O Globo
6 de outubro de 1996
Talvez seja necessário aguardar mais para que haja amplo reconhecimento
de estarmos inaugurando um novo ciclo de investimentos" com padrões de
financiamento completamente diferentes dos ciclos precedentes. A consolidação
deste padrão depende da construção de horizontes de longo prazo, desta vez
condicionados pela dinâmica externa. A estabilização do Real. ao contrário das
tentativas precedentes. beneficia-se de condições externas favoráveis em termos
de crescimento do produto mundial, sobreliquidez financeira e crescente e firme
diversificação de carteiras de investidores internacionais.
O financiamento
externo é elemento-chave da estabilização, e as oportunidades não estão sendo
perdidas. Uma internacionalização ativa é corretamente estimulada e os novos e
inéditos constrangimentos da globalização passaram a ser compreendidos não
apenas como ameaças que sabemos que também são. Trata-se sobretudo de uma
grande e talvez rara oportunidade para estabilizar.
Já há ampla evidência
empírica de que a abertura econômica poderá ter salvado a indústria no Brasil.
Alguns poucos setores foram severamente afetados, mas a contribuição da
abertura para a retomada dos investimentos dos principais setores industriais e
para a estabilização é inquestionável.
Não há mais mercados
cativos, e a capilaridade das transnacionais abre portas do comércio
internacional. O comércio intrafirmas cresce de forma espetacular. Não é por
outra razão que há uma guerra fiscal e regulatória entre países e entre poderes
locais para atrair investimentos. Ainda que localizados em setores de alta
elasticidade-renda da demanda, os investimentos diretos no Brasil
inequivocamente mais trade-related do que a onda de investimentos dos
anos 70.
Franco compreendeu isto. Seu texto traduz uma
correta compreensão dos requerimentos de uma estabilização duradoura.
Compreendeu que é crucial perseverar e não sucumbir à escatologia do câmbio
apreciado e a ansiedade dos que acham que se perde chance de crescimento maior
do produto e das exportações por conta de uma perversa gestão dos juros e do
câmbio. Muitos não estão suficientemente convencidos de que a estabilização
sustentada tem um tempo próprio que é longo. Só sairemos totalmente da
hiperinflação quando o país reconstruir seus juros de longo prazo, e isso
depende de desarme de expectativas e descontaminação da imagem de ciclotimia
adquirida pela política econômica nos os 15 anos.
Franco é certamente mais pragmático do que
muitos supõem. Ou alguém acredita que as experiências de estabilização e seus
percalços no México e na Argentina de nada servem como ensinamentos? Não parece
difícil diferenciar, em relação a outras políticas de estabilização, a
qualidade da eficiente política brasileira de IOF sobre o ingresso de capitais
de empréstimos e de prazos mínimos na contratação de recursos externos. Seu
sucesso se expressa no alongamento dos prazos do endividamento e no aumento do
tempo de permanência do capital volátil. Há uma história de sucesso na gestão do
setor externo que deverá servir de referência de como os policy makers podem influir no tempo dos investimentos externos.
A expectativa quanto
ao risco de uma desvalorização cambial abrupta é pragmaticamente combatida por
uma política cambial serena, que recusa a reindexação via câmbio e a degradação
das contas comerciais. Um crescimento maior das exportações é previsível no
ritmo da recuperação da competitividade da indústria, com recentes medidas de
redução do custo Brasil. E apostar no papel do mercado na definição da taxa de
câmbio, como sugere Franco, não é renunciar ao poder de intervenção,
pressuposto básico de um banco central. Com o tempo, o câmbio tende a ver
reduzido o papel que lhe confere o Real. E o limite psicológico de 3,5% do PIB
para o déficit em transações correntes pode ser ampliado com o avanço do ajuste
fiscal, permitindo absorção sem culpa de maior poupança externa.