Sobre Moeda,
liberdade, privilégio e o atraso institucional brasileiro
Palestra
proferida em painel sobre Liberdade Econômica por ocasião de evento de
lançamento do IERN (Instituto de Estudos da Realidade Nacional). Rio de
Janeiro, 17 de março de 2005.
Gostaria de
orientar esta fala do geral para o específico, das Grandes Narrativas tratadas
com competência pelos outros palestrantes, para alguns temas contemporâneos,
pertencentes ao noticiário e aos debates em andamento em torno do Banco Central.
Em boa medida,
a introdução de mais liberdade e de meritocracia, numa economia onde estes
valores sempre foram secundários, tem sido o grande tema subjacente aos
esforços de políticas públicas dos últimos anos que passamos a designar por
“reformas”.
Todas as “reformas”
dos últimos anos têm em comum, além da controvérsia e do gás lacrimogêneo, o
fato de pretenderem destruir alguma forma de privilégio concedido a pessoas supostamente
especiais, vale dizer, destruir alguma forma de intervenção do estado no
domínio econômico que gerou e gera privilégio a poucos em detrimento de muitos
que, às vezes, nem sabem que as benesses existem. E mais: com muita freqüência,
a destruição de um privilégio possivelmente vital para uma minoria, trará um
benefício tão difuso e diluído para as maiorias que elas sequer o perceberão e
por não o sentirem, se tornam paradoxal, mas compreensivelmente indiferentes às
reformas feitas em seu nome.
Esse é um dos
problemas mais sérios para quem está envolvido no esforço de reformas, um
problema que se traduz na solidão, principalmente para os que estão em
Brasília, onde as minorias fixaram residência, e o povo raramente comparece.
São as conhecidas agruras da capital distante.
Para que esta
definição genérica de “reforma” e sua problemática, não fiquem excessivamente abstratas,
eu queria utilizar estes conceitos para examinar um terreno que é o da minha
experiência no serviço público, e também, em alguma medida, a de meus
companheiros neste painel – Armínio Fraga, Marcos Lisboa e Roberto Fendt; queria
tratar do extraordinário empreendimento que foi, e continua sendo, a (re)
construção da moeda, em especial das instituições que definem a moeda nacional.
A despeito de
ser um dos mais importantes de nossos símbolos nacionais, a moeda brasileira, durante
muitos anos, foi deturpada e colocada a serviço da criação de privilégios para
poucos, por variados mecanismos e motivos, ou seja, foi usada de forma abusiva
pelo Estado, em grande medida por que o Brasil não dispunha de Banco Central,
que em qualquer parte, é uma instituição cujo propósito central é justamente o da
defesa do cidadão contra os abusos do Estado através da moeda.
Para
desenvolver adequadamente esta tese, vale recuar no tempo, para uma época em
que a moeda deixou de ser uma dádiva da natureza, o ouro que saía do leito dos
rios e que a Mãe Natureza nos legava em quantidades justas e certas em certos
lugares do planeta, e que passou a ser uma coisa diferente, um pedaço de papel,
uma mera convenção, uma criatura da lei. Essa transformação ocorreu no Brasil
precisamente em 1933 com o Decreto-Lei 23.501/33, que fez aqui o que muitos
países estavam fazendo: o abandono definitivo da paridade legal em ouro da
moeda nacional (do chamado “padrão-ouro), da “cláusula ouro” (ou a liberdade
para que brasileiros pudessem estipular obrigações em outra moeda), e a criação
do papel moeda de curso forcado, um pedaço de papel que estávamos todos obrigados
a aceitar, por força de lei, para liquidar obrigações.
Por variadas
razões que não vale aqui elaborar, não era mais possível adotar a Natureza como
a métrica da política monetária. Nem aqui, nem no plano global. Apenas por um
acidente a quantidade de ouro que existe na Terra seria suprida na exata
quantidade necessária para que atividade econômica no planeta girasse numa
velocidade adequada. Em algum momento, isto teria que acontecer, o “padrão-ouro”
teria de ser abandonado.
Todavia, em
muitos países onde este processo teve lugar, e o papel moeda de curso forçado tornou-se
a regra e não mais a exceção, cresceu a preocupação com o imenso poder que os
Estados passariam a dispor, na medida em que a mera pintura de um pedaço de
papel representava a criação de poder de compra, um “mágico poder” que poderia
ser usado para o Bem, mas também para o Mal. Na ausência dos limites dados pela
Natureza, os homens precisavam pensar em instituições com o intuito de
determinar ou equilibrar, constranger os imensos poderes que os Estado
Nacionais passavam a dispor com o advento do papel moeda de curso forçado.
Com efeito, a
historia da moeda fiduciária no Brasil tem um capítulo muito especial a partir
de 1933, quando o Estado descobre que fazer pedaços de papel é muito fácil, e
que o valor desses papeis é infinitamente maior que o custo do papel e da
pintura, e que a tentação de abusar desta “mágica” é muito forte, pois muitas
vezes o Estado, de boa fé, vislumbra muitas boas causas que gostaria de apoiar,
empreender, muitas carências a suprir, problemas a resolver, apenas fabricando
papel pintado.
Não apenas aqui,
mas em muitos países, e não apenas neste momento, mas durante pelo menos os
dois séculos anteriores, incontáveis soberanos perceberam o potencial
fomentador que existia em fabricar papel, e muitos se excederam e criaram
muitos problemas para seus súditos.
A historia da descoberta
moeda fiduciária sempre estará associada a desastres dos mais variados tipos em
todos os países que se conhece, e o nosso não é exceção. Contudo, quando a
maior parte dos países do mundo ocidental fez a transição da moeda-ouro para a
moeda-papel, criaram-se ou se fortaleceram, simultaneamente, os bancos
centrais, ou seja, instituições destinadas a constranger o poder do Estado de
usar a moeda fiduciária para o Mal.
Mas não aqui.
No Brasil de
1933, na plenitude da era Vargas, ao invés de criarmos um banco central, e
adotarmos instituições assemelhadas às do resto do mundo, nós estatizamos e
fortalecemos o Banco do Brasil, cuja missão era diferente daquela de um banco central,
e buscamos caminhos próprios. Na mesma fornada de decretos de 1933, nós fizemos
a Lei da Usura com o intuito de fazer o que os economistas modernamente chamam
de “repressão financeira”, ou seja, restringir a atividade bancária e
praticamente reservar ao Estado a capacidade de fazer crédito, que, como se
sabe, é uma forma de subsidiária de moeda. Portanto, estávamos aí tratando de fortalecer
o domínio do Estado sobre a moeda, o que apenas se via reforçado pela
implantação do paradigma de controles cambias, também por um Decreto-Lei deste
mesmo ano de 1933, o de número 23.238.
E assim, nosso
sistema monetário passou a ter como pilares os controles cambiais, o papel
moeda de curso forcado, e a lei da usura, vale dizer, a “repressão financeira”.
Neste sistema, o criador de moeda era o Tesouro, ou o Banco do Brasil cuja
agenda nada tinha que ver com prevenir os abusos do Estado ou proteger o poder
de compra do cidadão. Com efeito, o Banco do Brasil foi posto a serviço de uma outra
idéia, a de fazer o desenvolvimento brasileiro, e com este formato
institucional, foi como se tivéssemos criado
a contradição entre estabilidade e desenvolvimento, uma contradição que o
futuro mostraria que ou não existia ou não era tão claro quanto se imaginava.
Mas o fato é que não criamos um banco central quando toda a América Latina o
fez ali pelos anos 20 ou 30, e ao fortalecer o Banco do Brasil, suprimimos os “checks and balances” (pesos e contrapesos)
que devíamos ter criado no momento da adoção do curso forçado. Éramos uma
ditadura, talvez tenhamos aí uma pista para uma explicação.
Apenas em 1944,
obrigados pela ratificação do Tratado de Bretton Woods no Congresso, e
possivelmente pelo alvorecer da Democracia, é que fizemos uma lei na qual se
inscrevia o compromisso de se criar um banco central. Era criada a SUMOC (a
Superintendência da Moeda e do Crédito), uma superintendência dentro do Banco
do Brasil que prepararia a criação do Banco Central do Brasil. Muitos anos se
passaram sem que nada acontecesse; afinal, o Banco do Brasil foi sempre o maior
inimigo do Banco Central. E em pelo menos uma ocasião o superintendente da
SUMOC também ocupava a presidência do BNDES. Pelo menos duas dúzias de projetos
de lei sobre a criação de um Banco Central foram discutidos no Congresso, mas
nenhum deles prosperou, e não há dúvida que o Banco do Brasil contribuiu enormemente
para que nenhum desses projetos tivesse sucesso.
Apenas em 1965,
com a ditadura militar, veio a Lei 4595 que criou o Banco Central do Brasil,
rompendo um longo impasse, mas ao custo de diversas concessões. O Banco Central
aí criado era ainda subordinado ao Banco do Brasil, pois este era independente
para executar a política de crédito que bem entendesse, e com fundos do Banco
Central. A eliminação desta distorção só viria bem mais tarde, em 1986, quando
os laços seriam rompidos entre o Banco do Brasil e o Banco Central. Era o fim
da chamada “conta movimento”, um evento que enfrentou liminares e mesmo uma
ameaça de greve de funcionários do Banco do Brasil.
Certo seria
dizer que apenas em 1986 nós passamos a ter um Banco Central de verdade, 14
anos antes do fim do século XX. É um escândalo que a instituição destinada a
defender o cidadão dos abusos praticados pelo Estado através da moeda, e que se
disseminou pelo planeta no século anterior à crise dos anos 1930, só tenha sido
mais firmemente estabelecida no Brasil a 14 anos do fim do século XX. E o
absurdo podia ser levado ainda mais adiante, pois continuaram funcionando
bancos federais e estaduais que mesmo sem a conta movimento funcionaram mais ou
menos como se ela continuasse existindo. Mais tarde em 1996, depois do Plano Real,
e com as modificações feitas no tratamento que o Banco Central dava a bancos
federais e estaduais (notadamente a proibição de concessão de empréstimos aos
controladores, que vigorava em lei penal para bancos privados) é que nós
passamos a ter um Banco Central mais próximo dos paradigmas internacionais.
Quase terminamos o século XX sem um banco central digno desta denominação, para
não falar de uma inflação que superava os 4.000% anuais às vésperas do Plano
Real.
É curioso, mas nada
paradoxal que a este fracasso institucional brasileiro corresponda um outro
fenômeno, um aparente “sucesso” representado pela extraordinária riqueza da produção
legislativa e jurisprudencial brasileira sobre correção monetária. Era como se
a inflação fosse um fato inevitável da vida, e que a proteção do cidadão não
coubesse a uma instituição que impedisse e combatesse a inflação, mas ao Estado
que, seletivamente, e seguindo a
lógica própria da criação da criação de privilégios, protegesse determinado tipo
de agentes e transações dos danos causados pela inflação. A correção monetária consistia em conceder seletivamente o privilegio
da moeda estável. Como isso devesse caber a poucos e escolhidos, aqueles
essenciais e mais importantes, não a todos.
Na ausência de
um banco central atuante, a moeda estável passou à categoria de privilégio para
poucos, um absurdo que, com o tempo, e na medida em que o Brasil vai se tornando
uma democracia de verdade em meados dos 80, se torna cada vez mais difícil de
ser sustentado. Na plenitude democrática, se torna impossível evitar que cada
pessoa desta nação tenha direito à correção monetária, vale dizer, o direito a
reclamar o roubo, a subtração do poder de compra da sua remuneração, do seu
patrimônio feito pelo Estado através do abuso na emissão de moeda. E assim, com
a disseminação da correção monetária como uma espécie de substituto inferior da
estabilidade monetária, criamos uma espécie de impasse: o Estado viu-se privado
da coleta do chamado “imposto inflacionário”, ou seja, ia perdendo a capacidade
de auferir “receitas” decorrentes da emissão de moeda, e desta forma ao tentar
emitir com mais velocidade do que as pessoas eram capazes de se livrar do
dinheiro, sobreveio o raro fenômeno da hiperinflação.
O Plano Real teve
como uma de suas preocupações centrais a de avançar no terreno das instituições
monetárias de modo a recuperar o atraso histórico acima descrito, e assim
evitar que o desastre que nós experimentamos até aquele momento viesse a se
repetir. Não se modificou substancialmente a natureza de nossas instituições
monetárias, exceto talvez pela importantíssima mudança de composição operada no
CMN (Conselho Monetário Nacional), que ficou reduzido a três membros apenas. Era
uma mudança importantíssima no pano conceitual e também na prática. Tratava-se
de retirar “regulados”, bancos federais primordialmente, mas também de
representantes do stor privado, entre os quais o presidente da FEBRABAN, de
dentro do principal corpo regulador do sistema financeiro.
Não se conseguiu
avançar mais em razão das restrições impostas pela interpretação dada pelo STF
( Supremo Tribunal Federal) ao Artigo 192 da nossa Lei Maior, segundo a qual
todas as matérias pertinentes ao sistema financeiro eram de Lei Complementar e
deveriam ser regulamentadas por uma única lei complementar. Teria que ficar
para adiante a transferência para o Banco Central da competência do CMN para
formular a política monetária. Mas em 1994 tratava-se de acelerar um processo
que vinha se desenrolando de forma extraordinariamente lenta, e uma
oportunidade histórica de fazer as coisas andarem mais rápido. Na exata medida em
que o nosso Banco Central começa a trabalhar como seus co-irmãos de outras
partes do mundo, ou seja, quando adotamos os 25 Princípios da Basiléia, por
exemplo, ou estendemos a supervisão bancária para bancos estaduais e federais,
e quando recriamos a capacidade de o Banco Central fazer política monetária,
estávamos transformando a economia e destruindo uma enorme quantidade de
privilégios construída em torno da enorme indústria de iniqüidade que foi a
inflação.
Na verdade,
nada poderia ser mais eficaz que a inflação como instrumento de propagar e
multiplicar privilégios e acentuar desigualdades que parecem este país desde o
seu nascedouro. Com efeito, a inflação está na raiz da tragédia distributiva
que nós vivemos hoje, pois nada mais é que um imposto instituído sem
representação, sem rito legislativo, sem legitimidade, e que, pior ainda, incide
primordialmente sobre o pobre, o ultimo a receber o privilégio da correção
monetária. O pobre, não por outro motivo, seria o primeiro a aplaudir a
estabilidade de preços, mesmo sem atinar completamente para o fato de que o
beneficio representado pela estabilidade de preço é criado por uma instituição
que no dia a dia é freqüentemente apresentada como maligna, ou a serviço dos
bancos. Para muitos o Banco Central é uma instituição opaca, que sobe os juros,
que faz “maldades” aos participantes do mercado, e que defende os bancos (a
solidez do sistema bancário).
Um Banco
Central ativo e zeloso do cumprimento de sua missão gera benefícios difusos,
principalmente na forma da estabilidade do poder de compra da moeda, que
dificilmente se tornam o objeto de grupos de pressão ou parte de programas
políticos. Os beneficiados deste trabalho, aqueles que sofriam com a
hiperinflação, geralmente não se mobilizam, não se organizam, não fazem
institutos, colóquios, partidos, não vão a Brasília, não chateiam os políticos,
não fazem passeata na porta de lugar nenhum porque sequer se dão conta do
beneficio trazido por esta extraordinária reforma representada pela
estabilização. Tal como se dá com a abertura, com a privatização, e com outras
tantas reformas que destroem privilégios de poucos em benefício de muitos, os
beneficiados não se mobilizam para apoiar as reformas. Na maior parte dos casos
não percebem os benefícios, pois estão muito diluídos e, portanto, precisam ser
informados do que se passa. E curiosamente, às vezes reagem muito mais em
função da descoberta de um privilégio descabido que propriamente do benefício
que derivam.
Por isso tudo estou aqui para apoiar a
criação do Instituto de Estudos da Realidade Nacional, pois há muito que fazer
no sentido de se aumentar a consciência e a mobilização de interesses difusos
em torno de causas principistas, de reformas a favor de maiorias e contra
privilégios que corroem as perspectivas econômicas deste país há tantos anos.
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Pergunta do público: eu
queria saber dos senhores que estão na mesa, principalmente do senhor Gustavo
Franco que dissertou sobre isso, se vocês acreditam que a autonomia do Banco
Central possa ser uma ferramenta útil e valida contra a intervenção
governamental na política econômica?
Resposta: Tomando emprestada uma expressão usada pelo Secretário Marcos Lisboa, temos
aqui um falso debate. O assunto já foi resolvido na maior parte do mundo, onde
os bancos centrais têm autonomia e mais que isso, os ordenamentos jurídicos nos
quais eles se inserem, reconhecem implicitamente a necessidade do Banco Central
como instituição que equilibra o poder que o Estado detém de fabricar papel
pintado e com isso tributar as pessoas sem que elas votem pelo imposto
representado pela inflação. É claro que esta instituição precisa ter autonomia,
precisa ser forte e não há dúvida que é um defeito da nossa ordem jurídica e econômica
que o nosso Banco Central não tenha sido construído e funcionado desta forma anos
atrás. Possivelmente, se fosse como deve ser há 50 anos atrás, não saberia
dizer se o nosso crescimento econômico teria sido maior, mas seguramente teria
sido menos inflacionário e produtor de desigualdade. Eu acho que estamos 50
anos atrasados nesse campo.
Pergunta do público: eu
queria sobre o desemprego, o que os senhores que estão na mesa, tem a dizer
sobre o desemprego e sobre os nossos problemas sociais?
Resposta: Sua pergunta me lembrou um episódio interessante ocorrido quando fui ao
Senado Federal, à Comissão de Assuntos Econômicos no dia anterior à minha
sabatina, para ser aprovado a ocupar o cargo do Presidente do Banco Central. Na
saída, me confundi no caminho do estacionamento e os fotógrafos que me
acompanhavam arrumaram um menino de rua para posar ao meu lado com a mãozinha,
assim, estendida, pedindo esmola. A foto saiu em vários jornais, e produziu
muitas “charges”. No dia seguinte, na sabatina, o senador Eduardo Suplicy
resolve me fazer uma pergunta a respeito desse assunto: "Vossa Senhoria
que quer ser presidente do Banco Central, o que vossa senhoria pretende fazer no
plano da política social pra resolver esse problema dos meninos de rua; nem
esmola vossa senhoria deu...". Vejam que primor em matéria de
patrulhamento. Ou, quem sabe, de sentimento de culpa. Eu respondi ao senador o que
lhe respondo agora: "O Banco Central não faz política social, e se fizer estará
muito errado, porque não é sua função. Na verdade, a melhor política social que
o Banco Central faz, e ela é muito boa, é defender a moeda. Essencialmente
porque gente bem intencionada que faz política social com fabricação de
dinheiro, ou seja, financiada pela inflação, o que faz, na verdade, é tirar de
um pobre via inflação para dar a outro, amiguinho, clientela, de uma estrutura
de política social freqüentemente viciada. E além do mais, essa transferência
tem um custo administrativo relevante e sem sentido. Então pelo simples fato de
o Banco Central evitar que se faça política social com dinheiro que não existe
já está por si só fazendo excelente política social que é evitar que pobreza
seja recriada. Pobreza esta que a política social pretende extinguir”.
Pergunta do público: Boa
noite à mesa, eu gostaria de fazer uma pergunta ao senhor Gustavo Franco. Na
primeira palestra do professor Roberto Fendt ele terminou brilhantemente com
uma metáfora, um pequeno exemplo sobre a importância da definição de
propriedade privada, ou seja, hoje no Brasil as vacas e as galinhas não estão
em risco de extinção porque claramente se tem a consciência de quem é o dono, o
que não ocorre nas questões de meio ambiente, que não se sabe quem é o dono.
Então levantou em seguida a questão de um Estado regulador forte, com
instituições fortes, que sejam realmente capazes de promover a saúde de uma
economia. Aí eu pergunto o seguinte: pela experiência que o senhor teve dentro
dos meandros do poder, principalmente numa instituição que hoje ela está em
debate como foi levantada a questão da autonomia do Banco Central, a questão da
defesa da moeda, a questão do Banco Central como elemento que venha a promover
a equidade através da defesa da moeda. Quais são os principais desafios que o
senhor consegue pontuar pra que essa missão seja cumprida? Para que exatamente
esse estado regulador possa deixar claramente a questão da propriedade privada,
o direito a ela, e a sua correta distribuição? Seria esta a minha pergunta.
Resposta: Bom, pra não ser repetitivo, eu queria dizer que o assunto da
propriedade privada é muito pertinente à integridade da moeda que é parte da
missão do Banco Central, porque propriedade não é apenas uma escritura ou
registro de que tal coisa lhe pertence, mas é também a integridade do seu
patrimônio, o respeito aos direitos patrimoniais, e aos contratos que os
amparam. Ao proteger o poder de compra da moeda o Banco Central resguarda um
direito que você tem, ou evita que este direito lhe seja subtraído ou diminuído
de alguma forma que você não entende, ou é exterior ao seu contrato. Portanto,
a noção de direito de propriedade compreende, inclusive, a integridade da
moeda. Se você tem dinheiro guardado debaixo do seu colchão, é preciso que ele
não seja “retirado” por alguém, por uma “mão invisível”, uma “mão esquerda”
invisível (a direita é do Smith, a da esquerda é da inflação). O Banco Central
é parte de uma estrutura institucional e contratual destinada a preservar a
propriedade, o dinheiro se confunde com a propriedade pois é veículo de sua
transferência. Não dá pra falar de direitos de propriedade a sério numa
sociedade com 20% de inflação ao mês, onde os patrimônios acumulados ao longo
de uma vida se dissolvem de uma semana para outra. Portanto está obviamente
intrínseca à missão do Banco Central proteger os direitos de propriedade.