Folha de São Paulo, sexta-feira, 17 de dezembro
de 2004
LUÍS NASSIF
A CPI das CPIs
No final do governo FHC, parlamentares da oposição pretenderam criar uma CPI
das CPIs -um imbróglio inconstitucional, em que se listavam dezenas de rumores,
com o único intuito de criar uma crise institucional que desestabilizasse o
governo, ainda que à custa da desestabilização da economia.
Foi difícil, naqueles tempos, criticar as CPIs e demonstrar sua inutilidade
como elemento isento de apuração de fatos. Em lugar de investigação
profissional, levantamento estabanado de fatos; em lugar do filtro, a descarga;
em lugar do sigilo, a divulgação indiscriminada de provas comprometendo inocentes
e alertando culpados.
A CPI do Banestado é o coroamento dessa marmelada, e o deputado federal José
Mentor é o autor do epitáfio dessa longa noite inquisitorial em que se
transformaram as CPIs. O indiciamento de Gustavo Franco e a não-citação de Paulo
Maluf, mais que prova de má-fé, é de uma incompetência acachapante, inclusive
para fazer o malfeito.
A emenda sairá tão ruim quanto se o PSDB der o troco e pedir o indiciamento do
presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e do ex-presidente do Banco do
Brasil Cássio Casseb. Meirelles foi apanhado em uma transferência irrisória de
dólares para o país, se comparado com sua renda e patrimônio. Casseb remeteu
dólares para o exterior com origem comprovada.
Como lembrou Jânio de Freitas em sua coluna de ontem, Franco cometeu erros de
ordem técnica e ideológica, avalizados por seus superiores. Somados, Franco e
Meirelles merecem o fogo do inferno da história, pelos tremendos erros de
condução das políticas cambial e monetária. O inferno de Franco já se manifestou
em várias crises que arrebentaram com o crescimento brasileiro; o de Meirelles
vai começar a ser contabilizado daqui a algum tempo. Daí a criminalizá-los,
assim como a Armínio Fraga, vai exigir não apenas má-fé, mas uma tremenda
incompetência.
Mas Mentor se superou. O que eram rumores sobre a aliança com Paulo Maluf em
São Paulo foi oficializado no relatório da CPI. Ignorar os US$ 400 milhões de
Maluf no exterior, a pretexto de que não houve tempo para avançar nas
apurações, tem a mesma lógica que permite prender o contador, que assinou o
balanço, e liberar o chefe, porque é mais fácil conferir a assinatura.
Desmoraliza-se o próprio Congresso para que não apareçam aqueles que
verdadeiramente precisariam ser investigados: o dinheiro das caixinhas políticas
e da corrupção pública, a movimentação dos fundos "offshore" que
passaram a controlar grandes empresas brasileiras, o dinheiro do caixa dois e
do narcotráfico.
Está na hora de o Congresso efetivamente começar a limpeza da casa. E o caminho
já está esboçado: é a CPI das CPIs, aquela que vai investigar os inúmeros
rumores de achaques conduzidos por integrantes de outras CPIs. Ficaria melhor
ainda se levantassem as informações sonegadas em sucessivas CPIs, por pressões
dos poderosos e conveniências de ordem política.