Panorama Econômico – O GLOBO
13 de setembro de 2008
O
Brasil comemorou os 200 anos do Ministério da Fazenda com autoridades, ou
ex-ocupantes do cargo, fazendo interpretações sofríveis sobre os fatos
econômicos. Os ministros Guido Mantega e Dilma Rousseff, por exemplo, mostraram-se convencidos de que a
vasta e complexa crise econômica americana é apenas mais uma etapa da briguinha
paroquial entre eles e o pretenso “neoliberalismo”.
O
bicentenário do Ministério da Fazenda foi patético, pelo que houve e pelo que
deixou de haver. Não houve um debate com a profundidade que se esperava de um
país que passou por tantas situações limites, que superou problemas que
pareciam insuperáveis, que construiu uma continuidade em governos diferentes e
que está atravessando com relativa solidez uma crise mundial.
Houve
um festival de declarações que constrangem pelo que revelam. A ex-ministra
Zélia Cardoso de Mello ainda não entendeu que o Plano Collor foi só um
confisco, desastrado, arbitrário e totalmente ineficiente no que se propôs. Dos
planos econômicos fracassados, o Collor foi o que mais lesou a população, mais esqueletos produziu e no qual a inflação voltou mais rápido
aos dois dígitos. A pior maldade e a mais inútil. Ela tenta, ainda, salvar o
Plano Collor com a ajuda da abertura comercial, que foi anunciada em outro momento
e teve outro propósito. Melhor faria se admitisse o fracasso, e mostrasse que,
em outra decisão, o curto governo do qual participou estava absolutamente
certo. A abertura foi, sim, um marco no caminho de acertos do país.
O
ex-ministro Ciro Gomes acha que a Fazenda estragou sua fama de menino prodígio
cearense. Como tem vocação e ambições políticas, faria bem a Ciro Gomes uma
análise mais acurada do que se passou. Ela deveria começar pelos erros que
cometeu depois que ganhou espaço no cenário nacional. Não foi a Fazenda que o
vitimou; foi ele próprio.
O
seminário permitiu a alguns uma curiosa catarse antineoliberal
com sabor novecentista. A estatização dos dois mamutes hipotecários americanos,
a operação de resgate do governo dos EUA, foi assunto. Tinha que ser, porque é
fato relevante. Triste foi a interpretação. O ministro
Guido Mantega elogiou o socorro à Fannie
Mae e à Freddie Mac. “O
aporte do governo americano foi positivo porque esses dois fundos mobilizam
mais de US$ 13 trilhões.” Eles não são fundos. São bancos que atuam no
refinanciamento das hipotecas. US$ 13 trilhões é o PIB americano; os bancos
movimentam US$ 5 trilhões. O ministro Mantega disse
que a intervenção do Tesouro americano foi “pragmatismo responsável”. Na época
do Proer, que fechou e vendeu bancos, puniu os
banqueiros e preservou o dinheiro dos clientes, ele não teve o mesmo
entendimento.
A
ministra Dilma Rousseff considerou que a operação de
resgate mostrou que o “neoliberalismo” nunca valeu para os países ricos. “Em
momento algum os estados nacionais dos países desenvolvidos foram
enfraquecidos. Quando é que o sistema dos países ricos não recorreu para manter
as condições da produção intactas?”.
A
operação é uma enorme contradição com o discurso republicano de menos estado na
economia. Mas o que houve no Brasil nos anos 90 não foi “enfraquecimento do
estado nacional”. O governo privatizou empresas como as siderúrgicas, que nunca
deveriam ter sido estatais; vendeu a Vale, que vai muito bem sem o Estado e
pagando mais impostos que nunca; privatizou a telefonia, o que permitiu uma
expansão extraordinária dos serviços. Tudo, indispensável para garantir a
estabilização da moeda que hoje o atual governo usufrui. O risco de interpretar
errado o que se passa no país alheio é fazer ilações igualmente equivocadas
sobre o que fazer aqui dentro. E perder a riqueza de lições que o episódio
permite.
O
Fed errou quando não viu se formar uma bolha de
crédito gigantesca. O aclamado Alan Greenspan deveria
ter agido preventivamente e não o fez. A fiscalização bancária não percebeu que
os bancos fugiam dos limites de exposição ao risco, através de fundos que
estavam fora da fiscalização. Não é um caso de fortalecimento do estatismo, mas sim uma tentativa desesperada de salvar a
economia dos resultados de uma monumental falha regulatória, do estouro de uma
bolha de crédito, de uma enorme imperícia das autoridades.
Fannie Mae e Freddie
Mac eram seres híbridos; aí está o erro. Eram empresas privadas, mas recebiam
subsídio público, tinham funções públicas de garantidoras do mercado
hipotecário, eram fiscalizadas pelo Congresso. Ou uma coisa ou outra. Elas
nunca deveriam ter sido privatizadas, em primeiro lugar. Por serem
semipúblicas, o governo as obrigou a aumentar
a exposição ao risco para tentar estancar a crise e, assim, elas se afundaram
mais ainda. Por serem semiprivadas, os diretores
querem receber bônus de US$ 24 milhões, apesar de as ações das empresas terem
virado pó. Uma esquisitice completa.
A
crise é uma monumental lição de que erros evitar e de como funciona a
engrenagem da globalização financeira. Uma reflexão madura sobre os fatos
poderia ajudar a Fazenda a evitar uma bolha imobiliária, rejeitar atuação
ambígua na economia e proteger o país dos efeitos secundários da crise que
ainda não terminou.