Quinta-feira, 30 de dezembro de 2004
A
CPI desmoralizada
O ESTADO DE S.PAULO EDITORIAL
O
desfecho abrupto da CPI do Banestado, após um ano e meio de atividades, por
falta de quórum, sem que tivesse havido a votação de qualquer relatório sobre
suas apurações - versando, especialmente, sobre remessas irregulares de
dinheiro para o exterior -, significou mais do que o desperdício de tempo e
trabalho de seus integrantes. Pois representou, na verdade, o ápice de um
processo de desmoralização de um dos mais importantes instrumentos de correção
de rumos e de produção de sugestões de que dispõe o Congresso para a solução de
graves problemas que afetam a sociedade brasileira - e é bom que se enfatizem
essas funções, visto que muitos confundem o trabalho das CPIs com o das
investigações policiais. De qualquer forma, a CPI do Banestado reproduziu, de
maneira exemplar, as piores distorções que corroem os princípios e a força desse
instrumento parlamentar.
Se fosse para escolher os vícios maiores, que determinaram
a derrocada desse trabalho setorial do Legislativo, apontaríamos, primeiro, a
deletéria partidarização. Na Comissão Parlamentar de Inquérito Mista do
Banestado estabeleceu-se, mais do que nunca, um antagonismo partidário
exacerbado, inconciliável, entre o presidente tucano, senador Antero Paes de
Barros (PSDB-MT) e o relator petista, deputado José Mentor (PT-SP). Essa guerra
político-partidária culminou com a apresentação, por parte de Mentor, de um
relatório incriminando 91 pessoas, entre as quais o ex-presidente do Banco
Central - no governo Fernando Henrique Cardoso - Gustavo Franco. E o presidente
Paes de Barros reagiu àquele relatório apresentando outro, no qual incriminava
o atual presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, por sonegação fiscal e
movimentação ilegal de divisas. Assim, ao encerrar a CPI, o deputado que a
presidiu enviou ao Ministério Público três documentos não votados - a saber, o
relatório de Mentor, o seu próprio e o voto em separado do deputado Edmar
Moreira (PL-MG). Embora tudo o que é apurado em uma Comissão Parlamentar de
Inquérito possa se transformar em subsídios para investigações policiais ou em
notitia criminis para o oferecimento de denúncia do Ministério Público, é claro
que relatórios não votados pelos integrantes da comissão parlamentar perdem o
cunho de oficialidade - e, em conseqüência, sua maior força de pressão e
influência.
Um segundo vício da CPI - especialmente grave, por ser de
natureza criminosa - relaciona-se a denúncias de possíveis manipulações de
informações obtidas nas investigações, tendo em vista a extorsão a empresários
ou pessoas que realizaram remessas de divisas para o exterior - e que
supostamente teriam que pagar gordas propinas para ficarem "fora das
listas" de "suspeitos". Os comentários são no sentido de que
mesmo pessoas que adotaram procedimentos legais para enviar dinheiro para fora
do País se sentiram suficientemente ameaçadas para se tornarem vulneráveis a
esse tipo de achaque.
Para o senador Antero Paes de Barros, o encerramento dos
trabalhos da CPI do Banestado e o envio dos relatórios e do voto em separado,
sem votação, ao Ministério Público, são atitudes perfeitamente regulares, com
base em requerimento de agosto de 2003, também assinado pelo relator petista
José Mentor. Este, no entanto, em companhia da líder do PT no Senado, Ideli
Salvatti (SC), já encaminhou ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP),
recurso pedindo a anulação da decisão do presidente da CPI do Banestado, assim
como da sessão do dia 21, em que Paes de Barros apresentara seu relatório
alternativo. Por sua vez, o terceiro-secretário do Senado (e membro da CPI do
Banestado, Heráclito Fortes, do PFL) enviou ofício à Polícia do Senado,
solicitando a lacração e a proteção dos documentos relacionados àquela
Comissão. Como se vê, o nível de desconfiança ali chegou ao máximo, o que pode
gerar uma batalha judicial - além de política - de resultado imprevisível.
Que todo esse imbróglio sirva, pelo menos, para os
parlamentares tomarem consciência da necessidade de uma reforma estrutural -
regimental, ética, ou de que natureza seja - que ainda possa salvar da
desmoralização total esse instrumento do Poder Legislativo, tão necessário para
a solução de graves problemas do País.