Folha de São Paulo, domingo, 05 de dezembro de
2004
LUÍS NASSIF
A revanche do encilhamento
Uma pequena monografia, vencedora do Prêmio BNDES de 1983,
pode conter a chave para explicar o grande desastre cambial do Plano Real. Seu
autor era o jovem Gustavo Franco, abordando o período pré-encilhamento, no
alvorecer da República.
O tempo era de um mundo em grandes transformações tecnológicas, enormes
mudanças no sistema financeiro internacional, e uma febre de desenvolvimento e
industrialização que chacoalhava todo o Brasil, no rastro da Abolição da
Escravatura e no aumento da migração.
Na época, o Conselheiro Saraiva resolve desenhar o novo modelo monetário e vai
buscar auxílio no conselheiro Francisco de Paula Mayrink, banqueiro. Aos olhos
do historiador Franco, Mayrink tem a dimensão de um Barão de Mauá. De fato,
trouxe capitais de fora, construiu estradas de ferro, explorou Caxambu, comprou
o Palácio do Catete.
Em sua monografia, esmiúça os novos paradigmas do período. Glorificava-se a
concorrência, havia resistência a qualquer forma de controle e, especialmente,
de controle cambial, apesar do livre fluxo de capitais provocar oscilações
enormes no câmbio.
O modelo de Saraiva contemplava a criação de inúmeros pequenos bancos capazes
de reciclar o capital externo. Mas quem ousaria entrar no jogo, estando sujeito
a enorme volatilidade cambial, em um país de comércio exterior estreito, e com
a globalização financeira passando por um período extraordinariamente vigoroso?
Aí Saraiva pensou no grande instrumento, um superbanco capaz de, por seu poder
de fogo, atuar como agente moderador da volatilidade cambial. E convenceu o conselheiro
Mayrink a fundir seu banco com um concorrente e assumir a missão e o monopólio
da emissão de moeda.
Em várias partes do livro, Franco conjetura sobre o que poderia ter sido o
Brasil se o grande banco tivesse vingado. Poderia ter a vitalidade industrialista
do encilhamento, o novo mercado financeiro reciclando poupança externa, sem o
final terrível da época -cuja história terminou em um enorme crack e, depois,
da política deflacionista de Joaquim Murtinho, que dizimou a indústria
incipiente.
A Proclamação da República pegou o projeto no meio. Ruy Barbosa entrou na
Fazenda trazendo novos discursos sobre o câmbio, mas encampando o modelo. O
historiador vai juntando as peças, observando que, a cada vez que Ruy tentava
enfrentar os interesses rentistas, havia uma atoarda que chacoalhava os
mercados, ecoava na imprensa e só refluía quando Ruy recuava. Lembra até o
ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco que, meses atrás, indagado sobre
o neonacionalismo, respondia peremptório: "O mercado não deixa".
Ao contrário da historiografia convencional, seu trabalho tenta provar que o
que levou à hiperinflação não foram as emissões descontroladas de moeda por
parte de Ruy: foi a grande farra cambial que pegou o país desarmado, justamente
porque as pressões políticas impediram Ruy de implementar o projeto na íntegra.
Onze anos depois de escrita a tese, o historiador fecha o livro, assume um
cargo relevante no Banco Central, e parte para a revanche de Saraiva. Agora se
tinha o grande banco para tourear o câmbio -o BC. Há a promessa da
estabilização que permite o florescimento de inúmeros pequenos bancos,
especializados em trazer dinheiro de fora, com a segurança que faltou aos que
se perderam nos solavancos cambiais do alvorecer da República. E essa poupança,
garantir o desenvolvimento que o encilhamento abortou.
Faltou ao historiador pegar a lição de Ruy, citada em seu livro, de que o
câmbio tem de refletir as condições efetivas de competitividade da economia,
não o livre fluxo cambial.