OESP-13.089.2006
Elusivo ´quase-consenso´
Pedro S. Malan
'Ninguém mais hoje acredita que dois mais
dois podem ser cinco desde que haja vontade política.' Esta foi a forma ferina de o ex-ministro Delfim Netto
se referir ao aparente abandono das ilusões voluntaristas que tanto marcaram o
debate econômico e político no Brasil.
O próprio ex-ministro acha que seu 'ninguém
mais' talvez seja um exagero. Mas o que vale notar é que seu
relevante artigo, que merece ser lido com atenção, apresenta pontos
importantes em torno dos quais haveria, na visão do autor, um 'quase-consenso'
(Valor de 1/8).
No mesmo espírito, Gustavo Franco acaba de lançar seu livro Crônicas da Convergência:
ensaios sobre temas já não tão polêmicos, mostrando que, em matéria de
compreensão das complexidades envolvidas na condução da política econômica e
social, o Brasil avançou muito nos últimos anos.
Parte destes avanços se deve ao processo
democrático, a uma imprensa livre e à melhoria da qualidade do debate público.
A mudança entre o discurso pré-2002 e a prática pós-2003 de Lula e de parte do
PT no governo é, em parte, resultado e exemplo claro deste processo.
Mas talvez a razão mais importante do
gradual abandono da retórica da ruptura e das ilusões voluntaristas sobre o
poder de Estado esteja no fato de que o Brasil é hoje uma economia (e uma
sociedade) mais complexa, mais diversificada e mais integrada com o resto do
mundo nas dimensões comercial, financeira, de investimentos, tecnologia,
cultura e informação. Uma sociedade com um importante e diversificado setor
privado, no agronegócio, na indústria e nos serviços.
Estas características hoje impõem restrições e limites a arroubos populistas e
ao poder discricionário dos governos.
Estas mesmas características da economia
brasileira representam uma enorme - e crescente - cobrança sobre o governo, em
termos de sua contribuição para a redução dos fatores de incerteza que hoje
cercam as decisões de investimento privado. Juntamente com nossas ainda
significativas carências sociais - e legítimas demandas a elas associadas -,
este conjunto resulta no desejo, unânime, por crescimento econômico sustentado,
do qual depende a mudança social.
Poder-se-ia imaginar que, em não havendo
controvérsia sobre o objetivo, o debate relevante deveria ser sobre os meios
mais eficazes para alcançá-lo. Ou sobre as formas específicas de consolidar, na
prática, as condições (macro, micro, regulatórias,
institucionais e de reformas) para o crescimento - partindo da situação real do
Brasil de hoje em cada uma destas cinco áreas.
A experiência vem mostrando que isto é mais
difícil do que parece e que há ainda muito por avançar em cada uma das cinco
áreas. Mas há sinais de vida e de possíveis convergências adicionais a serem
construídas. Como foi a gradual formação do consenso sobre a importância de
preservação da inflação sob controle.
Doze anos de inflação baixa e a clara
percepção de seus benefícios para a maioria facilitam a tarefa de mantê-la
assim no longo prazo. Oito anos de efetiva operação dos regimes de metas de
inflação e de câmbio flutuante constituem uma base de experiência para
aperfeiçoamentos operacionais, sem necessidade de mudanças nos regimes, que são
melhores que as alternativas conceituais existentes. É verdade que a discussão
macroeconômica parece dominada pelo binômio juros e câmbio, sobre os quais
todos têm opinião e informação diária. Nossos 'novos-desenvolvimentistas'
se concentram em câmbio e juros reais e na advocacia de um
Estado forte, capaz de regular a economia. Dentre eles, os mais sensatos
têm plena consciência de que não só não haveria consistência em suas propostas
para juros reais e câmbio real, como, também, que seu Estado forte seria um
mero tigre de papel sem o encaminhamento de uma solução estrutural para o ainda
não resolvido problema fiscal brasileiro - agravado com as implicações futuras
das recentes decisões de aumento permanente de gastos públicos.
Em fins de 2005 a área sensata deste
governo propôs um programa, plurianual, de redução
muito gradativa da participação dos gastos primários do governo central como
proporção do PIB, que seria previamente anunciado e formalmente incorporado à
legislação (LDO). A proposta, ao que tudo indica, não encontrou acolhida no
resto do governo.
Pois bem, o próximo governo, qualquer que
seja o resultado das urnas, terá de voltar a ela, ou a uma variante, porque não
é mais possível realizar nenhuma das quatro operações alternativas: aumentar a
carga tributária (pelo contrário), aumentar a dívida pública (pelo contrário),
reduzir investimento público para abrir espaço a gastos correntes do governo
(pelo contrário) ou trazer de volta a inflação como mecanismo de financiamento
do gasto público. É importante, a meu ver, colocar esta questão no contexto do
debate mais amplo sobre o grande objetivo do crescimento. Além das questões
não-macroeconômicas, que são tão importantes quanto as
macro, o tema mais relevante para o debate público sobre crescimento no Brasil
de hoje é a análise cuidadosa da extensão, em que nível e a composição tanto do
gasto público como da carga tributária estão afetando a eficiência,
produtividade e o investimento na economia (como também a pobreza e
distribuição de renda).
Bem sei que estes não são temas fáceis nem
se prestam a discursos de campanha. É muito mais tentador e, aparentemente,
mais simples falar sobre juros e câmbio. Mas os candidatos, inclusive o
presidente atual, que espera ser reeleito, deveriam saber que aqui está o nosso
calcanhar-de-aquiles e que nos próximos quatro anos, pelo menos, este será o
grande desafio a enfrentar. Porém, a julgar pela prática - não pelo discurso -,
ainda estamos distantes de um 'quase-consenso', do tipo dos que foram a duras
penas conseguidos em algumas outras áreas.
Como diria o Aurélio, a convicção ainda é
tão elusiva quanto o 'quase-consenso'.?
Pedro S. Malan, economista, foi ministro da Fazenda no governo FHC E-mail: malan@estadao.com.br