O GLOBO - 13/2/2005, pág. A4
MERVAL
PEREIRA
Muito
imposto, pouco serviço
PARIS. Estimativas preliminares do PSDB indicam que, ao contrário do que diz o
governo, a carga tributária bruta global de 2004 subiu para 36,8% do PIB,
compreendendo todos os impostos, contribuições e taxas, inclusive da seguridade
social, das três esferas de governo. Isto equivaleria a um aumento de carga de
1,5 ponto com relação ao ano anterior, quando, pelo mesmo critério, a carga
tributária ficou em 35,2% do PIB.
O governo usa um critério menos abrangente, segundo o qual a carga tributária
no ano passado teria caído para 34,8%. Segundo a oposição, no entanto, em dois
anos, entre 2002 e 2004, o aumento da carga acumulado seria de um ponto do PIB.
A carga tributária estimada para 2004 é recorde histórico, e segundo os
especialistas da oposição, não há uma economia emergente no mundo que arrecade
tanto quanto a brasileira.
A carga já superaria a de países ricos, como EUA e Japão, que estão no patamar
dos 30% do PIB, e se aproxima das mais altas cobradas na Europa. O que mais
impressiona, diz o economista José Roberto Afonso, é o paradoxo de o país que
tem uma das mais altas cargas tributárias do mundo ter também umas das piores
taxas de investimento público do mundo, especialmente em infra-estrutura.
Segundo ele, no quesito custeio, somando pessoal em atividade com compras
normais (tinta, papel, papel higiênico, água, luz, telefone, etc.) — em 2003,
pela primeira vez na história, o tamanho do custeio municipal praticamente se igualou
ao do federal.
“Acho que não há um país no mundo com um governo federal tão pequeno, na hora
de investir, e até de custear. Mas, enorme, monumental, na hora de pagar
benefícios sociais e juros”, diz Afonso. A conclusão do estudo destaca que a
maior parte do aumento da carga tributária não voltou para a economia na forma
de bens e serviços: seja para consumo dos governos visando à produção de
serviços públicos (como saúde e educação, para os quais as administrações
contratam servidores, compram material de custeio etc.); seja para a formação
bruta de capital fixo (para os quais os governos compram máquinas e
equipamentos, contratam ou realizam obras etc.).
“Os recursos adicionais foram destinados, em parte, a custear maiores gastos
com os benefícios sociais, e, na maior parte, para atender ao serviço da dívida
pública”, diz o estudo. Os economistas José Roberto Roberto Afonso e Erika
Amorim Araújo apresentaram esse estudo em seminário da Cepal no final de
janeiro, com toda elite fiscal do FMI, Bird e BID.
Em 1995, mesmo sem computar os juros nas despesas públicas, estas eram maiores
que as receitas, indicando a necessidade de buscar financiamento junto a
terceiros. A inclusão dos juros na análise revelaria uma necessidade de
financiamento ainda maior e, conseqüentemente, a pressão sobre o endividamento.
Em 2003, a situação se inverteu. O maior equilíbrio das contas públicas foi
possível graças ao aumento de carga tributária, que foi apenas parcialmente
absorvido por maiores despesas não-financeiras. Este foi o sentido da elevação
da arrecadação tributária no período considerado, dizem os economistas: elevar
o esforço fiscal de modo a ajustar as receitas às despesas e, com isso,
diminuir as pressões sobre a dívida pública.
A despeito do sucesso aparente desse processo de ajustamento das contas
públicas, a oposição adverte para os efeitos dessa política sobre o resto da
economia, seja na redução da renda nacional pela elevada carga tributária, seja
pela redução dos investimentos públicos e do governo federal. Entre 1995 e
2003, a carga tributária nacional passou de 28,4% para 34% do PIB com um
aumento da ordem de 5,6 pontos percentuais do PIB. Segundo o estudo,
praticamente todo o aumento ocorreu após 1998, quando o país abandonou o regime
de câmbio fixo e adotou uma postura de forte austeridade fiscal.
Desde então, o aumento acumulado da carga supera sete pontos do PIB. Desde
1988, depois de implantado o atual sistema tributário pela nova Constituição, a
carga cresceu mais de 14 pontos do PIB, o que equivale a mais do que tudo
arrecadado por um país como o México. O aumento de carga em 2004 foi
concentrado no governo federal, e explica 70% da arrecadação adicional no país.
Sozinho, o aumento da carga da Cofins explicaria 45% da carga global adicional
de 1,5 ponto do produto.
Há também uma questão política a ser debatida: como a União é a responsável
pela maior parte do aumento de carga através de contribuições não repartidas
com outros governos, a divisão federativa da receita tributária nacional também
revela uma acentuação da tendência centralizadora. Pelo lado da arrecadação
direta, os tributos federais explicaram 68% de todos os tributos cobrados no
país.
Mesmo depois de computadas as repartições constitucionais de impostos, a
distribuição da receita disponível mostra, segundo o estudo, que a participação
relativa federal subiu para cerca de 59% da carga global, percentagem antes só
observada em 1990 e 1994, após a última reforma tributária. O peso relativo dos
estados caiu para 24,6%, sendo a menor participação desde 1987, e o dos
municípios também caiu para 16,5%.
Os governadores e prefeitos, especialmente os da oposição, de posse desses
números, pretendem pressionar o governo federal que, para eles, entra apenas
com o discurso de austeridade fiscal, mas quem faz o dever de casa são os
governadores e prefeitos, o que seria um sintoma claro da crise federativa.