Os “soviéticos” da economia brasileira – Um documento
asqueroso
Reinaldo Azevedo
Estou entre enojado e escandalizado. Os soviéticos estão
chegando. Os soviéticos já chegaram.
Recebi uma “moção” de apoio a Márcio Pochmann,
o patrulheiro do Ipea (vocês se lembram), assinada
pelo Conselho Regional de Economia do Estado do Rio de Janeiro (Co.R.Econ-RJ),
pelo Sindicato dos Economistas do Estado do Rio de Janeiro (Sindecon-RJ)
e pelo (Centro de Estudos para o Desenvolvimento). Acreditem: essas entidades
- hipotecam integral apoio a Pochmann;
- demonizam os economistas
demitidos do Ipea (a culpa é das vítimas);
- deixam claro que os quatro economistas foram mesmo
“punidos” por não rezarem segundo a cartilha do governo: trata-se de uma
questão ideológica;
- dizem que ainda é pouco e que mais precisa ser feito.
O texto é tão asqueroso no seu oficialismo,
tão estúpido nos conceitos que emite, tão energúmeno na sua gramática moral e
da língua portuguesa, que cheguei a duvidar de que pudesse ser verdadeiro.
Entrei na página do Corecon na Internet. Não
encontrei a tal moção. Tinha um pequeno fiapo de esperança. Talvez fosse um
desses falsos e-mails. “Ninguém seria tão canalha”, cheguei a pensar. “Não é
possível que exista gente que se disponha a exibir o nariz marrom desse jeito”,
duvidei, cheio de esperança. Fiquei com o pé atrás quando vi que os valentes
chamam “site” de “sítio”. Sim, claro, a mesma coisa… Ocorre que, no Brasil, só
opta por “sítio” quem é atacado pelo complexo vira-lata de Policarpo
Quaresma.
Aí cumpri o meu dever. Liguei para o Corecon
— Tel: (21) 2103-0178 ou pelo FAX: (21) 2103-0106 —: “Tenho
aqui uma moção que estaria sendo enviada aos economistas”..”.
Em suma: era tudo verdade. Eles realmente haviam redigido o texto que segue
MOÇÃO
Em reunião de 14 de novembro último o CORECON – RJ, o SINDECON e o CED, aprovaram e recomendaram a ampla divulgação da seguinte moção.
A imprensa vem criticando duramente os recém-nomeados
presidente e diretor do IPEA, MárcioPochmann
e João Sicsú, pelo fato de terem dispensado quatro
pesquisadores da instituição. Tendo sido essa decisão supostamente devida ao
fato de serem os mesmos contrários a política econômica do Governo.
(Vou me abster de comentar os
erros de língua portuguesa e as grosserias de estilo. Alguns dos meus amigos
mais inteligentes são economistas — um já trabalhou para este governo; não digo
o nome nem debaixo de chicote. Mas os que redigiram esta “moção” são
analfabetos.)
Com respeito à questão, o fato a ser inicialmente sublinhado
é que a mudança no comando de instituição de pesquisa oficial (e não acadêmica)
traduz o desejo do Poder Público de dar nova orientação aos trabalhos da
entidade. No caso em análise, a mudança no comando do IPEA traduz a nova
orientação (embora ainda tímida e incompleta) do Presidente Lula no sentido de
melhorar os resultados obtidos pelo Brasil em termos de desenvolvimento.
(Como se vê, há o endosso cego
da política oficial e o que, para mim, corresponde a uma confissão: houve mesmo
expurgo; houve mesmo punição ideológica. Observem que os bravos esperam ainda mudanças.
Eles acham pouco.)
O Programa de Aceleração do Crescimento – PAC, a criação do
Ministério Extraordinário de Ações Estratégicas, com a indicação de Mangabeira Unger para comandá-lo, a nomeação de Guido Mantega para o Ministério da Fazenda e de Luciano Coutinho
para o BNDES, constituem importantes corolários dessa
decisão de imprimir novos rumos à economia brasileira. É, portanto, perfeitamente
natural e necessário que o IPEA, órgão oficial de
apoio à definição de políticas econômicas, seja comandado por dirigentes
afinados com a nova orientação desejada pelo Governo. E esses dirigentes, para
levarem adiante sua tarefa, devem ajustar a equipe técnica do órgão às suas
novas funções.
(Você pode não ter entendido
direito o que vai acima, dadas a pontuação porca, a
sintaxe claudicante, a vírgula entre o sujeito e o predicado etc. Mas é só um
elogio do oficialismo, explicitando que o afastamento
dos quatro pesquisadores faz parte de uma estratégia.)
Mais grave, porém, é a alegação de que a dispensa dos quatro
pesquisadores, cuja capacidade profissional e contribuição científica não se
discute, teria decorrido de serem eles contra a política econômica oficial.
(Observem que “grave”, para os
soviéticos, não é o afastamento dos economistas, mas a leitura que se faz dela.
Querem regular a interpretação da notícia. Em tempo: eles reconhecem a
“capacidade profissional e contribuição científica” dos afastados…)
Ora, o fato incontestável com respeito a esta,
(”Com respeito a esta”??? Cadê o
meu pau-de-arara estilístico?)
é que os economistas brasileiros se
dividem hoje entre os que aceitam, ou rejeitam, a visão
neoliberal do Banco Central que,
presentemente, comanda os destinos econômicos do país. Visão que concede
absoluta prioridade à manutenção dos equilíbrios fundamentais (cambial, fiscal
e monetário) relativamente à necessidade de incremento acelerado do PIB
brasileiro. Com a conseqüência de ter sido o crescimento da economia brasileira
muito inferior ao de países em condições bem menos favoráveis que as nossas
para o desenvolvimento econômico.
( O que essa gramática símia acima está dizendo é que o
reconhecido equilíbrio cambial, fiscal e monetário impede o Brasil de crescer
mais. Logo, para os valentes do Corecon (esta sigla
com nome de remédio anticaspa), para crescer mais, é
preciso provocar um desequilíbrio dos fundamentos… Quem sabe uma gastança ainda maior, quem sabe uma inflação maior, quem
sabe a centralização do câmbio… Olhem: também tenho críticas à política econômica.
Já as fiz aqui. Mas o que vai acima é um desserviço prestado àqueles que possam
ter reservas técnicas à política do Banco Central. Se eu fosse Henrique
Meirelles, adoraria ter críticos energúmenos como estes. Ademais, quem nomeia o
presidente do BC é Luiz Inácio Lula da Silva, não Fábio Giambiagi.)
Com base nesse critério, o que se pode afirmar é não terem
os quatro economistas desligados do IPEA jamais se colocado firmemente (o que possivelmente seria sua obrigação) contra o
conservadorismo alienante do Banco Central traduzido, entre outros fatos, nos
altíssimos juros, na sobrevalorização do real e na recusa em intervir na livre
movimentação do capital estrangeiro especulativo.
(”Obrigação” por quê? Quer dizer
que eles são proibidos de estar lotados num órgão do estado e, eventualmente,
concordar com a política monetária? O que vai acima é a admissão tácita de que
o Ipea pretende ser uma frente avançada de combate à
política do Banco Central.)
Quanto à posição dos novos dirigentes do IPEA é suficiente
referirmo-nos à dois livros recentes de autoria e
co-autoria de João Sicsú. Neles vamos encontrar três
críticas, baseadas em impecáveis argumentações científicas, quais sejam: a) ao
uso, para manter a inflação sob controle, de altíssimos juros, que paralisam a
economia, e são desnecessários por existirem instrumentos alternativos,
igualmente eficazes; b) a sobrevalorização do real, que está conduzindo a
economia brasileira a indesejável especialização em “commodities” agrícolas e
industriais e c) a liberdade, e até encorajamento, concedidos ao capital
especulativo estrangeiro, o que coloca o Brasil diante do risco permanente de
crises cambiais. Com respeito à taxa de câmbio, Sicsú
classifica como irresponsável a aceitação de qualquer relação real/dólar
inferior a 2,8.
( Como a gente vê, Sicsú,
sozinho, descobriu o que é bom para o Brasil. Agora dividindo o comando do Ipea com Márcio Pochmann, impõe a
linha justa. Seu livro não é mais uma das leituras possíveis da economia
brasileira: é uma cartilha.)
Ou seja, em termos de posição a favor ou contra a política
econômica oficial, é a nova direção do IPEA, e não os quatro pesquisadores
dispensados, que deve ser considerada contrária à política econômica oficial,
comandada pelo Banco Central.
( Então deveria ser demitida segundo os mesmos critérios
que levam Pochmann a afastar os quatro economistas
dos quais diverge. Eis a lógica dos “economistas” que pretendem substituir os “neoliberais”.
Deus me livre! Tentariam nos convencer a tomar sorvete com a testa.)
É, finalmente, necessário lembrar que Márcio Pochmann e João Sicsú são
unanimemente apontados como desenvolvimentistas e, portanto, visceralmente
contrários a uma política econômica que já levou o país à quase três décadas de
semi-estagnação.
(O problema dessa
gente começa na estrutura binária: basta ver como gosta de pôr crase onde não precisa
e de tirar de onde precisa. “Três
décadas de semi-estagnação” por causa da política econômica, que eles chamam
“neoliberal”??? Então vamos ver. Teria sido o “neoliberalismo” o responsável,
entre outras coisas:
- pela moratória da dívida
externa, com Dílson Funaro (neoliberais, vocês sabem, gostam de calote…);
- pelo congelamento de preços do
Plano Cruzado (neoliberais, vocês, sabem, odeiam o mercado…);
- pelo câmbio fixo do Plano Real
(vocês sabem: neoliberais não acreditam em flutuações de mercado…).
Trata-se de asneira ditada por
um misto evidente de burrice com ideologia. Depois reclamam da minha má vontade
com sindicalistas e afins, essa gente que se junta em associações profissionais
para defender “usdireitcho da catchiguria”.
Se for trabalhador pobre, vá lá… Mas por que alguém precisa de um sindicato de
economistas? Economista que presta sabe se defender sozinho, não é mesmo? )
O CORECON-RJ, o SINDECON e o CED desejam e esperam que o
IPEA, sob nova direção, volte a desempenhar sua tarefa básica, por muito tempo
esquecida, de comandar definição de estratégia capaz de recolocar o país na
trilha do crescimento acelerado.
Assinaturas:
Conselho Regional de
Economia do Estado do Rio de Janeiro – Co.R.Econ-RJ
Sindicato dos
Economistas do Estado do Rio de Janeiro
Centro de Estudos
para o Desenvolvimento
(É isso aí. Assinem essa impostura. Que o documento sirva como prova
da indigência técnica e política dessa gente.
Ah, sim: os valentes acima
elegeram Márcio Pochmann o “economista do ano”. )