OESP, Quinta-feira, 16
de dezembro de 2004
A
farsa que se esperava
O Estado de São Paulo - Editorial
Entre
1996 e 2000, pelo menos US$ 30 bilhões saíram ilegalmente do País, mediante o
uso fraudulento das chamadas contas CC-5, reservadas a brasileiros residentes
no exterior e a empresas sediadas no estrangeiro. Depósitos em reais no Banco
do Estado do Paraná (Banestado) em Foz do Iguaçu irrigavam contas em dólar na
agência de Nova York. Outros bancos em outras praças participavam igualmente da
ciranda de evasão de divisas, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro.
Descoberta a ponta da meada do escândalo, o Congresso instalou em junho do ano
passado uma comissão mista de inquérito, a CPI do Banestado. A comissão teve
acesso a cerca de 1,6 milhão de operações, das quais 400 mil registradas no
Banco Central (BC), quebrando o sigilo bancário e fiscal de 1.400 pessoas e
empresas. No início do ano, o doleiro-mor do esquema foi condenado a sete anos
de prisão e multa de R$ 2,5 milhões. Na terça-feira, o relator da CPI, José
Mentor, do PT paulista, apresentou o relatório sobre a investigação em 740
páginas, mais outras tantas de anexos. E pediu o indiciamento de 85 pessoas,
algumas por mais de um presumível delito.
Dito desse modo, poderia parecer
- a um recém-chegado de Marte - que um órgão do Poder Legislativo federal,
arquivando divergências partidárias e ignorando pressões espúrias, em nome do
interesse público, mergulhou nos meandros de um crime continuado de imensas
proporções e enfim está pronto para dar os passos necessários para que o
Ministério Público e depois a Justiça possam fazer o que lhes compete para
punir os delinqüentes de colarinho-branco. Nada mais falso. Convertida em arena
para governo e oposição se digladiarem, a CPI se voltou contra si mesma, em um
processo autofágico de desmoralização poucas vezes visto mesmo numa instituição
que não prima por dar aos brasileiros razões de orgulho cívico. Além disso,
diante do Himalaia de dados que amealhou, valendo-se de suas atribuições
constitucionais, a comissão simplesmente perdeu o fôlego - e o rumo. Menos em
relação a algo que é tido e sabido como fato irrefutável e, precisamente por
isso, ameaçou implodir a CPI: a montagem de um formidável dossiê de informações
potencialmente devastadoras, para o que delas pretendesse o apontado mentor do
relator da comissão, o ministro José Dirceu.
Diante desse retrospecto, seria
de espantar se alguém se chocasse com o apogeu da farsa encenada nas barbas dos
brasileiros sem o mais tênue vestígio de pudor, como se esta fosse uma nação de
idiotas. O relator escolheu um político para bode expiatório - o ex-prefeito
Celso Pitta, por suas "contas e valores no exterior". Mas o deputado
poupou o patrono que levou Pitta para a política e provavelmente a outras sendas,
Paulo Maluf, o aliado da petista Marta Suplicy no segundo turno da eleição
municipal. Neste caso, escreveu Mentor, faltou "tempo hábil para
aprofundar-se nas investigações", que duraram 17 meses. O que não lhe
faltou, porém, foi o cinismo de pedir o indiciamento do ex-presidente do BC
Gustavo Franco, por crime contra o sistema financeiro, alegadamente
consubstanciado no fato de ter sido ele o responsável pela "decisão
política de liberar as operações em Foz do Iguaçu" (com contas CC-5
existentes em cinco bancos). Com serenidade inversamente proporcional à
estridência da aleivosia, o economista ressaltou em nota o "equívoco"
de confundir divergências sobre políticas públicas com irregularidades.
"Matérias complexas, como a
legislação sobre transações em moeda, foram tratadas ideologicamente",
devolveu. "Não é honesto provocar essa confusão." Mas o julgamento
definitivo da obra de Mentor e da CPI coube a um político de quem se pode dizer
tudo menos que tenha qualquer simpatia pelas políticas do BC ao tempo de
Gustavo Franco, ou pelo governo Fernando Henrique. "Um ano de trabalho e
essa CPI praticamente nada fez", acusou o veterano senador Pedro Simon.
"Noventa por cento do que
vejo aqui nesse relatório praticamente nem se discutiu. Acho que deveríamos ir
ao procurador-geral da República e entregar a ele a documentação da qual não
soubemos fazer uso." É difícil imaginar, de fato, como possa ser salvo por
emendas reparadoras esse relatório que conseguiu ser ao mesmo tempo pífio e
faccioso. O mais provável é que não sendo votado em tempo hábil para que o
Ministério Público complemente as investigações - o prazo expira em fevereiro
de 2005 - acabe dormindo nos arquivos do Congresso.