Sábado, 01 de de 2006

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Político derrota sociólogo

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29.03.2006 |  Um banco falido ameaçando levar uma multidão de correntistas para o ralo. Um grupo de políticos poderosos ameaçando tocar fogo no governo se ele não assumir o prejuízo do banco. A diretoria inteira do Banco Central do outro lado da mesa ameaçando pedir demissão se os políticos forem atendidos. Manchetes de jornal pressionando o presidente da República – umas acusando-o de querer salvar o banco, outras de demorar a salvá-lo. Visto por dentro, exatamente do olho do furacão, o caso da quebra do Banco Econômico deixa uma única e cristalina certeza a qualquer observador: era uma crise insolúvel. Na verdade, porém, era só mais uma sinuca de bico da qual o então presidente Fernando Henrique Cardoso sairia desafiando as leis da física – e provando que, em política, nó em pingo d´água não é uma metáfora.

O olhar de Fernando Henrique sobre os seus anos no poder é um dos documentos mais contundentes já produzidos sobre a odisséia de governar o Brasil. Em plena articulação da emenda da reeleição, já sentindo a erosão pessoal que atinge o presidente inexoravelmente, ele chega a anotar no diário: “Não é uma boa mais quatro anos”. Essa experiência individual vertiginosa, as impressões de um homem que vê cada palavra ou gesto seu ganhar força de maremoto, é a matéria-prima do livro “A arte da política – a história que vivi”, lançado pela Record/Civilização Brasileira, com coordenação editorial do jornalista Ricardo A. Setti, colunista de NoMínimo, um dos mestres do texto jornalístico brasileiro.

O caso do Banco Econômico, que nem está entre os acontecimentos de primeira grandeza do período, daria sozinho uma minissérie. Entre outras coisas, porque carrega o leitor para os bastidores de uma das relações mais interessantes e intrigantes da política brasileira na história recente – a aliança FHC/ACM. Houve de tudo no “casamento” do ex-presidente com o cacique baiano Antônio Carlos Magalhães: lealdade a toda prova, traição bruta, afeto profundo, ódio pessoal. Na crise do Econômico, Fernando Henrique admite no livro que ele próprio jogou involuntariamente gasolina no incêndio, dando uma informação tecnicamente errada a ACM:

“Eu despertara com uma chamada telefônica de Antônio Carlos Magalhães, muito exaltado, embora educado, dizendo ser contra uma intervenção no Econômico (...). Retruquei que (...) não pensávamos em liquidação do banco baiano. Essa frase, de boa fé, criou mais tarde grande confusão. Malan me esclareceu (...) que a solução seria uma intervenção que poderia marchar para a liquidação. Estava armado o imbróglio.”

Mas ACM se destaca também em algumas das principais vitórias de Fernando Henrique. Especialmente nas crises externas, que vieram da Ásia para escalpelar a moeda brasileira, o senador Antônio Carlos aparece como um dos fiéis da balança, comandando a resistência no plano político praticamente no grito. E aparece em passagens mais sutis na carreira do ex-presidente. Os comícios de campanha eram as situações que deixavam Fernando Henrique menos à vontade na relação com o público. Ali, sentia que era muito mais um intelectual do que um político. Mas teve que aprender, e começou a tomar gosto pela coisa observando, entre outras, a performance de ACM:

“Poucos, muito poucos, são aqueles capazes de ‘segurar’ a massa. Procurei aprender com os melhores. Antônio Carlos Magalhães, por exemplo, era um peixe n´água nos comícios. Impressionante: ele fica à vontade com o povo, se eletriza, e como que mergulhava, fisicamente, na multidão antes ou depois de subir ao palanque. (...) Lembro-me de certo dia em Canudos, na Bahia. Falaram ao povo Luís Eduardo, Paulo Souto, vice-governador de ACM e o próprio ACM – e eu prestando atenção. Aí chegou minha vez. Falei à multidão. Terminado o comício, ACM, com sua franqueza sem cerimônia, me disse: ‘Ah, o senhor está melhorando...’”

O melhor de “A arte da política” é, sem dúvida, o retrato em close da formação da alma política de Fernando Henrique. Sem demérito à sua produção e atividade acadêmica, fica evidente que a condição de intelectual serviu, principalmente, como ferramenta para a construção do político. Numa visita a uma igreja pentecostal em Mato Grosso, o então candidato a presidente vê o senador Julio Campos, do PFL, falando com os fiéis como se fosse um pastor. Logo, o próprio Fernando Henrique se vê dirigindo-se a eles com o bordão “aleluia, irmão”. Se sente demagogo, mas logo é salvo por sua própria lógica:

“Político canta em igreja evangélica, toma passe em terreiro de umbanda, se ajoelha em igreja católica. Será demagogia, ou farsa? (...) De alguma maneira o político está expressando para aquelas pessoas que tem empatia com elas, que vai respeitá-las. É como se procurasse entrar no comprimento de onda delas. É um gesto, e política também é gesto.”

Uma boa parcela do livro é dedicada a análises de corte sociológico, não necessariamente costuradas a vivências específicas do ex-presidente. Não é a melhor parte. O autor dedica um número excessivo de páginas a uma busca de diagnóstico sobre a formação do quadro partidário atual, por exemplo, revisitando pormenores do xadrez de alianças na Assembléia Constituinte. É pouco interessante como relato e pouco relevante como ensaio.

As teorizações a seco sobre capacidade de liderança, ética da responsabilidade versus ética da convicção, “soft power” e outras incursões pela ciência política, apoiadas em citações a Maquiavel, Max Weber, Gramsci e outros clássicos, talvez façam algum sucesso em sala de aula. Misturadas ao jorro quente das memórias do ex-presidente (e das análises vivas associadas a elas), soam pesadas e frias. Fernando Henrique gasta espaço demais para teorizar sobre a arte do convencimento, por exemplo, quando sua própria vida é, em si mesma, uma aula nessa matéria.

E aí está o biscoito fino: os bastidores da articulação, nos anos FHC, da mais consistente e duradoura estabilidade política da República em tempos democráticos – esta talvez a maior obra de Fernando Henrique, que antecede e explica a própria estabilização econômica, tão festejada. A descrição do ex-presidente sobre a forma com que usou a força política de aliados como Sérgio Motta e José Serra, por exemplo, ao mesmo tempo mantendo-os fora do Palácio e administrando seus venenos e contravenenos na disputa com a equipe econômica de Pedro Malan, resulta quase numa pintura barroca. Ali está, ao vivo, a grande arte da política.

Sua conversa com o presidente do Banco Central Armínio Fraga, na véspera da sabatina deste no Senado, é uma pérola de bastidor. Decidido a preparar Armínio psicologicamente para o fogo cerrado que receberia – e recebeu – o então presidente acaba fazendo um desabafo contra os políticos e a opinião pública:

“Não se esqueça de que o seu objetivo é ser aprovado. Você vai ser. Mas não se esqueça também do seguinte: o Brasil não gosta do sistema capitalista. Os congressistas não gostam do capitalismo, os jornalistas não gostam do capitalismo, os universitários não gostam do capitalismo. (...) Eles não sabem que não gostam, mas não gostam. Gostam do Estado, gostam de intervenção, do controle, do controle do câmbio, o que puder ser conservador é melhor do que ser liberal.”

Ali estava um dos pontos de honra do político Fernando Henrique, que no início dos anos 80 já captara a necessidade de ampliar a luta pelas liberdades políticas em direção às liberdades econômicas. Em pleno frenesi da moratória de Sarney e da bandeira geral de “fora FMI”, o então senador subiu à tribuna para defender a abertura econômica brasileira e a integração dos mercados – um discurso ousado e totalmente fora do tom da época. Outro ponto sagrado para o ex-presidente, a não-ocupação política do Estado (o chamado aparelhamento, feito pelos partidos que chegam ao poder), aparece no livro em diversas passagens interessantes, como quando ele testemunha um sorteio de cargos públicos entre deputados do PMDB, no nascimento da Nova República.

E há uma torrente de impressões pessoais do ex-presidente, caladas e contidas pelas circunstâncias do cargo nos momentos históricos cruciais, mas agora liberadas. Um de seus impactos emocionais mais fortes foi quando em 1999, logo após a crise da desvalorização do real, foi à inauguração das novas instalações da TV Globo em São Paulo e viu pela primeira vez, nos olhos das pessoas nas ruas, o rancor contra ele. O povo se sentira traído pelo presidente.

No ramo das curiosidades e revelações, “A arte da política” traz uma fartura de artigos variados. Num encontro com José Saramago, velho militante de causas sociais, Fernando Henrique se impressionou com a ignorância política do escritor português. Em tom de cobrança, Saramago lhe pediu “justiça para José Rainha”. Era um pedido ao presidente da República sobre um processo em julgamento pela Justiça do Espírito Santo. Ainda sobre o MST, numa feira de pecuaristas em Uberaba, Fernando Henrique foi cobrado pela febre de invasões de propriedades pelos sem-terra. Diante de um diretor da TV Globo, o presidente espetou a novela das oito, em que Patrícia Pillar, a heroína, interpretava uma sem-terra:

“Está criado no Brasil um clima de bandido e mocinho, no qual o MST é o bom moço. Basta ver ‘O rei do gado’. Agora vocês pedem ação enérgica do governo. A primeira morte que ocorra serei o culpado. Não contem comigo para isso.”

A intimidade do poder se revela totalmente em relatos descontraídos do autor sobre sensações humanas, ordinárias, em meio aos grandes fatos políticos. Durante a crise da Rússia, por exemplo, em 1998, o estresse pessoal do presidente se aproximava do limite, acumulando as tensões que vinham da crise dos tigres asiáticos, um ano antes. Fernando Henrique escreve que, às vésperas das eleições, não agüentava mais olhar resultados das bolsas despencando, checar quantos bilhões das reservas do país já tinham sangrado e ir a público dar declarações otimistas. O humor, que sempre reaparece na narrativa, não falha nessa ocasião: “Eis aí um mau momento para se ganhar uma eleição...”

Entre as várias passagens hilariantes está o episódio do convite a Pelé para ministro dos esportes. Para manter o sigilo do encontro, sem qualquer possibilidade de despistar o batalhão de repórteres, o rei do futebol chega ao prédio do jornalista Juca Kfouri deitado no chão do carro e coberto por um paletó. E há os momentos em que o presidente, famoso por suas tiradas sarcásticas, não resiste ao humor negro. O presidente paraguaio Juan Carlos Wasmosy chegou certa vez a Brasília, tarde da noite, em meio a uma séria crise em seu governo, para um anúncio grave e um pedido de solidariedade: “Vou demitir o general Lino Oviedo na segunda-feira e ele pode mandar me matar.” Fernando Henrique respondeu: “Apoiaremos a legalidade. Mas se você morrer, não posso lhe ajudar.”

Este é o melhor Fernando Henrique de “A arte da política”, não o que mergulha em construções teóricas sobre os novos cortes sociológicos do mercado, as alternativas do terceiro setor, as novas pulsões da opinião pública e da sociedade civil, e outros conceitos com jeito de cartilha de ONG. O melhor Fernando Henrique é aquele que conta ter chegado atrasado, nos anos 70, ao primeiro encontro com o novo líder operário Luiz Inácio da Silva porque o pneu do carro furou e ele nunca soube trocar. É aquele sob cuja pele cândida de intelectual deixa entrever a maior raposa política brasileira das últimas décadas.



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