O GLOBO

13 de agosto de 1995

Livros políticos

Márcio Moreira Alves

 

O livro de Gustavo Franco, diretor do Banco Central, sobre o Plano Real é chatíssimo. Ao mesmo, é uma leitura indispensável. Explico a contradição: a elaboração do Plano Real foi uma das mais importantes aventuras intelectuais da história econômica do Brasil. Pode ser comparada, pela audácia, à criação pelo Marquês de Pombal da Companhia do Grão-Pará e Maranhão, que permitiu a ocupação da Amazônia brasileira. O seu êxito, embora longe de estar consolidado, assemelha-se à política de sustentação do preço interno do café, adotada no início do primeiro Governo Vargas, que permitiu ao Brasil sair mais rapidamente da Grande Recessão que os nossos vizinhos. Finalmente a utilização da massa de conhecimentos sobre hiperinflações compara-se à utilização de dados empíricos sobre a realidade brasileira na elaboração do Plano de Metas de JK.

A transformação do debate teórico em plano de governo foi lenta e cheia de dúvidas e confrontos, envolvendo riscos políticos imensos. O pequeno grupo que participou do debate, inclusive o ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, pagou o preço das decisões com tensão, sofrimento e rupturas. Alguns, descrentes, não agüentaram e pediram demissão.

Ao descrever a estrutura técnica do Plano Real e procurar justificar as decisões tomadas a respeito da sua âncora cambial e da política de juros, Gustavo Franco fornece aos interessados em economia e política um material original e imperdível.

No entanto, não menciona o drama humano nem relata o processo de decisões. Gustavo Franco lança sobre o Plano Real um olhar anti-séptico, como se olhasse a Luiza Brunet com a visão raios X do Super-homem e só visse o esqueleto. Faltam pele, carne e sangue.

O livro-entrevista de Antônio Carlos Magalhães, passando em revista os seus 45 anos de vida pública, é o inverso do livro de Gustavo Franco. Enquanto Franco só se refere a decisões estruturais e macropolíticas, como se as pessoas não existissem, Antônio Carlos fulaniza tudo. Todas as suas referências são pessoais, oferecendo as suas versões sobre fatos e suas opiniões sobre pessoas, como se, desta vez, as idéias não existissem e debates sobre políticas públicas não interessassem. Não se refere a um só autor que o tivesse influenciado, não descreve a sociedade que deseja para o país, e, mais surpreendente, não faz uma única referência aos acontecimentos mundiais que influenciaram o Brasil durante esse quase meio século. Sequer a Guerra Fria, a queda do Muro de Berlim ou a criação do Mercosul são mencionadas. No entanto, apesar do provincianismo, como passatempo, o seu livro é muito melhor que o de Franco.

Alguns dos jornalistas que entrevistaram o senador baiano foram meramente laudatórios. A introdução poderia ser um press-release de seu gabinete. Outros, no entanto, colocaram as perguntas indiscretas que deles eram esperadas. Indagaram sobre o episódio do suicídio de seu genro, sobre a solidariedade a Fernando Collor, sobre a sua briga com Clemente Mariani e os métodos que usou para combatê-lo, sobre como adquiriu o seu patrimônio. Houve até um bate-boca com Miriam Leitão, a propósito dos motivos que o levaram a abandonar o regime militar, que apoiara ao longo da sua existência, bem no seu finalzinho. ACM aceitou esportivamente as indagações e apresentou as suas razões, lançando luz sobre alguns episódios desconhecidos dos tempos da ditadura. No mínimo, ofereceu pistas a serem checadas pelos historiadores.

Uma entrevista coletiva como a de ACM, realizada em apenas dois dias, tem, necessariamente, que ser superficial. E muito diferente do paciente trabalho de coleta da história oral, realizado pelos pesquisadores do CPDOC.

O último volume publicado pelo CPDOC, "Diplomacia em alto-mar", é o depoimento de Vasco a Leitão da Cunha sobre um período crucial da historia diplomática do Brasil e do mundo. E, ainda, a autobiografia de um funcionário tão cioso da dignidade do serviço público que, ministro interino da Justiça, não hesitou em prender o todo-poderoso chefe de polícia da ditadura Vargas, Felinto Muller, que o desrespeitara.

O depoimento de Leitão da Cunha é um livro ao mesmo tempo profundo, veraz, informativo e gostoso de se ler. Beneficia-se, ainda, de primorosas notas dos editores, que formam um conjunto de referências biográficas autônomo e utilíssimo.