Valor
Econômico
26/02/2007
Importações
e crescimento
Maria Cristina Pinotti
& Affonso Celso Pastore
Nas discussões sobre os problemas da economia
brasileira freqüentemente nos deparamos com afirmações sem nenhum respeito às evidências
empíricas. Como disse Thomas Huxley, a grande
tragédia da ciência é o assassinato de uma teoria muito bela por fato muito
feio, e no Brasil há uma grande revolta contra meros fatos que jogam por terra
belas teorias. Uma destas "teorias" é que o crescimento das
importações reduz o nível de atividade econômica.
Muitos não gostam de apoiar-se
Se não bastasse o fato de que já no século
XVIII, no mesmo momento em que lançou a pedra fundamental da ciência econômica,
Adam Smith destruiu a visão mercantilista de que os países enriquecem quando
acumulam superávits e reservas (antigamente era o ouro), há outros fatos que
não podem ser ignorados.
O primeiro deles é que, ao contrário do que
prega a "falsa teoria", o aumento dos saldos nas contas correntes
acarreta a redução do consumo e da formação bruta de capital fixo. No gráfico
anexo comparamos as exportações líquidas com a soma do consumo das famílias e a
formação bruta de capital fixo, todos medidos com relação ao PIB. É muito claro
que uma curva é o espelho da outra, e que um aumento no superávit nas contas
correntes tem como contrapartida uma queda no consumo e nos investimentos
(somamos consumo e investimentos porque o comportamento isolado de cada uma
destas variáveis é igual ao da sua soma). Uma depreciação cambial que eleve os
superávits contas correntes acarreta uma queda na formação bruta de capital
fixo em proporção ao PIB, e com isso, retarda em vez de acelerar a acumulação
de capital e o crescimento da economia. A única alternativa possível para que
um país aumente os superávits comerciais sem provocar uma redução na formação
bruta de capital fixo é o governo cortar seus gastos, hipótese muito distante
da realidade brasileira, que tem se caracterizado por vigorosos aumentos nos
gastos do atual governo.
Para que um país aumente os superávits
comerciais sem provocar redução na formação bruta de capital fixo o governo
deve cortar seus gastos
O segundo fato que não pode ser ignorado é que o
aumento das importações abre um espaço maior para a queda da taxa real de
juros, e com isso produz um segundo estímulo à formação bruta de capital fixo e
ao crescimento da economia. A razão é simples: se tudo o mais permanecesse
constante, o aumento das importações líquidas contrairia a demanda agregada,
mas o Banco Central reage a isto baixando a taxa real de juros. Este fato pode
ser facilmente reconhecido por quem utilizar um mínimo de intuição econômica,
mas passa despercebido por quem ficar apenas com a aritmética dos fluxos da
demanda agregada.
O terceiro é que o Brasil ainda tem um grau
muito elevado de protecionismo. Diante disso, o país ganharia se as importações
fossem estimuladas através de uma baixa adicional das barreiras tarifárias e
não tarifárias. Se alguém equivocadamente medir o grau médio de proteção
tarifária no Brasil simplesmente dividindo a arrecadação de impostos sobre as
importações pelo valor das importações, ficará com a falsa impressão de que o
grau de proteção é baixo. Mas esse é um argumento falacioso pois ignora que
existem barreiras não tarifárias tão ou mais eficazes do que as próprias tarifas,
e que em muitos casos, as tarifas são suficientemente elevadas para
simplesmente impedir as importações. Ou seja, são importados os produtos que
não sofrem (ou sofrem menos) as conseqüências das barreiras não tarifárias, ou
somente os que têm as tarifas mais baixas, produzindo uma tendenciosidade
naquela medida do grau médio de proteção.
A redução de tarifas abriria um espaço adicional
para a redução da taxa real de juros, e deveria preferencialmente (mas não
exclusivamente) atingir bens de capital e matérias-primas, baixando o custo do
capital. A segunda grande vantagem da queda das barreiras seria reduzir um
pouco a tendência à valorização do real. Embora no Brasil seja freqüente
atribuir-se a valorização cambial apenas às taxas domésticas de juros elevadas,
é preciso lembrar que independentemente das taxas de juros, os superávits nas
contas correntes contribuem para a valorização do câmbio real. Mesmo
reconhecendo o peso que as taxas de juros elevadas têm
nesta trajetória de valorização, é preciso também reconhecer que os superávits
nas contas correntes valorizam o câmbio real, e que importações mais elevadas
contribuem para a redução da taxa de juros e para reduzir a valorização. Longe
de reduzir a atividade econômica, o aumento das importações ajuda a expandi-la.
Affonso Celso
Pastore e Maria Cristina Pinotti são economistas e escrevem mensalmente às
segundas.