08/01/07
O Globo / Pais
O
poeta e a economia
Merval Pereira
O poeta português Fernando Pessoa tem uma faceta pouco conhecida pelos
brasileiros, o de analista econômico, que agora está sendo revelada pelo livro
“A economia em Pessoa: verbetes contemporâneos”, com escritos raros sobre
economia e administração. A maior parte dos textos foi publicada na “Revista de
Comércio e Contabilidade”, de Lisboa, em 1926, mas são praticamente
desconhecidos, embora já tenham tido uma primeira divulgação no Brasil organizada
pelo jornalista João Alves das Neves. A atual edição, segundo o ex-presidente
do Banco Central
Segundo Franco, “será com ele que a estultice nacional terá que brigar agora,
quando for tratar dos temas do livro”. O livro revela “um ângulo interessante,
quase que totalmente novo, de Fernando Pessoa, e bem antenado com diversas
polêmicas econômicas de nossos dias”. Os “verbetes contemporâneos” tratam de
temas como privatização, globalização, marketing, desregulamentação, que no
livro antecedem os títulos dos artigos de Pessoa, e abrangem 12 textos
reunidos, sendo 11 artigos e uma “entrevista” realizada a partir de uma colagem
de passagens desses mesmos artigos.
Segundo
Na introdução, o ex-presidente do Banco Central destaca que, “por ter obtido o
seu sustento, em grande medida, dos 15 escritórios comerciais onde trabalhou
como empregado e de sua intensa e pouco conhecida atividade como empreendedor”,
Pessoa se dedicava “com entusiasmo e com gosto aos negócios, daí a
extraordinária sabedoria prática que revela nos artigos que escreveu para a
‘Revista de Comércio e Contabilidade’, da qual foi um dos criadores e editores”.
Ao escrever sobre o monopólio estatal dos tabacos, que estava em discussão
naquela ocasião depois de a exploração do tabaco ter sido privatizada para uma
empresa francesa, e estar novamente para ser estatizada,
Pessoa aborda temas que fazem parte da discussão atual sobre privatizações.
O artigo intitulado “Estatização, monopólio e liberdade”, a partir do episódio
dos tabacos, trata da questão de maneira genérica.
Para Pessoa, “a administração do Estado é o pior de todos os sistemas
imagináveis (...), de todas as coisas organizadas, é o Estado, em qualquer
parte ou época, a mais mal organizada de todas”.
No mesmo artigo, Pessoa trata de uma questão muito atual para nós, brasileiros:
a atuação dos sindicatos e dos sindicalistas.
Segundo a análise de Fernando Pessoa, “uma vez constituído o sindicato, passam
a dominar nele não os profissionais mais hábeis e representativos, mas os
indivíduos simplesmente mais aptos e competentes para a vida sindical, isto é,
para a política eleitoral dessas agremiações”.
Segundo
Escrevendo sobre a ampliação das fronteiras do mundo através do comércio,
Fernando Pessoa trata das conseqüências do que hoje chamamos de “globalização”,
com suas repercussões no país de maneira geral e na
cultura em particular. Sem usar o termo multiculturalismo
muito em voga hoje, Pessoa já previa o intercâmbio de influências culturais.
Num outro artigo, em que trata de temas tão diversos quanto atuais, o poeta
português aborda questões como legislação trabalhista “excessivamente
paternalista”, protecionismo de maneira geral e, ao abordar a Lei Seca nos
Estados Unidos, poderia estar debatendo a descriminalização da maconha nos dias
atuais.
Pessoa defende a tese de que o exagero na “rede de proteção social” e a
“proteção à indústria local” pode prejudicar exatamente aqueles que pretende
proteger.
Num texto sobre a “essência do comércio”,
O poeta adverte também sobre a inutilidade de conselhos formados por insiders ou por funcionários públicos na administração de
empresas, e defende a auditoria independente em termos que parecem os dos
folhetos do nosso “Novo Mercado” na Bovespa.
O acadêmico Alberto da Costa e Silva define assim o livro: “Nada poderia ser
mais atual. Neste livro, um poeta escreve sobre economia, e um economista,
sobre o poeta. A menor das surpresas é que o primeiro se revela um arguto
analista econômico, e o segundo, um fino comentador literário”.