 13.05.04
Mais números no debate da conversibilidade
Maria Clara R. M. do Prado
Enquanto a
economia brasileira vai titubeando, ora avançando, ora recuando, em meio a um
ambiente onde inimagináveis decisões de cunho político-institucional são
tomadas pelo governo federal - a iniciativa de cassar o visto do jornalista do
"The New York Times" na noite de terça-feira é totalmente estranha à
biografia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva -, a academia mantém vivo o
debate sobre a conveniência da abertura da conta de capital do balanço de
pagamentos.
Lançada no fim
de 2002 pelo economista Pérsio Arida e absorvida logo depois por Edmar Bacha, a
tese da chamada conversibilidade plena da moeda continua suscitando muita
discussão, até mesmo entre os economistas considerados mais liberais. A última
edição da "Revista de Economia Políica", editada pelo ex-ministro
Luiz Carlos Bresser-Pereira - volume 24, nº 2 de abril /junho de 2004 - traz
dois artigos que repudiam com forte argumentação as colocações de Pérsio e
Bacha.
Ponto por ponto,
Luiz Gonzaga Belluzzo e Ricardo Carneiro no artigo "O Mito da
Conversibilidade" refutam as vantagens que aqueles dois economistas do
Plano Real enxergam na abertura da conta de capital.
Primeiro,
Belluzzo e Carneiro contestam a hipótese básica de que a reserva de valor da
moeda depende de um processo virtuoso de construção da confiança nessa moeda.
Esse é o ponto fundamental da tese de Pérsio: enquanto o movimento de entradas
e saídas de capital estrangeiro for sujeito a entraves e controles dos mais
diferentes tipos da parte do Banco Central, sempre haverá desconfiança, o que
redunda em altas taxas de juros internas e alto prêmio de risco do país. É como
se as pessoas só passassem a acreditar de fato no valor da moeda quando todas
as restrições à sua movimentação fossem eliminadas. Nesse caso, acredita,
ficaria consolidada a percepção de que nenhuma medida drástica seria colocada
em prática com respeito aos contratos, ao pagamento das obrigações externas, à
livre entrada e saída de divisas do país, enfim.
A total
liberalização dos fluxos externos seria a garantia de que o país não estaria
mais efetivamente inclinado a enveredar pelo campo das moratórias ou outras
aventuras do gênero. O risco-país estaria embutindo, nessa hipótese, o
"preço" cobrado pela suspeita de que as condições regulatórias podem
levar, a qualquer momento, a um fechamento da conta de capital.
Belluzzo e
Carneiro vêem a questão a partir de outra ótica. Não abstraem da discussão o
princípio do chamado "pecado original", termo incorporado à retórica
econômica nos últimos anos. Expressa a dificuldade que um país em
desenvolvimento tem de emitir dívida externa denominada em sua própria moeda
para negociação no mercado internacional. Isso é difícil simplesmente porque
ativos nas moedas locais do chamado mundo emergente não guardam reserva de
valor suficiente para torná-los plenamente confiáveis aos olhos dos
investidores do mundo desenvolvido. Esse seria o mais importante sinal da
conversibilidade de uma moeda.
São, como se vê,
pontos de vista diferentes porque partem de enfoques diferentes. Pérsio e Bacha
não chegam a aprofundar a questão do "pecado original" porque o
problema, para eles, é anterior a isso. Está não na capacidade da moeda ser ou
não aceita no mercado internacional. Mas no manejo interno da divisa
internacional cujos controles na entrada e na saída tornam por si a moeda
estrangeira mais "valorizada" face à moeda nacional Desse ponto de
vista, quanto mais livre for a movimentação do capital estrangeiro no país,
melhor seria o ambiente para a aceitação da moeda nacional e, conseqüentemente,
para sua conversibilidade.
Acontece que o
mundo não passaria, só por isso, a ser cor-de-rosa. Ou seja, o país não estaria
livre dos efeitos dos choques externos nas contas do balanço de pagamentos,
argumentam Belluzzo e Carneiro. Por não emitir moeda estrangeira, um país como
o Brasil ficaria sempre sujeito a conviver com o fantasma da vulnerabilidade externa
nos momentos de crise. Portanto, como diz o ditado, mais vale um pássaro na mão
do que dois voando. Ou seja, é melhor manter algum tipo de restrição ao
movimento da divisa estrangeira no caso de ser preciso apertá-lo ou afrouxá-lo,
na situação de bonança. É a típica posição de quem defende a postura
discricionária em oposição a uma atitude mais liberalizante.
Na mesma edição
da "Revista de Economia Política", o mesmo tema é focado no artigo
"Por uma moeda parcialmente conversível: uma crítica a Arida e
Bacha", de autoria dos economistas José Luís Oreiro, Luiz Fernando de
Paula e Guilherme Jonas da Silva. Também criticam a proposta de Pérsio sob a
alegação de que "não existem argumentos de natureza teórica ou empírica
que sustentem a tese de que a plena conversibilidade da conta de capitais
traria consigo uma redução significativa dos prêmios de risco e das taxas de
juros interna e externa".
Temem até que os
efeitos da conversibilidade fossem opostos: elevação do prêmio de risco e das
taxas de juros.
No campo da
discussão econômica, pelo que tudo indica, esse assunto não deve morrer tão
cedo. Sempre levantará polêmica pois a colocação de uma proposta mais liberal
tende sempre a estimular a reação do outro extremo.
Vale notar, só para complicar, que nenhuma das duas correntes leva em consideração aspectos menos mensuráveis mas fartamente perceptíveis que agem no sentido de influenciar o prêmio de risco de um país. Quando o governo toma a decisão de punir arbitrariamente um jornalista, valendo-se do poder de coerção e colocando-se acima da lei e do Judiciário, passa a levantar sérias suspeitas que comprometem sua credibilidade perante o mundo: o risco-país sobe, o investimento estrangeiro escasseia e o valor da moeda nacional é afetado, havendo ou não controle sobre a conta de capital.