OESP, Domingo, 8 de
outubro de 2006
Prezado Lula, ou recordar é viver
Pedro
S. Malan*
Prezado Lula foi o título de
carta pública que dirigi ao então candidato em abril de 2002 e reproduzida a
seguir (não na íntegra, por razão de espaço), dadas as tentativas de esquecer o
passado recente e distorcer o passado já mais distante.
'Lamento incomodá-lo. É bem provável que você considere o que me leva a
escrever como um assunto menor na ordem maior das coisas ou das suas legítimas
preocupações com seu futuro político. O problema é que o assunto não é menor
para mim. Porque tem a ver com minha honra, com meu nome, legado maior que
deixarei a meus filhos. Algo que vou defender até o fim de meus dias. Espero
que você entenda por quê...
Em longa entrevista publicada pelo Correio Braziliense
em agosto de 2001, você se referiu à minha pessoa nos seguintes termos: '... o ministro Pedro Malan... parece
que tem uma chave sagrada dos cofres públicos, guarda o dinheiro só para ele...
e em época de eleição libera dinheiro para obras de
amigos...'
Bem sei que no mundo da política as pessoas, por vezes, se deixam levar pela
emoção e pela paixão e que nem sempre medem com cuidado o uso e o significado
de suas palavras, principalmente quando atacam pessoalmente supostos
adversários políticos. Com muito boa vontade, talvez a sua entrevista pudesse
ser lida, como sugeriu uma grande admiradora sua, como uma simples metáfora,
destituída de maior significado, própria do calor da hora. Infelizmente, como
fui acusado diretamente, não foi assim que a interpretei.
A entrevista ocupou duas páginas inteiras do jornal. É uma entrevista
importante e merece ser lida por petistas e não-petistas, pelo que revela sobre
você e suas idéias. O jornal a apresentou como a primeira grande entrevista em
que você assumiu, publicamente, a sua quarta candidatura à Presidência...
... em meados de novembro de 2001, antes de se
encerrar o prazo-limite legal de 90 dias após a publicação da acusação, ajuizei
contra você uma interpelação judicial, na 16ª Vara Federal do Distrito Federal,
sem fazer divulgação dessa iniciativa. Na interpelação, reproduzi as suas
próprias palavras, extraídas da entrevista, e pedi que, em juízo, você as
confirmasse, desmentisse, desse as explicações que lhe parecessem necessárias,
ou apresentasse as provas que justificassem as suas declarações a meu respeito.
A carta precatória enviada em dezembro pelo juiz de Brasília à 2ª Vara Federal
de São Bernardo do Campo (SP) foi devolvida com a sua resposta apenas no fim de
fevereiro, pois somente na oitava tentativa o oficial de Justiça conseguiu
citá-lo, e assim mesmo depois de o juiz determinar que o fizesse com dia e hora
marcados...
Lamento, mas a curta resposta à interpelação judicial, assinada por você e por
um advogado pelo qual tenho grande respeito, Márcio Thomaz Bastos, é
absolutamente insatisfatória para mim, e me leva não só a tornar pública agora
a minha indignação, como a considerar a possibilidade de medidas judiciais
cabíveis. A sua resposta apenas defende algo que eu jamais imaginaria
questionar: o direito à crítica como inerente ao debate público. Para mim, é
absolutamente trivial a observação de que homens públicos estão sujeitos,
gostem ou não, a intenso escrutínio e dele não podem reclamar. É dispensável,
portanto, para quem é ministro da Fazenda há sete anos e três meses, período de
plena vigência das liberdades democráticas, a lembrança de que a crítica é
direito assegurado a qualquer cidadão brasileiro, e também a referência óbvia
de que o debate franco e aberto sobre qualquer tema é condição essencial para o
desenvolvimento do processo democrático.
Vamos ser claros, Lula. O que você fez não foi uma crítica política. Apesar de
na última linha de sua resposta à minha interpelação afirmar que 'em nenhum
momento pretendeu atacar a honra do interpelante', o fato é que você o fez. Você
me acusou de um crime. Porque guardar dinheiro público para si, e o liberar
pessoalmente para 'obras de amigos', é crime, Lula. É crime grave. O acusador
tem que ter provas, evidências, e você não as tem, não as tinha e nunca as
terá, porque nunca fiz, não faço e nunca farei tal coisa. E você sabe ou
deveria saber disto.
Não tenho absolutamente nada contra críticas. Ao contrário. Eu próprio as faço
e farei, inclusive quanto ao que considero insustentáveis ambigüidades de seu
discurso e de seu partido. Sou servidor público há mais de 35 anos. Nos últimos
15 anos ocupando posições de responsabilidade: representante do governo
brasileiro nas diretorias executivas do Banco Mundial (Bird)
e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), negociador-chefe da dívida
externa brasileira, presidente do Banco Central e ministro da Fazenda... E
sempre, volto a repetir, sem qualquer projeto político pessoal. Nunca, em
momento algum ao longo de minha carreira, qualquer pessoa acusou-me de crime ou
fez qualquer ofensa à minha honra. Você foi o primeiro - e único. E gostaria
que fosse o último a me acusar de crime grave - sem qualquer evidência.
Posso estar equivocado, mas acredito que a opinião pública está se cansando
desse cipoal de baixarias, agressões pessoais e acusações sem provas. Creio que
a população espera - e merece - um debate público sobre idéias, projetos e
programas viáveis, que possam consolidar os ganhos já alcançados pelo País e
avançar mais no sentido de melhorar as condições de vida da população
brasileira. É com esse espírito que sempre trabalhei, aceitando quaisquer
críticas como normais. É com esse espírito que sempre procurei participar do
debate público...'
Peço perdão ao leitor que até aqui chegou pela longa reprodução de texto antigo
(O Globo, 14/4/2002). Mas tive o privilégio de servir a um governo honrado, com
muitos colegas de integridade e caráter, em nome dos quais creio que me
expresso. E para os quais, definitivamente, não era 'a mesma coisa' de agora, como
pretendem alguns.
*Pedro S. Malan,
economista, foi ministro da Fazenda no governo Fernando Henrique Cardoso
E-mail: malan@estadao.com.br