O liberalismo do poeta fingidor

Por Oscar Pilagallo, para o Valor

12/01/2007

 

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O poeta português Fernando Pessoa publicou artigos sobre economia e administração na "Revista de Comércio e Contabilidade", que ele mesmo editava, na década de 1920

Fernando Pessoa (1888-1935) nunca foi poeta de carteirinha. Produzindo muito e publicando pouco, escrevia por vocação, não para o sustento. Sua carteira profissional era a de comerciário. Ao longo da vida trabalhou em 15 casas do ramo, tendo atuado como "correspondente estrangeiro", designação que ele próprio se atribuía. É desse Fernando Pessoa - e não do poeta - os textos que compõem "A Economia em Pessoa - Verbetes Contemporâneos", organizado por Gustavo Franco (Reler, 184 págs., R$ 44).

 

Mesmo atuando em escritórios comerciais, Fernando Pessoa não se distanciava das letras. Foi por dominar o inglês e o francês que ocupou o cargo de correspondente em línguas estrangeiras, que o colocava na aristocracia dos profissionais da área, aqueles que lidavam com importações e exportações. E foi por refletir sobre economia e administração que, em 1926, ele publicou os artigos agora reeditados na "Revista de Comércio e Contabilidade", cujos seis números de sua curta existência ele mesmo editou.

 

Pessoa já havia se ocupado do dinheiro como ficcionista. Quatro anos antes, publicara "O Banqueiro Anarquista", um de seus contos de raciocínio, em que o protagonista explica ao interlocutor o oxímoro do título. Como anarquista convicto, queria destruir a mais importante das ficções sociais, o dinheiro. Lúcido, porém, estava ciente da impossibilidade de se livrar coletivamente de sua tirania. A solução, portanto, só poderia ser individual: "Adquiri-lo em quantidade bastante para lhe não sentir a influência".

 

Essa ironia surge num ou noutro comentário nos artigos sobre economia, mas o leitor de Pessoa fique avisado: o registro dos textos é outro. Ao vestir o chapéu do homem de negócios, o escritor é informativo, analítico, argumentativo e, em casos, até mesmo técnico. Ainda assim, são textos do maior poeta modernista português, um dos gênios da literatura mundial, na avaliação do crítico Harold Bloom.

 

As credenciais literárias de Pessoa estão dispensadas. Mas o que dizer das de economista? Gustavo Franco cita na introdução a ampla experiência de Pessoa, a partir da qual ele derivou suas teorias. Mas Pessoa tinha formação mais consistente. Na África do Sul, onde morou por um tempo, estudou na Commercial School, e em sua biblioteca em Lisboa, na estante de livros sobre economia, guardava "A Riqueza das Nações", de Adam Smith, o pai do liberalismo, conhecido pela metáfora da "mão invisível do mercado" (leia entrevista à página 12).

 

O organizador do volume achou por bem se antecipar a eventuais críticas. Um dos economistas mais associados às ortodoxias do liberalismo, Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e o homem do real valorizado do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, defende-se da acusação, por enquanto não formulada, de "artificialismo na apresentação do material". Não há nada de artificial no liberalismo de Pessoa, ele é fruto de uma convicção proveniente de esforços intelectuais e interesses profissionais. Nesses textos, ele não brinca em serviço, não é o poeta fingidor. Trata-se de um liberal sincero, e Franco fez bem de comprá-lo pelo valor de face.

 

Soa também como excesso de zelo a preocupação de Franco de imaginar que Fernando Pessoa pudesse ser desqualificado como pensador. É verdade que o escritor tinha suas esquisitices, entre elas uma queda pelo ocultismo e a ambigüidade ideológica, mas o mais empedernido dos patrulheiros de plantão não usaria esse argumento para desmerecer sua arte ou seu engenho, baseados justamente em sua percepção multifacetada da realidade. De resto, como nota Franco, "os textos falam por si".

 

A maior intervenção de Gustavo Franco foi ter dado nomes contemporâneos às idéias de Fernando Pessoa. Ele escreveu sobre privatização, marketing, globalização antes desses conceitos terem sido nomeados. É uma "liberdade editorial" que ressalta a atualidade do pensamento de Pessoa, sem desfigurá-lo.

 

Assim, no verbete sobre globalização, Pessoa aproxima o comércio de sua seara principal, a cultura. "É, com efeito, notável que as sociedades que mais proeminentemente se destacaram na criação de valores culturais são as que mais proeminentemente se destacaram no exercício assíduo do comércio", afirma ele. E exemplifica: "Comercial, eminentemente comercial, foi Atenas. Comercial, eminentemente comercial, foi Florença".

 

Ao abordar a privatização, Pessoa adverte para os males de deixar para o Estado a administração de uma indústria ou comércio. "[O Estado] só pode, em certos casos, beneficiar o consumidor; porque pode bem ser que o produto vendido o seja em condições anormalmente favoráveis. Como, porém, esse consumidor é ao mesmo tempo contribuinte, o que o Estado lhe dá com a mão direita, terá fatalmente que tirar-lho com a esquerda".

 

São pontos de vista que não perderam a pertinência, concorde-se ou não com eles. Como reconhece o historiador Alberto da Costa e Silva na apresentação do livro, alguns ensaios talvez não devessem ser incluídos numa antologia de textos sobre economia, mas "forçoso é admitir que vários deles cabem, com relevo, numa história da inteligência e da cultura".

 

O livro traz ainda um capítulo que, à moda do blog, traz pensamentos avulsos, alguns beirando a auto-ajuda. "Cada homem", afirma Pessoa, "é em grande parte um produto do seu conceito de si mesmo. Se [...] criar o hábito de se julgar inteligente, não obterá com isso, é certo, um grau de inteligência que não tem; mas fará mais da inteligência que tem do que se se julgar estúpido." E amplia a conclusão para a psicologia coletiva: "Uma nação que habitualmente pensa mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente".

 

Ainda nessa seção, três idéias jogadas e um slogan merecem registro, pela utilidade e pela criatividade. As idéias:

 

"É do pior gosto, e do pior efeito, desculpar-se um chefe com o 'erro dum empregado'. Não há erros de empregados. Todo o erro dum empregado é apenas o erro de ter empregados que fazem erros."

 

"Nas cartas comerciais [...], é conveniente evitar-se aquela precisão verbal excessiva que parece jurídica. A precisão comercial deve ter sempre um ar casual e despreocupado - o da conversa dum homem inteligente."

 

"Uma carta visivelmente circular é o pior meio de propaganda ou publicidade que se conhece [...] porque uma carta implica atenção ou consideração, e uma coisa impressa implica o contrário."

 

E o slogan, criado para a Coca-Cola em Portugal: "Primeiro, estranha-se. Depois entranha-se". Isso é que é.

 

 

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Pound, Eliot e a economia

Para o Valor

12/01/2007

 

 

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O poeta Ezra Pound, à maneira do colega T.S.Eliot, teve uma compreensão moral, e não econômica, do dinheiro, e, como um católico medieval, condenou a usura, um mal para a civilização

Fernando Pessoa está na companhia de poucos escritores que, sendo leigos, também escreveram com alguma relevância sobre assuntos econômicos. A comparação com seu contemporâneo T. S. Eliot, poeta modernista anglo-americano, lhe é favorável.

 

Eliot, como Pessoa, também teve experiência com negócios, trabalhou nove anos no Lloyds Bank. Mas, ao contrário do português, nunca desenvolveu idéias muito coerentes sobre economia. Mesmo seus admiradores reconhecem que, nessa matéria, ele era confuso. Eliot acreditava numa doutrina, merecidamente pouca difundida, chamada "crédito social". A idéia seria partilhar o capital, sem passar pela via socialista. Um de seus biógrafos, Peter Ackroyd, tenta entender o que se passava em sua cabeça: "É provável que a teoria tenha sensibilizado Eliot por ter sido concebida como base em uma compreensão moral, e não econômica, do dinheiro".

 

Outro que bebeu na mesma fonte foi Ezra Pound, mestre modernista de Eliot. Suas concepções vazaram na poesia. Em "Cantos", seu poema mais conhecido, condenou a usura, como se fosse um católico medieval. Na tradução de Augusto de Campos, ele escreveu os seguintes versos: "Com usura nenhum homem tem casa de boa pedra,/ blocos lisos e certos/ que o desenho possa cobrir;/ com usura/ nenhum homem tem um paraíso/ pintado na parede de sua igreja".

 

No mais das vezes, os escritores se atêm aos efeitos do dinheiro sobre o homem. A prodigalidade e a avareza renderam boas reflexões. Avessas por definição, elas têm algo em comum: o desinteresse pelas coisas que o dinheiro pode comprar. Num caso, o prazer é o ato da compra; no outro, é o potencial da compra. "O que a avareza exibe na forma de paralisia material, a extravagância releva em fluidez", afirma Georg Simmel.

 

Aristóteles, que traçou uma hierarquia entre os dois tipos, privilegiando o perdulário, achava que a prodigalidade podia ser curada com a idade e a pobreza, ao passo que a avareza seria incurável. Olavo Bilac, muitos séculos depois, observaria que a cura existe, mas é póstuma: "A avareza tem um corretivo admirável: é a prodigalidade dos que herdaram o dinheiro dos avarentos". Em outras palavras, Millôr Fernandes concordaria: "Morrer rico é sinal de extrema incompetência. Significa que você não usufruiu, ou pelo menos não usufruiu todo, o seu dinheiro".

 

Todos pensamos sobre dinheiro, a diferença é só de intensidade. Como diz Oscar Wilde: "Há apenas uma classe que pensa mais em dinheiro do que a rica: é a pobre. O pobre não pensa em mais nada. Essa é a miséria de ser pobre".

 

(Oscar Pilagallo)