A economia em Machado de Assis
O olhar oblíquo do acionista
Organização, prefácio e notas
(15,6 x
Machado de Assis
comentarista econômico? Acionista preocupado com dividendos, assembléias e
estatutos? Discutindo fusões bancárias,
emissões de moeda e desvalorizações cambiais? Dividido entre as letras de
câmbio e as “letras literárias”, entre o deslumbramento e a melancolia com o
surto de progresso que vem com a República? Irritado com os impostos e com a
inflação? Observador ferino da euforia especulativa e da crise financeira que
se seguiu? Como não percebemos que nosso maior escritor tratou de tudo isso, e
o fez de forma inigualável? E que todas essas questões afetavam diretamente o
seu patrimônio?
“O olhar oblíquo do
acionista” é uma coletânea de crônicas de Machado de Assis, 39 dentre as 600
que escreveu, feitas entre 1883 e 1900 e tratando
desses temas econômicos que nunca pensamos que pudessem ser objeto da atenção de
nosso maior escritor.
É bem sabido que Machado
de Assis elevou a crônica a um estágio que não se conhecia, e a tornou um campo
de experimentação para as inovações estilísticas que o consagrariam quando
aplicadas aos gêneros literários superiores, especialmente o conto e o romance.
Foi nas crônicas que produziu quase ininterruptamente ao longo de mais de 40
anos, que Machado desenvolveu a chamada “arte das transições”, um vendaval de
associações de imagens, todas pertencentes à rotina do leitor, a aos
acontecimentos próximos, buscando a alegoria, a conexão, e a verdadeira
inteligência. Sim, pois a etimologia de “inteligência” nos remete ao latim, a
combinação de “inter” e “legere”,
a capacidade de “interligar”, reunir com intuito de conferir um sentido à soma
maior que as partes.
É um privilégio
historiográfico que se tenha como cronista de uma época tão rica e tumultuada o
nosso maior escritor, um dos cem maiores da história de humanidade, e no
esplendor de seu desenvolvimento estilístico e criatividade. O acervo de temas
e acontecimentos econômicos que se acumulam nos últimos anos do século XX é
extraordinário: as reformas bancárias, a Abolição, o Encilhamento, a crise
cambial e bancária. Tudo isso é visto sob a ótica de um cronista possuidor de
apólices da dívida pública, um rentista, que se serve
da figura do acionista para buscar um ângulo arrevesado de observação, tal como
em outros conjuntos de crônicas onde se fez um relojoeiro aposentado
descontente com a velocidade com que as coisas se passavam.
As crônicas de
Machado de Assis tiveram muitas edições, mas nenhuma antes desta logrou recortar
os temas econômicos e ao conjunto propor, ou melhor, deixar que aflorasse
naturalmente um enredo, como é possível ver em “O olhar oblíquo do acionista”.
Com efeito, o “olhar oblíquo” é uma das marcas mais salientes de Machado, ao
mesmo tempo o olhar de Capitu, indecifrável, e o do cronista, jamais restrito à
superfície dos acontecimentos. O acionista, por outro lado, é um pequeno
mistério da crônica machadiana, há anos à espera de seu deslinde.
Este é o terceiro
volume da série patrocinada pela Rio Bravo cujo
propósito é de se buscar um ângulo original e inusitado em temas econômicos e financeiros,
em autores de indiscutível genialidade e originalidade. Os dois primeiros
volumes tiveram, em sucessão, um discurso histórico de Rui Barbosa, e os
escritos econômicos de Fernando Pessoa.
O ORGANIZADOR