A economia em Machado de Assis

O olhar oblíquo do acionista

Organização, prefácio e notas

Gustavo H. B. Franco

Editora Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 2007

(15,6 x 23 cm, 272pp, ilustrado, 2007, R$ 44,00, ISBN: 978-85-378-0044-7)

 

 

Machado de Assis comentarista econômico? Acionista preocupado com dividendos, assembléias e estatutos?  Discutindo fusões bancárias, emissões de moeda e desvalorizações cambiais? Dividido entre as letras de câmbio e as “letras literárias”, entre o deslumbramento e a melancolia com o surto de progresso que vem com a República? Irritado com os impostos e com a inflação? Observador ferino da euforia especulativa e da crise financeira que se seguiu? Como não percebemos que nosso maior escritor tratou de tudo isso, e o fez de forma inigualável? E que todas essas questões afetavam diretamente o seu patrimônio?

“O olhar oblíquo do acionista” é uma coletânea de crônicas de Machado de Assis, 39 dentre as 600 que escreveu, feitas entre 1883 e 1900 e tratando desses temas econômicos que nunca pensamos que pudessem ser objeto da atenção de nosso maior escritor.

É bem sabido que Machado de Assis elevou a crônica a um estágio que não se conhecia, e a tornou um campo de experimentação para as inovações estilísticas que o consagrariam quando aplicadas aos gêneros literários superiores, especialmente o conto e o romance. Foi nas crônicas que produziu quase ininterruptamente ao longo de mais de 40 anos, que Machado desenvolveu a chamada “arte das transições”, um vendaval de associações de imagens, todas pertencentes à rotina do leitor, a aos acontecimentos próximos, buscando a alegoria, a conexão, e a verdadeira inteligência. Sim, pois a etimologia de “inteligência” nos remete ao latim, a combinação de “inter” e “legere”, a capacidade de “interligar”, reunir com intuito de conferir um sentido à soma maior que as partes.

É um privilégio historiográfico que se tenha como cronista de uma época tão rica e tumultuada o nosso maior escritor, um dos cem maiores da história de humanidade, e no esplendor de seu desenvolvimento estilístico e criatividade. O acervo de temas e acontecimentos econômicos que se acumulam nos últimos anos do século XX é extraordinário: as reformas bancárias, a Abolição, o Encilhamento, a crise cambial e bancária. Tudo isso é visto sob a ótica de um cronista possuidor de apólices da dívida pública, um rentista, que se serve da figura do acionista para buscar um ângulo arrevesado de observação, tal como em outros conjuntos de crônicas onde se fez um relojoeiro aposentado descontente com a velocidade com que as coisas se passavam.

As crônicas de Machado de Assis tiveram muitas edições, mas nenhuma antes desta logrou recortar os temas econômicos e ao conjunto propor, ou melhor, deixar que aflorasse naturalmente um enredo, como é possível ver em “O olhar oblíquo do acionista”. Com efeito, o “olhar oblíquo” é uma das marcas mais salientes de Machado, ao mesmo tempo o olhar de Capitu, indecifrável, e o do cronista, jamais restrito à superfície dos acontecimentos. O acionista, por outro lado, é um pequeno mistério da crônica machadiana, há anos à espera de seu deslinde.

Este é o terceiro volume da série patrocinada pela Rio Bravo cujo propósito é de se buscar um ângulo original e inusitado em temas econômicos e financeiros, em autores de indiscutível genialidade e originalidade. Os dois primeiros volumes tiveram, em sucessão, um discurso histórico de Rui Barbosa, e os escritos econômicos de Fernando Pessoa.

 

O ORGANIZADOR

Gustavo H. B. Franco é professor do Departamento de Economia da PUC-Rio desde 1986. Foi Diretor e Presidente do Banco Central do Brasil, entre 1993 e 1999, e um dos mentores do Plano Real. É sócio fundador da Rio Bravo Investimentos e tem vários livros publicados, entre os quais: A Economia em Pessoa, Crônicas da convergência, O desafio brasileiro e O Plano Real e outros ensaios