Valor
Econômico,
13.10.05
A inconsistência do debate
Maria Clara R. M. do Prado
As evidências são incontestáveis. O dólar
fraco no Brasil não tem atrapalhado o crescimento das exportações. Já se
projeta para a ponta de 2005 receita em torno de US$ 130 bilhões com a venda de
produtos brasileiros no exterior. Isso significa multiplicar por quatro a renda
gerada com exportações em 1990, em torno de pálidos US$ 35 bilhões.
Mais intrigante ainda: as exportações
dispararam a partir de 2002, justo no correr da mais recente rodada de
valorização do real.
Mudou o Brasil? Mudou o mundo?
As tentativas de explicar o que alguns chamam
de paradoxo cambial tomam como referência o paradigma de um modelo de câmbio
fixo, economia fechada, ineficiência produtiva e mercados cativos. Tudo regado
a fartos subsídios para, afinal, garantir a "competitividade" dos
brasileiros em outras plagas. Não há duvida de que a contra-face da política
monetária exageradamente rigorosa é a apreciação cambial do real. Isso vem,
como se sabe, pela famosa arbitragem que atrai para dentro do país parte do
excesso de liqüidez que voltou a circular pelo mundo nos últimos anos.
Essa dicotomia entre juros e câmbio é
estreita e é, mais do que tudo, dominada pelos juros e não pelo câmbio.
Ou seja, a taxa de juros determina a taxa de
câmbio em ambiente de liqüidez frouxa e não o contrário. Para se ter uma noção,
ainda que grosseira, da relação entre as duas, basta lembrar os cálculos de
alguns analistas indicando que cada um ponto de porcentagem de redução da taxa
real de juros implica em uma desvalorização cambial em torno de 3%.
Isso vale não só para os movimentos da conta
de capital, mas também da conta corrente. Ajuda a explicar o chamado paradoxo
cambial. À taxa básica nominal de 19,25% ao ano - mais alta em termos reais
quanto maior for a queda da inflação - torna-se muito conveniente para os
exportadores antecipar as operações de fechamento de câmbio e aplicar
internamente em um fundo de investimento, em reais, que lhe renda no mínimo 1%
ao mês. É sopa no mel, mas não é obviamente tudo.
O intrigante na história é a pequeníssima
participação das exportações brasileiras no comércio mundial. Subiu de 0,8%
para algo em torno de 1,2%. Ou seja, praticamente não saiu do lugar, embora o
peso das exportações no PIB tenha mais do que dobrado nos últimos 10 anos. O
pano de fundo que enfeita o cenário dá conta do crescimento de 20% do comércio
internacional a partir de 2002. Mudou o mundo? Com certeza. E esse é o elemento
que, embora relevante, não tem sido apropriadamente aprofundado no debate, que
teima em atribuir ao câmbio uma importância de variável-chave, determinante do
comportamento das exportações, quando as evidências têm mostrado que a dinâmica
do processo centra-se em outro eixo.
Ignora-se os efeitos da abertura econômica
sobre o fluxo internacional de divisas, que busca maximizar ganhos
independentemente do tipo de operação a lhe dar lastro. Nesse campo, nessa era,
o comércio de soja, de sapatos, de fios de aço, de nafta, de máquinas e até de
abacaxi está intimamente associado às trocas que envolvem a prestação de
serviços na área da logística, do design, da pesquisa, e isso tudo encontra
ressonância nos destinos do capital que roda à procura de um pouso produtivo
rentável. Para entender melhor as correlações que aproximam laranjas de
parafusos, recomenda-se a leitura de um interessante texto divulgado em
setembro através do National Bureau of Economic Research (NBER). É um paper que
procura mostrar os efeitos da globalização - entendida como abertura ao
comércio de bens e liberalização da conta de capital - sobre as ineficiências
tradicionalmente relacionadas às flutuações da taxa de crescimento da economia
e da inflação, considerando o "trade-off" (termo difícil de traduzir,
que pode ser entendido como opção por um objetivo em detrimento de outro) que
as colocam em situações ideais opostas quando a economia é fechada.
"Globalization and Inflation - Output
Tradeoffs" ("Globalização e as Opções de Troca entre Inflação e
Produto") foi escrito pelos economistas Assaf Razin, da Universidade de
Tel Aviv, e Prakash Loungani, do FMI. De sua leitura deduz-se que não faz
sentido considerar as funções de consumo e de produção de uma sociedade
economicamente aberta da mesma forma como eram vistas em uma economia fechada.
Isso tem implicações em todas variáveis que podem afetar o consumo e a
produção, entre as quais juros e câmbio em especial.
Um trecho: "Como se sabe, a economia
tende a especializar-se em produção e a diversificar-se em consumo na medida em
que se abre. Isto significa que a quantidade de variedades produzidas
domesticamente é igual a 'n', menor do que a quantidade de variedades
consumidas domesticamente que é igual a um quando a economia comercializa
abertamente no mercado internacional. Conseqüentemente, a composição de bens na
cesta de consumo e na cesta de produção, que são idênticas em uma economia
fechada, passam a se diferenciar quando há a abertura comercial. Resulta daí
que a correlação entre as flutuações do produto e do consumo, que é igual a um
no caso da economia fechada, cai para abaixo de um quando a economia se abre ao
comércio de bens".
O processo se completa com a abertura da
conta de capital que viabilizaria, a custos praticamente nulos, o acesso dos
domiciliados a operações de financiamento no mercado internacional que
suavizariam o impacto sobre o consumo agregado.
Suas considerações batem direto na questão
inflacionária, indicando que, na atual conjuntura de plena mobilidade de
capital mundo afora, alguns bancos centrais têm sido exageradamente
conservadores. É nesse contexto que deve ser entendida a necessidade de
abertura da conta de capital no Brasil. Seria o passo adicional e natural para
aliviar a pressão sobre a demanda agregada, fazendo com que os preços possam ser
efetivamente estabilizados, independente da âncora da taxa de juros que tem
sustentado a inflação baixa em detrimento da produção, com efeitos sobre o
câmbio.
O verdadeiro debate passa por aí. O propalado
paradoxo, limitado à tentativa de entender o crescimento das exportações no
quadro de um real apreciado, não existe.