O Globo, 10 de
novembro de 2003
O país
dos tributos
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PAULO RABELLO
DE CASTRO
O Brasil torna-se um campeão. Na cobrança de tributos ninguém nos alcança mais.
O Brasil conseguiu uma proeza: atingiu avançada maturidade tributária, pela
pesada carga tributária cobrada à sociedade, antes mesmo de despertar como país
de desenvolvimento maduro. Alcançou um peso tributário (40% do PIB) de estágio
europeu, com prestação de serviços públicos de qualquer banana republic
.
A sociedade rejeita este campeonato. Quer redução tributária já. Mas o governo
brasileiro, premido por nebulosas projeções de arrecadação fiscal para 2004,
quer o contrário. Propôs — ao arrepio da votação em curso no Congresso Nacional
— uma medida provisória (MP), de número 135, em que eleva a alíquota da
Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) de três para
sete vírgula seis por cento sobre o faturamento das empresas.
A alíquota nova não incidirá mais de modo cumulativo sobre a cadeia produtiva.
O produtor descontará o que comprou para produzir. Logo, a taxação cairá por
cima das etapas de maior agregação de valor salarial e empresarial.
Até aí, tudo bem. Contudo, a elevação abrupta de mais de 150% na alíquota da
Cofins esconde o principal: o aumento na carga fiscal. A manutenção do status
de campeão da mais escandalosa carga fiscal do mundo parece ter se tornado uma
prioridade.
Errou o governo, ao esquecer de decretar a eliminação das outras contribuições
antiemprego e antiprodução, tais como o INSS-Empresa, a Contribuição sobre o
Lucro Líquido (CSLL) e a CPMF. Todas essas eliminações — por graduais que
fossem — caberiam na nova alíquota de 7,6% da Cofins, cuja arrecadação será
substancialmente majorada sem contrapartida positiva para ninguém. Portanto, só
uma corajosa redução tributária justificaria a surpreendente edição de uma MP
de 69 artigos, goela abaixo da sociedade.
Para elevar a carga brutal da Cofins mediante decreto, só mesmo se houvesse
imediatas e substanciais compensações sob a forma de extinção e compactação de
outras tantas contribuições. Nada disso foi apresentado.
Por isso o governo está errando, mesmo que, coincidentemente, lá pelas tantas,
a medida provisória prometa diversas “racionalizações” como a desoneração das
exportações e de bens de capital. O governo que toma do contribuinte, sem
prometer nada de volta, repete o voluntarismo autoritário das épocas passadas
de ocaso da nossa democracia.
O protesto generalizado contra a alíquota de 7,6% da Cofins não reflete, como
pensa o governo, apenas a vocalização dos “queixosos”, mas, de fato, o grito de
indignação e pânico de uma sociedade machucada pela mais extensa, virulenta e
ineficiente carga tributária do mundo.
Falta sensibilidade política também pelo modo como o apressado governante
passou ao largo do Congresso Nacional para alterar, por decisão solitária, a
distribuição das incidências de carga que recaem sobre cada etapa do processo
produtivo. Até para fazer o bem que ele pretende, faltou jeito e maneira ao governo.
O País dos Tributos abriga um monstro. O governo se propõe a domesticá-lo. Mas
a sociedade quer se livrar dele.
PAULO RABELLO DE CASTRO é economista.