Domingo, 3 de junho de 2007
O Estado de S. Paulo
Por que investir fora
Editorial
Empresas brasileiras investiram US$ 5,2 bilhões no exterior,
de janeiro a março deste ano, para ampliar suas bases de produção e
comercialização. O investimento no exterior das companhias nacionais, nesse
período, foi 57,5% maior que o do primeiro trimestre de 2006. Novas negociações
estão em andamento e mais empresas deverão ganhar ou reforçar, ainda este ano,
a condição de grupos internacionais. É uma tendência normal e perfeitamente
saudável no caso de uma economia grande e com presença crescente no comércio
global. Outros emergentes, como a China, a Índia e o México, também são sedes
de companhias com estrutura internacional. Já não são somente receptores, mas
também fontes de capitais destinados ao investimento direto externo. Mas a
novidade, no Brasil, não é apenas o aumento das aplicações no exterior. É
também a diversificação das firmas investidoras, agora com participação de
grupos de vários setores e também de companhias pequenas e médias. Para uma
avaliação mais precisa dessa tendência, é preciso perguntar por que essas
empresas decidiram investir fora do País.
Grandes grupos foram os primeiros a investir no exterior.
Alguns buscaram melhor acesso a mercados, para contornar, por exemplo,
barreiras protecionistas - caso de produtores de suco de laranja. Empresas
siderúrgicas têm comprado usinas no exterior tanto para obter acesso a mercados
como para ganhar a escala e a musculatura necessárias num setor dominado, cada
vez mais, por grupos gigantescos.
A Petrobrás, uma das primeiras a ganhar escala
internacional, seguiu o caminho de todas as grandes petroleiras, buscando
oportunidades de pesquisa, exploração e comercialização em vários continentes.
Assim, a empresa se expandiu e garantiu o abastecimento de óleo para o Brasil.
Outras companhias simplesmente aproveitaram as oportunidades
abertas com a criação do Mercosul. Os primeiros investimentos foram feitos nos
anos 90 e a tendência de investir na vizinhança ressurgiu, com força,
recentemente. O crescimento da Argentina, depois de anos de recessão, e o
dinamismo do Chile e de outros países latino-americanos têm estimulado a
instalação de filiais.
Parte do investimento externo das empresas brasileiras tem
sido motivada, no entanto, pelas dificuldades de operar somente com base no
Brasil. A valorização do real é um dos motivos alegados. Embora a depreciação
do dólar seja um fenômeno global, seu efeito tem sido sentido mais aqui do que
em outros países. Mas esse é um fator conjuntural, por si só insuficiente para
motivar a compra ou a montagem de filiais no exterior.
Empresários de vários setores têm apontado outros problemas,
quando falam em comprar ou construir indústrias no exterior. A diferença de
custos e as dificuldades de acesso a grandes mercados, por falta de acordo
comercial com os EUA, têm peso considerável.
Os custos são agravados principalmente pelo sistema
tributário e pelos chamados encargos sociais - além das péssimas condições da
infra-estrutura. Os impostos atrapalham tanto pelo peso quanto por sua
complexidade. O investimento produtivo é mais caro no Brasil do que noutros
países por causa da tributação.
Maus tributos prejudicam também as exportações. Empresas têm
dificuldades para receber os créditos fiscais do ICMS cobrado pelos Estados. Há
dois anos uma das grandes processadoras de soja fechou oito fábricas no Brasil
e transferiu o processamento do grão para a Argentina. O principal motivo
alegado, na ocasião, foi a dificuldade de operar com o
ICMS.
Empresas dos Estados Unidos, da Europa e do Japão instalam
filiais em áreas em desenvolvimento em busca de matérias-primas e mão-de-obra
mais barata. Não têm alternativa quando se trata do
custo do trabalho. Não é o caso dos impostos no Brasil. Quando uma empresa
brasileira investe no exterior por causa dos impostos ou da falta de acordos
comerciais, a decisão é determinada por problemas decorrentes de políticas
erradas e passíveis de mudança. Nesse caso, pode-se falar, sim, em perda de
empregos para brasileiros.