FSP, 13.11.05
LUÍS
NASSIF
O financista Rui Barbosa
Em artigo no "Estado de S. Paulo" de sexta-feira passada, o
jurista Paulo Brossard tenta rebater avaliações que fiz sobre Rui Barbosa na
coluna "O brasileiro do século". É um prazer debater com uma pessoa
com o conhecimento jurídico e o nível intelectual do ex-senador.
Brossard anota duas incorreções factuais na minha coluna: troquei
inadvertidamente o nome do Barão do Rio Branco pelo Barão de Mauá, em um
episódio de missão diplomática. E atribuí erroneamente o controle do Banco
Nacional ao conselheiro Saraiva, e não ao conde de Figueiredo. Esses dois
pontos não alteram a essência de minha argumentação.
Na coluna, analisava as responsabilidades de Rui no processo conhecido como
"o encilhamento" -grande movimento especulativo com ações, no período
em que ele foi ministro da Fazenda de Deodoro.
O estopim do processo foram benefícios concedidos por Rui a alguns bancos
privados, em especial ao Banco de Crédito Real do Brasil, do conselheiro
Francisco de Paula Mayrink.
É importante notar que, além de maior jurista de seu tempo, Rui tinha
conhecimento econômico surpreendentemente, conforme se pode conferir no
documento "Organização das Finanças Republicanas", apresentado em
novembro de 1890 no Congresso Nacional. Não apenas dominava as principais
teorias econômicas como tinha um conhecimento minucioso dos principais aspectos
institucionais da economia e do federalismo norte-americano.
As justificativas que o levaram a estimular a expansão monetária de 1890 tinham
fundamento teórico. Sustentava ele que não se pode avaliar a política monetária
meramente por meio do montante de dinheiro em circulação -visto que parte dele
ficava empoçado. Havia a necessidade, então, de injetar na economia moeda que
circulasse.
Na época, as emissões monetárias obedeciam ao padrão-ouro -só se podia emitir
tendo o lastro correspondente de ouro. Rui enfrentou essa ortodoxia e autorizou
a emissão lastreada em títulos públicos, com o objetivo de financiar a produção
e ajudar a esterilizar dívida pública.
Essa posição teórica granjeou-lhe inúmeros admiradores ao longo da história,
entre os quais Celso Furtado, para quem a especulação do
"encilhamento" era um bicho à parte, sem relação com a política
econômica de Rui.
Além das atas do ministério Deodoro, e de jornais da época, duas obras recentes
são relevantes, para reavaliar o papel de Rui Barbosa no período: "O Encilhamento,
Anatomia de uma Bolha Brasileira", de Ney Carvalho (ex-presidente da Bolsa
de Valores do Rio de Janeiro), e "A Crise Financeira da Abolição", do
brasilianista John Schultz, com doutorado em história por Princenton e
experiência em bancos internacionais.
O livro de Carvalho é importante por, pela primeira vez, esmiuçar as
ferramentas financeiras utilizadas no "encilhamento"; o de Schultz,
por avançar de forma consistente na identidade dos capitais estrangeiros no
país, a maior parte dos quais capital brasileiro clandestino.
Juntando as peças, e outras obras do período, conclui-se que:
1) O principal fator de desgaste de Rui foi o favorecimento escancarado ao
banco do conselheiro Mayrink.
2) O principal golpe do "encilhamento" consistia em lançar uma companhia
com subscrição de apenas 10% do capital, comprometendo-se a integralizar o
capital posteriormente. Captado o dinheiro do mercado, a companhia simplesmente
evaporava, deixando investidores órfãos.
3) Era impossível a uma pessoa com o nível de conhecimento de Rui Barbosa não
identificar o movimento fraudulento e não saber quais as medidas reguladoras
necessárias para abortá-lo. Essas medidas, aliás, eram marteladas diariamente
por jornais da época.
4) Um dos empresários que mais recorreu a esses golpes foi justamente o
conselheiro Mayrink. E, quando deixou o governo, Rui tornou-se diretor de
bancos e companhias criadas por ele.
A blindagem de Rui decorreu, em parte, por sua extraordinária produção
intelectual e alguns capítulos enobrecedores posteriores de sua biografia. E,
talvez, porque faltasse aos economistas e historiadores do período conhecimento
mais aprofundado sobre mecanismos financeiros e especulativos da época.