Folha de São Paulo, quarta-feira, 31 de janeiro de 2007
PAULO RABELLO DE CASTRO
Piripaque
Qualquer anúncio de aceleração de gasto provocará ajuste
para baixo na riqueza esperada pelo setor privado
NUM PAÍS emergente, de massas pobres, nada supera em
importância social o objetivo do crescimento acelerado. O exemplo mais recente
e impressionante vem da China, que acaba de anunciar haver crescido mais 10,7%
-outro recorde- em 2006, sobre sua produção do ano anterior. Em um único ano de
crescimento tão acelerado, a China conseguiu resgatar cerca de 50 milhões
chineses para além da linha da pobreza. Em dez anos, serão 500 milhões, ou
seja, cerca de três vezes a população total do Brasil.
Aqui, com retardo de quatro anos, Lula lançou o PAC
(Programa de Aceleração do Crescimento). Pretende, com as medidas anunciadas,
fazer a locomotiva velha e emperrada andar ao dobro da velocidade da última
década: 5% anuais, contra os medíocres 2,5% obtidos na média dos anos da
estabilização econômica do Real. Conseguirá o milagre?
Ou teremos um piripaque tentando
acelerar a máquina ao ritmo de 5%?
Uma conta rápida: a 5% ao ano, ao final deste mandato de
Lula, cada brasileiro terá -per capita- mais R$ 1.300 de renda anual, ou o
equivalente a R$ 100 adicionais por mês, com direito a um décimo terceiro de
igual valor. Permanentemente. Essa é a diferença representada pelo acréscimo do
PIB -em apenas quatro anos- se o país vier a crescer 5%, em vez de repetir os
pífios 2,5%.
O impacto político de um PAC bem-sucedido
não precisamos ressaltar. Será a glória ou a desgraça do projeto
político do governo. Pacto social do Brasil ou piripaque
final.
Daí a importância crucial de acertar no diagnóstico do que,
de fato, empurrará para a frente a locomotiva
brasileira. Por que crescíamos tanto nos anos 50, 60 e 70, quando éramos mais
pobres, mais ignorantes e politicamente mais ingênuos?
Por que não mais? Não existem respostas triviais para essas
questões.
O governo continua errando no seu diagnóstico central do
estancamento do país. Invertendo a causalidade do problema, o governo enxerga a
máquina pública como solução. Por isso, anuncia um PAC que é 76% condicionado
por investimentos e iniciativas públicas. Os outros 24% é que são confiados ao
país que paga os impostos. O governo, com sua máquina obesa e suas regras
decadentes, não é a cura; ele é a doença.
O erro de inversão de diagnóstico provoca uma trágica matroca de terapêutica. O governo anuncia que gastará muito
mais, comandando o processo da retomada do crescimento. É fórmula que só
funciona, por pouco tempo, quando um país está sofrendo de crise financeira de
liquidez. Como na depressão americana dos anos 30. O inverso do caso
brasileiro. Aqui há sobrecarga financeira, com muito dinheiro girando para refinanciar o próprio governo, juros altos e câmbio baixo,
apreciado demais. E impostos à vontade. O oposto da típica situação keynesiana.
Logo, qualquer anúncio de aceleração de gastos -assim
explica a moderna teoria- provocará ajuste para baixo na riqueza esperada pelo
setor privado, que passará a descontar os impostos a mais a serem pagos para
financiar os juros e os demais gastos anunciados. O apoio empresarial ao PAC é
uma mentirinha diplomática. Os empresários -exceto os dos setores lá
agraciados- estão como estavam, decepcionados.
Qual a outra maneira? Essa reside em o governo, como uma
cobra, largar sua própria casca, por inteiro, renovando-se. Isso é o que espera
ver a sociedade. Largar a pele velha requer a
transformação que o PAC justamente não anunciou. Em vez de tentar, por exemplo,
mexer com FGTS, um fundo de investimento dos trabalhadores, deveria-se
criar, desde logo, o fundo de gestão da Previdência Social, passando a
capitalizar o INSS. Seria um choque positivo nas expectativas sobre o futuro e,
aí sim, estabelecendo novas inversões em infra-estrutura em nome do conjunto
dos trabalhadores brasileiros. Isso deveria fazer um partido dos trabalhadores.
E, para isso, já existe a lei, que há sete anos determina que se o faça. Idem
em relação aos Estados da Federação, cuja repactuação
de pagamentos de dívida é oportuna desde que assumam também o compromisso de
largar suas próprias cascas velhas, comandando suas bancadas para aprovar,
ainda em 2007, uma reforma tributária para valer.
PAC, sim, piripaque, não.
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PAULO RABELLO DE CASTRO, 58, doutor em economia pela
Universidade de Chicago (EUA), é vice-presidente do Instituto Atlântico e chairman da SR Rating,
classificadora de riscos. Preside também a RC
Consultores, consultoria econômica, e o Conselho de Planejamento Estratégico da
Fecomercio SP. Escreve às quartas-feiras, a cada 15
dias, nesta coluna.