OESP - Domingo, 7 de
Agosto de 2005
Cadê
o CDES?
Mailson
da Nobrega
A crise política
acelerou a agonia do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da
Presidência da República - CDES. Seu destino deve ser o mesmo do Fome Zero, ou
seja, os desvãos das propostas malsucedidas.
O
CDES foi criado no primeiro dia do governo Lula, que concedeu status de
ministro de Estado ao secretário-executivo do Conselho. Na última reforma
ministerial, o CDES deixou de ter ministro exclusivo. Agora, pertence à nova Secretaria
de Relações Institucionais, que cuida dele e da coordenação política. Esta vai,
naturalmente, ofuscar o CDES, mas um descuido burocrático ainda mantém viva na
Internet a estrutura anterior (http://www.presidencia.gov.br/cdes).
Conforme
se vê do site, a função do CDES é "assessorar o Presidente da República na
formulação de políticas e diretrizes específicas, voltadas para um novo
contrato social, que é a base de sustentação das mudanças propostas pelo
governo Lula". Seu desafio é "articular as diversas representações da
sociedade civil a fim de efetivar as reformas necessárias para alavancar o
crescimento do País. Ouvir a sociedade - por intermédio dos segmentos
corporativos que compõem o conselho - analisar e estudar os caminhos para o
consenso, são as principais tarefas que os conselheiros terão de desenvolver
durante os dois anos de mandato".
As
funções e os desafios do CDES eram simplistas, mas seus criadores pensavam
grande. O conselho cumpriria "o papel de articulador entre governo e
sociedade, para viabilização do processo de Concertação Nacional" (assim
mesmo, com maiúsculas). O termo "concertação" não consta do Aurélio.
Provavelmente deve suas origens à "concertacion" dos Pactos de
Moncloa, que fascinam parte da esquerda e da classe política.
Os
pactos foram fundamentais para a transição da ditadura franquista para a
democracia na Espanha. Nada a ver com o Brasil. Nossa transição já aconteceu e
nunca conteve o risco de guerra civil que justificaram aqueles pactos.
A
primeira concertação incorporava ideais de que ninguém pode discordar. "O
grande desafio de nosso país, hoje, para todos os que amam a democracia e
querem aperfeiçoá-la é promover uma renovação política e social". Depois
dos recentes escândalos, soa irônico invocar a frase, mas o objetivo é mostrar
que as decisões do CDES se assemelhavam a discursos de palanque e a manifestos
de grêmios estudantis.
Muitos
pensavam que estavam no CDES para mudar o Brasil. Outros esperavam que conselho
lhes daria voz para provar que o Banco Central estava equivocado na taxa de
juros. Alguns nutriam a esperança de dobrar o suposto neoliberalismo da equipe
econômica e assim participar de uma histórica retomada do desenvolvimento e da
distribuição de renda. Certamente houve os que, pés no chão, nada aguardavam
dos solenes conclaves, alguns dos quais com a presença do presidente da
República. Cansaram-se e passaram a enviar suplentes.
O
CDES se inspirou em outras experiências. Conforme se pode ver do mesmo endereço
na Internet, conselhos desse tipo surgiram depois da Segunda Guerra em países
da Europa Ocidental. Com o fim do comunismo, eles chegaram também ao leste
europeu. Fora da Europa, a única exceção é a África do Sul.
Acontece
que essas organizações nasceram de circunstâncias históricas e culturais
distintas das nossas. Na Europa, essas mesmas circunstâncias permitem efetiva
representação aos membros do conselho.
Aqui,
é difícil imaginar que um empresário ou líder sindical falasse por seus pares
no CDES.
Se
o governo tivesse estudado um pouco mais o tema antes de se aventurar em uma
empreitada sem razão de ser, veria que esses conselhos não existem nos EUA, no
Canadá ou na América Latina. Concluiria que o Brasil se parece mais com eles do
que com europeus e sul-africanos.
Em
21/3/2004, assinalei neste espaço que "o conselho dificilmente terá o
futuro promissor sonhado pelo governo e pelos seus integrantes. É provável que
o tempo se encarregue de transformá-lo em coisa diferente ou mesmo de
condená-lo ao esquecimento ou à extinção". Parece que isso acontecerá
antes do que eu pensava.
Os
membros do CDES detêm qualidades inequívocas, mas não tinham como contribuir
para efetivamente mudar o Brasil. O debate das idéias é muito importante, mas é
possível realizá-lo com eficácia e menor custo em ambientes mais singelos.